Que 2020 foi um ano perdido, que tornou o mundo mais triste e pobre, creio que ninguém duvida. Um ano atormentado pela Covid-19, que contaminou milhões, matou uma multidão e que, no Brasil, já ceifou a vida de mais de 183 mil pessoas. No Espírito Santo, se já não bastassem as 4,6 mil mortes, o vírus retornou com força nessa véspera de Natal, colocando mais de 1,1 mil nas UTIs e superlotando novamente o sistema de atendimento à saúde.
Felizmente as autoridades capixabas têm sido competentes nas providências de combate ao vírus, monitorando a disponibilidade de leitos e orientando a população de forma adequada como relação ao distanciamento social, ao uso de máscaras e higienização das mãos, do vestuário e dos locais por onde circulam as pessoas. O que se vê, contudo, é que, mesmo com a orientação dada, a população não segue as recomendações e se expõe em aglomerações, contribuindo para que a contaminação se espalhe ainda mais.
Enquanto isso, o governo federal e, particularmente, o presidente da República, dá sucessivos shows de incompetência e irresponsabilidade. Se não bastasse negar a gravidade da doença – “não passa de uma gripezinha”, “já está no finzinho” – e pregar contra as medidas de prevenção, o governo se envereda em uma irresponsável campanha subliminar contra a vacinação ao cogitar a obrigatoriedade da assinatura de um termo de responsabilidade pelas pessoas que queiram se vacinar. O próprio presidente declarou que não irá tomar a vacina.
Até a cerimônia de lançamento do Plano Nacional de Vacinação, na última quarta-feira (16), que poderia representar uma mudança no comportamento do governo com relação ao combate à Covid-19, foi um péssimo exemplo de como proceder nesse período de recrudescimento da pandemia: uma multidão em ambiente fechado, sem respeitar o distanciamento social, com boa parte das pessoas sem máscara. Entre esses, trocando cumprimentos com as mãos, estavam o presidente da República e o ministro da Saúde.
Seria muito esperar outro comportamento de um governo que, desde a saída de Mandetta do Ministério da Saúde, só dissemina a desinformação e o mau exemplo. Sob o argumento de que não deveria prejudicar a economia, Bolsonaro sempre criticou as medidas restritivas às atividades não essenciais não percebendo que se a causa do problema não fosse combatida – no caso a disseminação do vírus – a economia continuaria sofrendo enquanto a doença perdurasse.
O mesmo equívoco o governo comete agora ao tentar prejudicar a vacinação em massa. Porque é evidente que só a vacinação será capaz de destravar a economia. Mas evidências como essa – tão óbvias e cristalinas – não conseguem penetrar em mentes intoxicadas pela obsessão ideológica contra os chineses, e pela obsessão política contra todos que possam representar uma ameaça à reeleição.