“Gratifica-se a quem trouxer à fazenda de José da Rosa Machado os escravos de nomes Luiz e Ladislau, que fugiram no dia 1º do corrente”. A informação, publicada em janeiro de 1871 no jornal cachoeirense “O Estandarte”, nos leva para o século XIX, tempo do Brasil Império e da escravidão.
O cenário descrito é apenas um entre os incontáveis relatos similares divulgados na ainda embrionária imprensa capixaba. Por exemplo: nas primeiras semanas de 1871, após a tradicional virada de ano, os noticiosos locais também enfatizaram outras fugas como a de Izidora, Silvério e José, oriundos respectivamente de Vitória, Castelo e Cachoeiro de Itapemirim.
No sul do Estado, região de grandes fazendas que utilizavam essa valiosa mão de obra, os proprietários recorriam a todos os meios possíveis para recuperá-la, inclusive com anúncios nos jornais. Nesse sentido, duas semanas depois da primeira nota, o caso de Luiz e Ladislau permanecia em evidência, agora no “Correio da Victoria”, um dos impressos mais importantes da Capital.
Segundo a publicação, os dois escravos, ambos “crioulos”, escaparam da Fazenda Boa Vista, localizada em Cachoeiro. Luiz, de 30 anos, ostentava barba preta no queixo e não tinha o dedo mínimo do pé. Por sua vez, Ladislau, de 24 anos, era conhecido pelas pernas tortas.
Quem os achasse, conforme destacado nos periódicos, seria gratificado pelo senhor. Os dois citados, talvez pelos problemas físicos, tinham preço individual de captura fixado em 50 mil reis, valor baixo se comparado a situações semelhantes. Apesar disso, como mostra a repercussão, de modo algum o dono aceitava perder qualquer força de trabalho, ou seja, a fuga necessitava de plano eficaz para não resultar em nova prisão e, consequentemente, em violência.
A respeito do destino de Luiz e Ladislau, o mistério continua, afinal, nos meses posteriores não há menção a eles no noticiário. Assim, resta especular sobre as possibilidades e acreditar que, mesmo diante de tantos obstáculos, o corajoso ato desses jovens pode sinalizar que conseguiram livrar-se definitivamente dos maus-tratos e, por fim, desfrutaram da liberdade que jamais deve ser negada a nenhuma pessoa.
Como bem diz o escritor mineiro Guimarães Rosa, “o que a vida quer da gente é coragem”. Que a lição de bravura de Luiz e Ladislau, que lutaram contra um regime marcado pela crueldade, nos estimule a seguir em frente e fazer do próximo ano o melhor de nossas vidas.