Na homilia da missa da manhã deste domingo (15), em sua paróquia, o padre Kelder Brandão destacou dores e preocupações da semana que passou. De sua paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Itararé, Vitória, ele denunciou os recentes confrontos entre a
Polícia Militar e integrantes de facções criminosas na região de Tabuazeiro e do Território do Bem, que resultaram na morte de cinco pessoas.
O sacerdote fez um resgate do ministério profético de Jesus em direção aos empobrecidos e vulnerabilizados e lembrou como até Ele teve dificuldades para explicar sua missão aos próprios discípulos.
“Embora estivessem convivendo com Jesus há algum tempo, Pedro e os discípulos recusavam-se aceitar o projeto de Deus e como Jesus iria cumprir a sua missão. Pedro e os discípulos estavam presos à concepção antiga de Deus e da fé e queriam reproduzir a lógica perversa de poder, associado à violência e dominação”, lembrou.
E desabafou sobre a violência que tem marcado a capital capixaba há meses, concentrada na região onde está a sua paróquia.
“Não podemos agir como os discípulos que queriam que Deus resolvesse todos os problemas que nós mesmos criamos, como por exemplo, a violência que permanece em nossa paróquia, com a polícia que continua invadindo casas e matando pelo prazer de matar. Nos últimos dias cinco pessoas foram mortas pela polícia em nosso Território e entorno. Até quando vai continuar essa matança sem que a população e o governo tomem as devidas providências?”, indagou.
Padre Kelder também expressou seu incômodo com as explicações dadas pela Polícia Militar após os confrontos.
“O comandante da Polícia Militar, cinicamente, afirmou em entrevista que os policiais estavam fazendo estágio em um território de risco, dizendo publicamente o que as forças de segurança do Estado pensam a nosso respeito: nossa vida, a vida de quem mora aqui, a vida dos pobres é um alvo para treinamento dos policiais recém-formados. Em outra entrevista afirmou que vai continuar agindo assim, enquanto ele quiser, como se tivesse o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer no Espírito Santo”.
Em sua reflexão, padre Kelder, que também é vigário para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória, ainda abordou a crise climática e as queimadas que marcaram essa última e difícil semana.
“Está em nossas mãos a capacidade de transformar o mundo, da mesma maneira que está em nossas mãos a capacidade de destruí-lo, como estamos fazendo, com o país ardendo em chamas, a ponto de o sol perder o brilho e chuva que cai mudar de cor”.
E encerrou resgatando o significado do calvário enfrentado pelo Cristo: “A Polícia Militar não pode continuar matando do jeito que está matando sem que nós, discípulos de Cristo, nos manifestemos e ressignifiquemos essa cruz que pesa sobre nossos ombros”.