É comovente assistir aos depoimentos dos profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate à Covid-19. Eles lutam nos hospitais de forma incansável para salvar vidas de pessoas que contraíram esse vírus tão destrutivo quanto desconhecido que surge, nas últimas semanas, com variantes ainda mais perigosas. Eles nos mostram a dura realidade de hospitais que, muitas vezes, não possuem os recursos – UTIs, leitos, equipamentos, oxigênio, medicamentos – mínimos necessários para lhes dar melhores condições para lutar pela vida.
Não é sem razão que os profissionais de saúde são considerados os grandes heróis dessa batalha travada pela humanidade contra esse vírus letal. Eles recebem homenagens de todos os tipos, de aplausos das janelas dos apartamentos de todos nós que estamos confinados nesta quarentena sem fim às mensagens emocionadas dos pacientes e de seus familiares que saem recuperados dos locais de atendimento.
É por essas razões que causaram tanto espanto, indignação e revolta o vídeo postado na internet por uma enfermeira da Santa Casa de Misericórdia, que havia sido vacinada no dia 19 – por atuar na linha de frente de combate à Covid-19 – zombando da eficácia da vacina: “Tomei por conta (sic) que quero viajar, não para me sentir mais segura; porque uma vacina que dá 50% de segurança, para mim não é vacina; eu tomei água”. No vídeo, a enfermeira aparece sem máscara, no posto de trabalho, durante o expediente.
A reação de indignação foi rápida. A Santa Casa de Vitória reiterou “sua postura clara e irrestrita com relação à importância da vacina como única solução possível para conter o avanço dos casos de coronavírus”. O Conselho Regional de Enfermagem disse ser “inaceitável que, após onze meses de enfrentamento à pandemia e em defesa da vida, um profissional de enfermagem se posicione nas redes sociais de forma irresponsável e inconsequente, comprometendo a ciência, a saúde e a vida das pessoas”. A Secretaria da Saúde lamentou “o posicionamento de qualquer profissional de saúde que desacredite da ciência em prol da vida”. O Ministério Público repudiou as atitudes da enfermeira reiterando que “a vacina é uma vitória da ciência”.
A atitude da enfermeira da Santa Casa – aliás, ex-enfermeira, porque foi desligada da instituição – pode ser considerada como um caso isolado entre os profissionais de saúde. Mas, infelizmente, ela é mais uma entre os milhares – ou milhões – de atitudes de brasileiros que são influenciados pela retórica negacionista do presidente da República. A protagonista do episódio não escondeu ser “bolsonarista” e, como tantos outros, desacredita na eficácia da vacinação, preferindo, por certo, o tal “tratamento precoce” de medicamentos desaconselhados pela ciência.
O episódio é apenas um entre tantos outros que lamentavelmente o governo federal deixa como legado ao meio dessa multidão de quase 220 mil brasileiros mortos.