Renato Casagrande, governador do Espírito SantoCrédito: Ricardo Medeiros
O governador Renato Casagrande (PSB) já trocou, em janeiro, os titulares de duas secretarias — Saúde (Sesa) e Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedurb) — e mais mudanças estão por vir. Na Sedurb, o PP foi contemplado e o próximo partido vai ser o Podemos, presidido no Espírito Santo pelo deputado federal Gilson Daniel.
"O Podemos só não faz parte do governo se não quiser", afirmou Casagrande à coluna, nesta quinta-feira (9).
"Estamos conversando com o Gilson. Se o Gilson identificar alguma área de interesse, o Podemos está convidado a fazer parte do governo", contou o governador.
Mas o próprio Gilson Daniel poderia ser o secretário? Há tempos sabe-se, nos bastidores, que o deputado federal acalenta o desejo de integrar novamente o primeiro escalão da gestão estadual.
Ele já foi titular das pastas de Governo e de Economia e Planejamento e é aliado de primeira hora de Casagrande.
O Podemos faz parte da base governista, mas não tem um secretário para chamar de seu, ou seja, que ocupe o cargo por indicação partidária. Maria Emanuela Alves Pedroso, que comanda a Secretaria de Governo, é filiada à legenda, mas considerada cota pessoal do governador.
Agora, Gilson Daniel vai poder indicar alguém.
A coluna apurou, porém, que esse alguém não vai ser o próprio Gilson Daniel. Há um impedimento político que remonta às eleições de 2024 e que teria reflexos nas eleições de 2026.
É que se Gilson se licenciasse do mandato de deputado federal, o suplente que assumiria o lugar dele, num primeiro momento, seria Coronel Ramalho (PL).
O coronel, ex-secretário de Segurança Pública do governo Casagrande, disputou a Prefeitura de Vila Velha em 2024 contra Arnaldinho Borgo, do Podemos, e fez críticas ao governo estadual e ao PSB.
Arnaldinho teve uma vitória esmagadora, mas Ramalho é ainda um potencial candidato a deputado federal em 2026. Se assumisse o mandato de Gilson, ganharia visibilidade para disputar o pleito contra candidatos da base aliada de Casagrande, entre eles Victor Linhalis, do Podemos.
Linhalis, ex-vice-prefeito de Vila Velha, tem base eleitoral na cidade canela-verde. Ele e Ramalho disputariam os mesmos votos.
Ou seja, elevar o coronel a deputado não interessa ao Palácio Anchieta e nem ao próprio Podemos.
"Yotra": Ao sair do Podemos, Ramalho afirmou que, assim, "abria mão da suplência", mas certamente não deixaria de assumir o mandato.
Pelo fato de o coronel ter ido para o PL, o Podemos contestaria o direito dele à suplência na Justiça e poderia até ganhar a causa, o que daria a cadeira para o segundo suplente, Brás Zagotto (Podemos), vereador de Cachoeiro de Itapemirim.
Mas essa disputa judicial levaria meses. Enquanto isso, o ex-secretário de Segurança exerceria o mandato e colheria os frutos políticos.
Gilson Daniel também vai disputar o pleito de 2026 e teria que deixar o cargo de secretário até o início de abril do ano que vem.
No Palácio Anchieta, a avaliação é de que "Gilson Daniel está impedido" de virar secretário. O governador mesmo não o convidaria nessas condições.
O problema não é o próprio Gilson, mas as consequências de uma eventual licença dele do mandato de deputado federal.
Casagrande não citou nada disso.
Mas, ao ser questionado sobre a possibilidade de o presidente estadual do Podemos virar secretário, respondeu que "é uma decisão dele (Gilson). Lógico que também tem questões internas do Podemos que ele tem que avaliar".
Por "questões internas" pode-se ler a estratégia ruim que seria dar visibilidade a Ramalho para concorrer contra Victor Linhalis.
A coluna tentou contato com Gilson Daniel e Linhalis, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.
OUTRAS MUDANÇAS
Além da entrada do Podemos no secretariado, o comando de outras pastas pode mudar, de acordo com o governador.
"Pode ser que tenha, não posso dizer que vai ter, mas é uma avaliação que estamos fazendo do governo", adiantou Casagrande à coluna.
E qual ou quais partidos seriam contemplados desta vez?
"Tenho que avaliar com os partidos, não sei qual o partido exatamente (indicaria eventualmente um novo secretário), mas estou fazendo uma avaliação mais ampla do governo em janeiro", completou o chefe do Executivo estadual.
Tal avaliação ocorre em ano pré-eleitoral. O governador, com essas alterações, reforça alianças para manter a coesão do grupo político que vai disputar o governo em 2026.
Também é preciso observar se as concessões políticas vão ou não afetar a qualidade dos serviços prestados pelo governo.
Não que a formação original do primeiro escalão já não tivesse um componente político, mas isso está se intensificando conforme se aproxima o pleito eleitoral.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.