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Leonel Ximenes

Cidade homenageia os 100 anos do União Veadense no ES

Equipe histórica de futebol da cidade de Guaçuí completou seu centenário em 2017, mas só agora a prefeitura inaugurou uma placa comemorativa à data

Publicado em 15 de Junho de 2021 às 18:30

Públicado em 

15 jun 2021 às 18:30
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

Dona Madalena Emery de Carvalho (de máscara branca) inaugura a placa em homenagem ao centenário do União Veadense Foot-ball Clube, time que teve seu pai como um dos fundadores
Dona Madalena (de máscara branca) inaugura a placa em homenagem ao centenário do União Veadense Foot-ball Clube, time que teve seu pai como um dos fundadores Crédito: Léo Ola
Nos tempos em que Guaçuí era apenas Veado, uma vila do município de Alegre, eis que um grupo de rapazes resolveu inovar e concorrer com a sede do município, que havia acabado de ganhar um clube de futebol. Foi assim que nasceu, em 24 de novembro de 1917, o União Veadense Foot-Ball Club e Sociedade Esportiva, com bandeira nas cores alvirrubras.
Dentre os fundadores, e um dos seus primeiros jogadores, o popular Chiquinho, ou Dr. Francisco Lacerda de Aguiar, nascido em São José do Calçado, na Fazenda Castelo, mas filho de aristocrática família paulista que migrou para a região para plantar café e produzir leite. Chiquinho estudou nas melhores escolas de fora da cidade, formou-se engenheiro elétrico, se tornou político, governando o Estado por duas vezes, e emprestou seu nome ao estádio municipal de Guaçuí.
Desde os tempos mais remotos, sempre foi grande a rivalidade regional entre Alegre e seu distrito mais importante, Veado, mais tarde Siqueira Campos, em homenagem a um dos líderes do ataque ao Forte de Copacabana em 1922 e do movimento tenentista que convulsionou São Paulo em 1924, e que originou a famosa Coluna Prestes. Siqueira Campos morreu num acidente aéreo no Rio da Prata quando retornava para participar do movimento revolucionário de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.
Time do União Veadense Foot-Ball Club e Sociedade Esportiva, fundado em 1917
Time do União Veadense Foot-Ball Club e Sociedade Esportiva, fundado em 1917 Crédito: Divulgação
A emancipação de Veado deu-se em 1928, o batismo com o nome de Siqueira Campos em 1931 e a toponímia definitiva de Guaçuí (em tupi “águas de veado”) em 1943. Em 2020, Guaçuí ultrapassou Alegre pela primeira vez em população, estimada em 31.122 habitantes pelo IBGE, tornando-se a maior do Caparaó capixaba. Pouco mais de 1.100 habitantes do que Alegre, que perdeu parte de seu território recentemente para Jerônimo Monteiro.
Voltemos ao Veadense. Fiéis à rivalidade, a formação do time foi uma reação à fundação, em Alegre, do Rio Branco Sport Club, em 17 de setembro de 1917. Os jovens veadenses resolveram formar seu time, dois meses depois. O ato estava no esquecimento porque, ao atingir a maioridade, em 1935, o Veadense mudou de identidade: tornou-se Sport Club Capixaba, o time que foi conhecido por todas as gerações posteriores até os dias atuais.
Mas quem se preocupa com a história não morre na ignorância. Graças ao trabalho da Associação Sempre Viva, que reúne historiadores, escritores e outras pessoas preocupadas com a memória da comunidade, e é presidida pela comendadora Maria Madalena Emery de Carvalho, o Veadense foi resgatado e ganhou uma placa em homenagem ao seu centenário de fundação, colocada no Estádio Municipal.
“A homenagem era para ter sido feita há quatro anos, mas não houve reciprocidade da administração anterior”, lamentou a lúcida dona Maria Madalena, aos 96 anos. E ela tem motivos de sobra para se orgulhar do Veadense. Afinal, um dos fundadores foi seu pai, Wlademiro de Azevedo Carvalho, junto com o irmão Hermes de Azevedo Carvalho e mais Irineu Barberino, Lino Guimarães, Agenor Luiz Tomé, Adauto Barbosa Lima, Durval Emery, Machadinho e Chiquinho Lacerda de Aguiar, sob “inspeção técnica do Sr. Belotti”.
Antigo campo do União Veadense em Guaçuí
Antigo campo do União Veadense em Guaçuí Crédito: Divulgação
Dona Maria Madalena Emery, que permaneceu solteira até os dias atuais, é também sobrinha da pioneira dona Emiliana Emery, que é a primeira eleitora do Espírito Santo. Um dos filhos de Emiliana, Durval Emery, primo de Madalena, foi um dos fundadores do Veadense.
Membro da Associação Sempre Viva e presidente da Confraria Caparaoense de Letras e Artes (Concapla), o escritor Webber Müller, que, apesar do sobrenome, não tem nenhuma relação com o “inventor do futebol brasileiro” Charles Miller, elogiou a sensibilidade do secretário Eleon Spala, da Cultura.
Francisco Lacerda de Aguiar, o Dr. Chiquinho, um dos fundadores do União Veadense: ele foi duas vezes governador do ES
Francisco Lacerda de Aguiar, o Dr. Chiquinho, um dos fundadores do União Veadense: ele foi duas vezes governador do ES Crédito: Divulgação
“Spala foi um craque de bola que brilhou em times de renome internacional e mostrou-se sensível ao acolher nossas propostas de resgatar e preservar a memória e a história de nossa Guaçuí. A instalação da placa comemorativa ao centenário do União Veadense é o testemunho maior dos ensinamentos de Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira: todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje. Temos de saber o que fomos, para saber o que seremos”, filosofa Webber.
A placa em homenagem ao centenário do União Veadense não permite que caia no esquecimento o pioneirismo de seus fundadores e faz a cidade de Guaçuí sentir orgulho de um dia ter sido Veado.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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