“Castelo - Cenário de nossa estória, cujos personagens e fatos são imaginários, nada tendo a ver com o povo dessa cidade que tanto nos ajudou na realização deste filme.” Eis a mensagem inicial de “Obsessão”, um clássico do cinema nacional rodado no município de Castelo, no Sul do Espírito Santo, na década de 70.
Com história original de Janete Clair, famosa autora de novelas da Rede Globo, o longa-metragem foi produzido, dirigido e estrelado por Jece Valadão, ator criado em Cachoeiro de Itapemirim e conhecido como o eterno “cafajeste” do cinema brasileiro. Lançado em 1973, teve orçamento acima dos padrões da época, razão pela qual foi classificado como superprodução pelo noticioso carioca "Jornal do Commercio".
A história parte do misterioso assassinato de Neuza, noiva do prefeito Bernardo Graça, personagem interpretado por Valadão. O título “Obsessão”, portanto, é inspirado na investigação promovida pelo revoltado prefeito, que parte obstinadamente em busca do responsável pelo crime e provoca um grande alvoroço na cidade. No decorrer das cenas, aspectos do cotidiano castelense estão presentes como o interior da Casas Dadalto e suas modernas televisões e geladeiras, a missa na Igreja Católica, a pracinha e até as charretes puxadas por burro, o então popular meio de transporte do interior.
A morte que conduz o drama está relacionada à descoberta de corrupção nas obras de uma ponte. Um motivo inerente ao período das gravações, no auge da ditadura militar, tempo de empreendimentos marcantes e de relações espúrias entre poder público e empreiteiras. A título de curiosidade, essa ponte, implodida nos instantes finais, tinha 120 metros de extensão e foi construída especialmente para o filme.
Do elenco, a maioria com carreiras importantes também na televisão, destacam-se Vera Gimenez, Rossana Ghessa, Edson França, Felipe Carone, Dionísio Azevedo, Neuza Amaral, Monah Delacy, Macedo Neto e Yara Cortes. Aliás, segundo reportagem da revista "Manchete", a participação da deslumbrante Vera Gimenez causou verdadeiro “rebuliço” entre os moradores de Castelo.
No fim de 1973, no Festival de Cinema Brasileiro da Baixada Santista, a película com toque capixaba recebeu o Troféu Pelé de Ouro de Melhor Filme, e Monah Delacy ganhou o de Melhor Atriz Coadjuvante. O primeiro prêmio, no entanto, foi contestado pelo crítico Rubens Ewald Filho, que em duro artigo publicado no jornal "A Tribuna", de Santos (SP), rotulou o trabalho de Jece Valadão de “uma radionovela de terceira classe”.
Se possui ou não qualidade, deixemos para os especialistas da área responderem. Ainda assim, ao menos sob o ponto de vista histórico, por sua equipe e por ter sido gravado no Espírito Santo, o filme merece ser assistido.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta