Publicado em 18 de março de 2021 às 10:45
- Atualizado há 5 anos
O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu, nesta quarta-feira (17), declarar constitucional a cota de exibição de filmes nacionais em salas de cinema. A obrigatoriedade de reserva de espaço para produção nacional foi instituída em 2001 por uma medida provisória, depois convertida em lei.>
A MP, porém, previa a vigência da regra por 20 anos, prazo que se encerra em setembro deste ano. Há projetos em curso na Câmara dos Deputados para estender a medida por mais 10 anos.>
A legislação define que o tamanho da cota deve ser regulamentada anualmente por decreto do Executivo federal. Em alguns anos, porém, o governo federal deixou de editar decreto nesse sentido.>
A cota costuma variar de acordo com tamanho das empresas proprietárias das salas de cinema. Em 2020, por exemplo, o local que tivesse apenas uma sala era obrigada a exibir por 27 dias filmes brasileiros. Já empresas com ao menos 201 salas deviam dedicar 57 dias de sua programação ao cinema nacional.>
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Os ministros Dias Toffoli (relator), Luiz Fux, Kassio Nunes Marques, Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Gilmar Mendes votaram a favor da manutenção da vigência da norma. O ministro Marco Aurélio foi o único a divergir.>
O julgamento ocorre em um recurso com repercussão geral reconhecida, o que significa que a decisão vale para todos os processos em curso no país sobre o tema.>
O caso concreto trata de uma ação movida pelo Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas do Estado do Rio Grande do Sul contrária à cota. Quando entrou com o processo na Justiça, em 2003, o decreto que vigorava estabelecia que as salas de cinema deveriam exibir filmes nacionais ao menos 63 dias no ano.>
A corte julgou em conjunto com essa ação um processo que discute a constitucionalidade de um decreto de 1963 que fixou percentuais mínimos para emissoras de rádio transmitirem programas culturais e jornalísticos locais. Nesse caso, o Supremo também se posicionou a favor da cota.>
Este tema chegou ao Judiciário após o Sistema de Comunicação Viaom ser desclassificado de licitação para assumir serviços de radiodifusão nos municípios de Jupi e Betânia (PE) porque sua proposta não atendia à condição de tempo dedicado a programas locais. Nessa ação, o relator é o ministro Luiz Fux, que defendeu o decreto da década de 1960.>
"O interesse socialmente desejável é conquistar uma audiência cativa para os programas de rádio oriundos do mesmo município onde se situa o ouvinte, em prol da inserção na comunidade política; do reforço aos laços de identificação e de pertencimento; da movimentação da economia local, dentre outros interesses", afirmou.>
Sobre os cinemas, Toffoli afirmou que não prospera o argumento do sindicato gaúcho de que a cota viola o princípio da livre concorrência na atividade privada. "Os impactos sobre a esfera jurídica dos envolvidos encontram-se suficientemente justificados e compensados pela promoção de outros valores constitucionalmente relevantes, como a promoção da cultura e da identidade nacional", disse.>
O ministro também citou que a norma estimula a indústria audiovisual brasileira e também a promoção dos interesses do consumidor.>
Toffoli mencionou dados do Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro e afirmou que nos anos em que o governo federal não editou decreto sobre o tema houve queda na exibição de filmes nacionais.>
Como exemplo, citou 2019, quando se observou crescimento de 7,9% no público total.>
"A maior parte desse aumento ocorreu no público dos filmes estrangeiros, que cresceu 9,4% em relação a 2018, já o público dos filmes brasileiros apresentou queda de 0,7%", afirmou.>
O ministro Alexandre de Moraes seguiu a mesma linha e fez uma defesa enfática da produção audiovisual brasileira.>
"Não é verdade que o cinema nacional não tem adeptos. O cinema nacional merece exposição porque, quando é expostos, vários filmes acabam tendo bilheteria maior inclusive que o cinema internacional, que o cinema hollywoodiano", disse.>
Segundo ele, vários filmes brasileiros, mesmo exibidos em um número de salas muito menores, acabam tendo audiência superior a obras estrangeiras.>
"Também é importante salientar que o patrimônio cultural nacional merece e tem garantido pela Constituição esse incentivo para que possamos realmente não só preservar a nossa cultura, mas gerar emprego, gerar renda e gerar tudo isso ao redor do sistema audiovisual", declarou.>
Barroso, por sua vez, destacou que a atuação do Estado é imprescindível em três áreas: educação, ciência e tecnologia e cultura. "Até em países mais ricos há fomento do governo nesses setores", disse.>
Para embasar seu voto, o ministro citou a canção "Comida", dos Titãs. "A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte", mencionou.>
Único a divergir, Marco Aurélio afirmou que a cota interfere na livre atividade econômica e questionou o precedente que pode ser aberto com esse julgamento.>
"Por que não estabelecer também cota quanto ao teatro, peças nacionais e estrangeiras? Por que não estabelecer cota relativamente aos livros que estão nas livrarias? Se o Supremo placita essa MP poderá placitar outras de intervenção normativa no mercado que deve ser livre", afirmou.>
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