Maciel de Aguiar já escreveu 143 livrosCrédito: Divulgação
O encontro casual no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, mudou a vida de Maciel de Aguiar. O escritor capixaba, que aguardava o voo de retorno para Vitória, logo depois do GP de Interlagos, em 1991, teve uma conversa inesperada e não agendada com Ayrton Senna, no auge da carreira do piloto brasileiro de F-1.
Não era um dia qualquer. Naquele domingo, Senna obteve sua primeira vitória no Brasil e foi ovacionado por segurar o carro no braço, depois de a McLaren quebrar quase todas as marchas e ele se recusar a deixar a corrida.
“Eu tinha ido assistir à corrida. Estava pensando em escrever sobre as vitórias do Senna, mas não tinha começado a escrever nada. Apenas estava juntando material. Tinha pedido ao pessoal das bancas para guardar jornais e revistas da prova para mim. Recolhi tudo e parti para Guarulhos, onde pegaria um voo para Vitória”, lembra Maciel.
“Um amigo jornalista queria falar comigo e marcou a conversa no aeroporto, porque iria ouvir uns alemães que viriam investir no Brasil. Ele me chamou e fomos para a sala vip. Enquanto ele entrevistava os alemães, eu fiquei ali sentado numa poltrona e decidi dar uma olhada nos jornais e revistas que havia adquirido sobre o GP de Interlagos”, relata Maciel em entrevista ao jornalista José Caldas da Costa.
Jornais e revistas espalhados em cima de uma poltrona, Maciel revela o que aconteceu a seguir e que mudou sua vida: “Entrou um cara na sala e nem olhei para ele. Sentou-se na minha frente, a uns dois metros de distância. Eu estava fixado nos jornais e só vi as pernas. Ele deu bom-dia, eu respondi e nem olhei para a cara dele. Continuei separando os recortes”.
O “cara” sentado à sua frente viu aquele monte de jornais separados e comentou: “Você gosta de Fórmula 1 mesmo, hein?!” Quando levantou os olhos, Maciel custou a acreditar no que via: em sua frente estava, em carne, osso e simpatia, simplesmente, Ayrton Senna da Silva. Como se refazendo do susto, Maciel teve presença de espírito para brincar: “Eu não gosto muito não, sou é fã de um tal Ayrton Senna”. E o ídolo devolveu, com um leve sorriso: “Acho que já ouvi falar nele”.
Maciel começou a conversar com Senna, mas não contou nada sobre sua ideia de escrever um livro. Afinal, ele nem sabia se o livro sairia, estava apenas juntando material. Quando Senna abriu a pasta 007 e pegou um walkman (já é objeto de museu) para colocar o fone no ouvido, lembrou-se de sua pesquisa sobre Roberto Carlos. “Eu vi logo em destaque a Bíblia dentro da pasta dele e resolvi fazer as duas perguntas padrão que fazia por onde andava: Você gosta de Roberto Carlos? Qual a música dele que marcou sua vida?”
“Gosto, como todo brasileiro”, respondeu Senna, bem ao seu estilo direto. De repente, o piloto parou e falou: “Já dei centenas de entrevistas e ninguém nunca me perguntou isso. Eu tenho uma história de uma música de Roberto Carlos”.
Maciel conta que, naquela hora, “gelou” e quis saber qual a história. Senna, meio irônico, perguntou: “Você está com tempo?”. Para quem estava em busca de boas histórias, todo o tempo do mundo, até mesmo perderia o voo. Então, Senna disse que quando pilotava kart queria andar a 200 km por hora, mas o kart dava no máximo 90 km e ele ficava frustrado.
Maciel lembra que Senna, então, contou a história da música: “Quando fui estrear na F1 andei a até mais de 200km por hora, mas, na primeira corrida que ganhei, quando cheguei a 200km eu, casualmente, me lembrei da música de Roberto”. E ainda hoje Maciel se emociona: “Bicho, de repente, em minha frente, o Senna cantarolando: eu vou, voando pela vida, sem querer chegar, eu vou sem saber pra onde, nem quando vou parar... “
“Ele era fabuloso. Perguntei: você já contou isso para alguém? E ele me disse que nunca falou de coisas antigas. Perguntei porque não falou na entrevista na TV junto com Roberto Carlos e ele, simplesmente, disse: ele não me perguntou e eu esqueci”, completa o escritor, relatando que, depois de contar a história, Senna ficou contemplativo, olhando a pista do aeroporto. Até se emocionou. Nessa hora, Maciel fez outra pergunta, que teria desmoronado o ídolo: “Qual sua velocidade preferida?”.
