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Eleição em Vitória: saiba por que os católicos estão brigando tanto

Processo eleitoral coloca em confronto na Igreja os chamados progressistas e conservadores

Vitória
Publicado em 28/11/2020 às 04h00
Atualizado em 28/11/2020 às 04h00
Padre Kelder Brandão
Discurso do padre Kelder Brandão durante a missa aumentou a crise entre os católicos . Crédito: João Paulo Rocetti

disputa em segundo turno pelo comando da Prefeitura de Vitória não se restringe à esfera política. Uma luta nos bastidores se trava internamente na Igreja Católica, cujos membros estão claramente divididos entre as candidaturas de Lorenzo Pazolini (Republicanos) e João Coser (PT).

Essa divisão, a propósito, expressa uma outra bem maior, e mais complexa, que secciona a Igreja desde o Concílio Vaticano II, na década de 1960 do século passado: o confronto entre fiéis e religiosos mais à esquerda (também chamados de progressistas), abrigados na Teologia da Libertação, com seus oponentes mais conservadores, reunidos em movimentos como a Opus Dei, os tradicionalistas e a Renovação Carismática Católica (RCC), entre outros.

A eleição na Capital é apenas mais um capítulo desse enredo que opõe pessoas e movimentos com visões muito diferentes sobre o papel da Igreja no mundo e a função dos seus ministros ordenados e dos leigos. Vai para além da política - até mesmo a espiritualidade católica não é um consenso entre esses pólos antagônicos.

Para um fiel que não está familiarizado com essas minúcias de ordem teológica, pode parecer até que se trata de Igrejas bem diferentes e que têm poucos pontos de convergência, sendo um deles a autoridade papal.

A propósito, até a legitimidade de todos os papas após o Concílio Vaticano II é questionada por alguns grupos minoritários no Brasil e no mundo, mas isso é um outro assunto que não cabe aqui esmiuçá-lo. O que nos importa são as consequências da eleição em Vitória na vida e na unidade da Igreja Católica. E o resultado não é nada animador.

O fator que desencadeou essa luta surda nos bastidores da Igreja Particular de Vitória (como assim é definido canonicamente) foi um pronunciamento do padre Kelder Brandão, pároco da Paróquia Santa Teresa de Calcutá (Itararé), no final da missa do último domingo (22).

Um dos expoentes daquilo que muitos chamam de “igreja progressista” na Capital, o padre, segundo seus detratores, fez um discurso, no altar, claramente favorável ao petista. Em sua fala, Kelder exortava os fiéis a votar no candidato que, segundo ele, tem o programa de governo que mais se aproxima da doutrina social da Igreja. Os conservadores, claro, interpretaram como um chamamento ao voto ao candidato João Coser.

O vídeo com o discurso do padre Kelder circulou avidamente pelas redes sociais e provocou reações. A mais contundente foi a do pároco da Igreja Santa Rita, na Praia do Canto, que criticou o colega de Itararé. Frei Agostinho Morosini chegou a gravar um vídeo afirmando que a opinião de Kelder não expressava o pensamento da Igreja em Vitória e acusando o sacerdote progressista de provocar a divisão entre os fiéis.

Logo depois foi a vez de o pároco de Jardim da Penha gravar um vídeo, também em resposta. Padre Adenilson Schmidt alertou seu paroquianos de que o vídeo do padre Kelder não foi gravado na paróquia de Jardim da Penha, sugerindo que essa informação também estava circulando pela internet.

O arcebispo Dom Dario Campos
O arcebispo dom Dario Campos: silêncio total. Crédito: A GAZETA

Mesmo na estrutura de gestão da Arquidiocese de Vitória esse conflito não está sendo ignorado. A coluna apurou que alguns integrantes leigos do Conselho da Mitra Arquidiocesana, colegiado que integra a Cúria Metropolitana, o órgão “gestor” da Igreja, pediram demissão e outros ameaçam se desligar.

A maioria, segundo se sabe pelos bastidores, contrariados com o discurso do padre e com a suposta “omissão” do arcebispo dom Dario Campos, a quem “acusam” de ser ligado aos progressistas.

O padre Kelder, que atua numa das áreas mais violentas e vulneráveis de Vitória, o Bairro da Penha e seu entorno, também tem seus aliados. Além da simpatia óbvia que lhe devotam os setores mais à esquerda da sociedade, ele recebeu, nesta quinta (26), uma carta de apoio assinada por pastorais sociais e outras entidades da Igreja numa iniciativa liderada pela Comissão de Promoção da Dignidade Humana (antiga Comissão Justiça e Paz) da Arquidiocese de Vitória.

O conflito parece não ter fim. Diante de tantas divergências, o que tem feito o arcebispo para manter a unidade do seu rebanho, que está dilacerado pela disputa política? Mais do que isso: qual a linha teológico-pastoral do líder da Igreja na Capital, como ele se posiciona diante de confronto tão grave e constrangedor? Estranhamente, dom Dario não vem a público se manifestar; e quando é exortado a fazê-lo, responde com o silêncio.

Não se sabe, de fato, se o arcebispo está ignorando a crise ou se está tentando aparar as arestas internamente, sem alarde. Porque uma eventual omissão poderia custar muito caro aos católicos. Fiéis e ministros ordenados se digladiando publicamente e desorientados são terreno fértil para a cizânia e a desintegração. Ainda mais para uma Igreja traumatizada por cismas, heresias e divisões ao longo da sua história milenar.

É assim que se constrói o Reino dos Céus na Terra?

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