O valioso apoio político-eleitoral do maior segmento evangélico do país está em disputa no Espírito Santo. O
governador Renato Casagrande (PSB), provável candidato à reeleição, recebeu na semana passada (22/2), para um café da manhã no Palácio Anchieta, a recém-eleita diretoria da Convenção das Assembleias de Deus no Estado do Espírito Santo (Cadeeso).
Por outro lado, o ex-deputado federal
Carlos Manato (PL), pré-candidato ao Palácio Anchieta com o apoio dos aliados do presidente
Bolsonaro (do mesmo partido), também se articula para obter apoio dos evangélicos, auxiliado pelo ex-senador e pastor Magno Malta, presidente estadual do
Partido Liberal. "Há muitos pastores comigo de diversas denominações", afirma Manato.
Chegou-se a anunciar que uma frente cristã, formada por 100 pastores e que representaria os evangélicos no Espírito Santo, teria fechado o apoio à reeleição de Casagrande, mas desde quarta-feira (2) começou a circular um documento, assinado pelo pastor Délio Nascimento, vice-presidente da Cadeeso, dando uma outra versão para o rega-bofe palaciano.
“A presença do ilustre presidente da Cadeeso, no café da manhã, atendendo gentilmente ao convite do exm° governador do nosso Estado, o ES, foi apenas um gesto de reciprocidade do presidente da instituição eclesiástica, a Cadeeso, ao exm° governador, que sempre prestigiou os conclaves convencionais de pastores”, diz trecho do documento.
A seguir, o pastor deixa patente que há divergências no entendimento do que representou o café da manhã dos pastores da Cadeeso com Casagrande: “Data máxima vênia, o presidente da MD/Cadeeso não orientou a ninguém hipotecar apoio ou costurar acordos políticos com o excelentíssimo governador do nosso
Estado, e nem esse tema foi matéria de pauta em reuniões da MD/Cadeeso”, diz a nota assinada pelo pastor Délio Nascimento.
Diante de posições tão díspares, a coluna procurou a direção da Cadeeso no Espírito Santo. A assessoria de imprensa da instituição diz que os “comunicados [da Cadeeso] são emitidos pela secretaria- geral” e que têm a “assinatura digital do presidente da instituição”.
Indagado se o documento assinado pelo pastor Délio Nascimento reflete a posição oficial da Convenção das Assembleias de Deus, o assessor Rodrygo Lima limitou-se a dizer que os comunicados são feitos em “papel timbrado da instituição” e complementou: “Qualquer comunicado emitido fora dos padrões não é oficial”.
Ele confirmou que Délio Nascimento é realmente o 2° vice-presidente da Cadeeso, mas não quis comentar um trecho do documento em que o pastor Délio Nascimento se declara porta-voz do presidente da Cadeeso, pastor Arnaldo Candeias. “Não tenho autorização pra falar sobre…”, respondeu exatamente desta forma, com reticências, pelo WhatsApp, o assessor de imprensa.
Rodrygo Lima também não respondeu se esse pastor está divulgando uma posição que não é a oficial da associação.
O aparente racha dos pastores da Assembleia de Deus no Espírito Santo incomodou o segmento. Tanto que nesta quinta-feira (3) à tarde, o presidente da Cadeeso, Arnaldo Candeias, enviou uma comitiva para novamente se reunir com o governador Casagrande no
Palácio Anchieta.
Presente ao encontro, o pastor Rafael Ferreira, presidente da Comissão para Assuntos Políticos (Comap) da Cadeeso, disse que em momento algum a instituição emitiu nota oficial sobre as eleições para governador.
“Como vamos apoiar alguém neste momento se ninguém se colocou como pré-candidato? Temos uma boa relação com o governador, pois sempre que necessário somos atendidos”, disse Ferreira. O pastor Arnaldo Candeias não foi ao palácio, mas, segundo o presidente da Comap, durante o encontro falou com Casagrande pelo telefone.
Diante desses encontros e desencontros, parece que os pastores da Assembleia de Deus não estão rezando pela mesma cartilha, pelo menos no que se refere ao candidato que vão apoiar este ano para o Palácio Anchieta.
Agora resta saber se as milhares de ovelhas da igreja vão, disciplinadamente, seguir seus líderes ou vão preferir caminhar por novas trilhas, por novos campos.