Segundo Maciel, naquela hora Senna ficou pensativo e falou: “Ninguém nunca me perguntou isso. Quem é você que me faz perguntas que jornalista nunca fez? Mas vou te revelar uma coisa que nunca falei antes: já andei a 300km por hora, quando o velocímetro bate em 200km por hora eu me sinto nas nuvens, é como se eu saísse de mim. Eu fico em transe”. Naquela altura, os dois já conversavam como dois velhos amigos. Aquele papo durou cerca de uma hora, diz Maciel de Aguiar.
“Na primeira corrida que ganhei, a música do Roberto me veio casualmente à mente e, quando recebi a bandeirada, cantarolei dentro do carro, eu vou voando pela vida... “, contou. Maciel revelou ser escritor, e o piloto perguntou sobre o que ele escrevia. “Escrevo sobre coisas emocionantes na vida das pessoas”, respondeu o escritor capixaba que mora em São Mateus, no Norte do Estado.
A capa do livro sobre Ayrton Senna, que será lançado em 1º de dezembro, em São PauloCrédito: Divulgação
Maciel lembra que Senna sorriu e apenas disse: “Você podia escrever sobre minhas vitórias”. Àquela altura, o escritor já estava juntando o material, mas não contou para o ídolo. Apenas disse que gostaria de escrever. “Fico feliz em saber, já está autorizado. Mas você conhece os bastidores? Sabe do que aquele (soltou um palavrão) do Balestre fez?” (o francês Jean-Marie Balestre cassou a superlicença do piloto depois que Senna o acusou de beneficiar seu compatriota Alain Prost no GP do Japão, que encerrou a temporada de 1989 e quase comprometeu sua participação no campeonato de 1990).
O escritor ajudou com outro palavrão e ambos riram da situação. Como a conversa fluía, os assessores de Senna ficaram à parte, Senna pediu que Maciel, quando estivesse com Roberto Carlos, falasse da música “200km por hora” (o nome original da música é “120... 150...200 km por hora”), “que marcou minha vida”.
Antes de se despedirem, Senna abriu a maleta 007 com a Bíblia em evidência, tirou um cartão de visita, anotou um número de telefone pessoal e escreveu atrás: superação, dedicação e gosto pela vitória. E disse suas últimas palavras antes de virar as costas e sair para o embarque: “Quando você escrever meu livro, para você não se esquecer de que esta é a síntese de minha vida”.
“Nos despedimos, ele colocou o fone no ouvido e nunca mais nos vimos. Me entusiasmei e comecei a escrever ´Ayrton Senna, o herói do Brasil´. Eu já tinha muitas vitórias dele para escrever. E aquele encontro também me ajudou a concluir o livro ‘Roberto Carlos – as canções que você fez para mim´. Fiz mais de 300 entrevistas, mas selecionei 50 delas, porque muitas músicas eram repetidas. Mas a 50ª história foi única, a do Senna”, arremata Maciel.
O livro “Ayrton Senna – o herói do Brasil” será lançado dia 1º de dezembro em São Paulo, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, e dia 3 no Rio de Janeiro. Porém, por muito pouco o livro, o 143º de autoria de Maciel, não deixou de existir. Quando Senna bateu no dia 1º de maio de 1994, na tristemente famosa curva Tamburello, Maciel decidiu que não escreveria mais nada. Tentou queimar todo o material que havia reunido, na beira do mar, em Guriri. Gastou uma caixa de fósforos e o vento não deixava o fogo pegar. Voltou para o bairro Porto, em São Mateus, onde tem dois museus. A caixa com o material ficou dentro do carro e acabou guardada por um lavador de carros.
O escritor Maciel de Aguiar, 69 anos (11.02.1952), passou toda a pandemia recluso, como um ermitão, sem ver televisão, ou abrir sites noticiosos. Sabia da pandemia e se isolou dela, mas com um propósito claro: trabalhou 20 horas por dia para tirar de sua caixa de memórias e da caixa de papelão onde estavam guardados recortes de jornais e revistas, dezenas de fitas cassetes e cadernos de anotações, a história que traz a público o livro com as vitórias de Senna.
Um processo doloroso segundo ele, porque foi o reencontro com uma história que ele preferia esquecer. Desde o acidente no circuito italiano de Imola, nunca mais assistiu a uma corrida de Fórmula 1, como milhões de fãs de Ayrton Senna em todo o mundo. E somente voltou ao tema ao ouvir um amigo, que também relatou suas lembranças do dia do acidente. Então, Maciel de Aguiar decidiu continuar na senda, que agora virá ao conhecimento público.
ONDE COMPRAR O LIVRO
O livro "Ayrton Senna, o herói do Brasil", da Memorial Editora, tem 560 páginas e será vendido a R$ 130 a partir do próximo dia 20 na livraria do Shopping Jardins, em Jardim da Penha, em Vitória.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.