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Leonel Ximenes

Acusada de “comunista” pelo agronegócio, Soraya Manato recua e retira projeto

Agência de notícias do setor criticou violentamente a parlamentar capixaba por ter proposto taxar exportação de milho: "Desinformada", protestou

Públicado em 

07 fev 2022 às 16:23
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

Deputada federal Soraya Manato
Deputada federal Soraya Manato discursa na Câmara dos Deputados Crédito: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Quem tem de enfrentar o agronegócio, tem medo. A deputada federal Soraya Manato (PSL-ES) retirou de tramitação seu projeto de lei (2.814/21) que prevê a taxação de 15% sobre as exportações do milho brasileiro até o fim deste ano. Por causa da iniciativa da parlamentar capixaba, uma das maiores e mais tradicionais agências de informação do agronegócio do país chegou a acusá-la de “comunista” e “desinformada”.
Uma Manato “comunista”? Sim, temos. Ou melhor, tínhamos, pelo menos na imaginação de parte dos chefões do agronegócio brasileiro. Tudo começou quando a agência de notícias Rural Business, que está há 31 anos no mercado, fez um vídeo, no final de janeiro, criticando violentamente o projeto de Soraya Manato que taxa as exportações de milho.
“Quem é Soraya Manato? Pouco sabemos sobre essa deputada eleita pelo PSL do Espírito Santo. Mas de três coisas a Rural Business tem certeza. A primeira, ao que parece, a parlamentar tem forte viés comunista”, diz inicialmente a apresentadora do informativo em vídeo da agência.
A seguir, a apresentadora continua enumerando o “perfil” da deputada. “A segunda [certeza] é que ela não entende absolutamente nada de agronegócio. E a terceira, é que mostra absoluto desconhecimento da história e, sobretudo, de qualquer regra básica de livre comércio", concluiu.
Segundo matérias reproduzidas no vídeo da Rural Business, a parlamentar de primeiro mandato, que é médica, justifica seu projeto alegando que a alta nos preços do milho tem levado a uma preferência pelas exportações, o que, em sua visão, prejudicaria o abastecimento do mercado doméstico.
“A afirmação é tão sem noção que fica até difícil analisar”, rebate a apresentadora do canal. Segundo a Rural Business, as exportações de milho no Brasil “vêm em queda livre” e a safra atual, de 2020/2021, representa queda de 41% do volume exportado no período anterior e praticamente a metade do exportado há dois anos, segundo gráfico exibido no canal.
“Tudo isso aconteceu [queda nas exportações] por um único motivo: os preços subiram demais. E diferentemente do que diz aí a cara deputada, a falta de milho em razão das perdas de produção na segunda safra do ano passado gerou uma alta desenfreada nas cotações. E isso não está favorecendo as exportações de milho, mas sim limitando, pois está valendo muito mais a pena vender no mercado interno do que exportar”, argumenta o telejornal.
A apresentadora a seguir volta a ironizar a parlamentar capixaba e chega a questioná-la se Soraya Manato “leu algum dia sobre economia ou se analisou a história para aprender sobre os erros dos outros”.
Ela se refere à justificativa do projeto apresentada pela deputada federal, que cita Argentina e Rússia como exemplos de países que taxaram suas exportações de milho para combater a inflação e assegurar o abastecimento interno do produto.
“Usar a Argentina e Rússia para justificar uma intervenção no mercado agrícola aqui do Brasil? Sério? É isso mesmo? Será que a deputada está acompanhando o desenrolar da economia argentina e a crise que o atual governo de Cristina Kirchner e seu poste Alberto Fernandez vem causando ao país que já carregou o título de mais rico da América Latina”?, ironizou a jornalista do agronegócio.
“Equiparar o Brasil a uma Rússia, um país autoritário comandado pela vontade majoritária de um único homem há quase 20 anos? É isso que a excelentíssima senhora deputada Soraya Manato quer para o agronegócio brasileiro, que carrega a economia deste país nas costas?”, prosseguiu.
No final do vídeo, a apresentadora exorta os produtores de milho e os defensores do agronegócio brasileiro a se mobilizarem contra o que chama de “projeto ridículo” apresentado por Soraya Mantao. A locutora aponta que essa lei, se aprovada, pode causar prejuízos financeiros aos produtores do cereal.
“Intervir de alguma forma no agronegócio brasileiro é dar um tiro no próprio pé. Pois se falta milho hoje, vai faltar muito mais amanhã com esse seu inconsequente projeto de lei. Os produtores vão simplesmente debandar e ir atrás de outro mercado onde deputado algum se ache no direito de botar a mão.”

A JUSTIFICATIVA DA DEPUTADA

Em conversa com a coluna, o ex-deputado federal Carlos Manato, marido e mentor político de Soraya, alega que a deputada, antes de apresentar o projeto de lei, fez uma audiência pública em Brasília com produtores de ovos, suínos e frango, que estão reclamando dos custos de produção.
Segundo Carlos Manato, esse mesmo segmento no Espírito Santo, em agosto do ano passado, pediu à deputada, que se filiará ao PTB em março, que fizesse um projeto de taxação de exportação de 15% somente para o ano de 2022, de forma a permitir que o mercado interno ficasse abastecido do cereal.
Manato diz que posteriormente Soraya fez contatos com o Ministério da Agricultura e o da Economia e foi convencida de que a matéria dela feria a liberdade econômica, princípio que seria defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). Por isso, a parlamentar resolveu retirar de tramitação seu projeto na Câmara dos Deputados.

Leonel Ximenes

Iniciou sua história em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De lá para cá, acumula passagens pelas editorias de Polícia, Política, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Também atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 é colunista. É formado em Jornalismo pela Universidade Feedral do Espírito Santo.

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