O jornalista Carlos Lacerda, fervoroso anticomunista e ícone da direita, despertou paixões e ódios durante a sua carreira política. De personalidade marcante, estimulou golpes de Estado, produziu artigos e discursos incendiários e se opôs duramente aos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubistcheck e João Goulart.
Em 13 de julho de 1957, quando exercia o cargo de deputado federal pelo Distrito Federal (Rio de Janeiro), Lacerda aterrissou no aeroporto de Cachoeiro de Itapemirim para uma série de comícios promovidos por seu partido, a União Democrática Nacional (UDN). Ao seu lado, entre outros correligionários, desceram o senador Juracy Magalhães e o sinistro deputado Tenório Cavalcanti, que carregava uma metralhadora a tiracolo e era conhecido pelo codinome “homem da capa preta”.
Políticos locais também integraram a comitiva udenista, como o deputado estadual Eurico Rezende e Antônio Gil Veloso, então prefeito de Vila Velha. A estadia no Espírito Santo, de pouco mais de 24 horas, foi iniciada em Mimoso do Sul, local da primeira reunião. Sem demora, a autointitulada “Caravana da Liberdade” viajou para Muqui e Guaçuí, onde recebeu apoio de Emiliana Emery Viana, ilustre moradora local e primeira mulher capixaba a conquistar o direito ao voto.
Horas depois, passaram por Alegre e pelos distritos de Celina e Vala do Souza, hoje Jerônimo Monteiro. De volta a Cachoeiro, a caravana visitou o Sanatório Samuel Libâneo e o Jardim de Infância, espaço em que encontraram a educadora Zilma Coelho Pinto, uma célebre militante contra o analfabetismo. Em seguida, os trabalhos foram encerrados na Praça Jerônimo Monteiro, no centro da cidade. Ali, Carlos Lacerda referiu-se à antiga sede do governo federal, ocupada na época por Juscelino e sentenciou: “Que a UDN precisa do povo, não há dúvida. E uma prova está aqui, com a nossa presença. Mas que o povo precisa da UDN está mais do que evidente. E a prova está no Catete”.
Segundo a revista carioca “Maquis”, alinhada aos interesses conservadores, a população do Espírito Santo dispensou aos visitantes “um tratamento e uma acolhida realmente calorosa e carinhosa”. Ainda conforme a publicação, o objetivo da caravana era educar e esclarecer o eleitorado sobre os destinos do país, um trabalho “nunca feito na nossa história política”.
Nos anos posteriores à visita aos capixabas, Lacerda reelegeu-se deputado federal e na sequência foi eleito governador do recém-criado Estado da Guanabara, atual território do município do Rio de Janeiro. Sua grande ambição, porém, sempre foi a presidência da República, da qual achou estar mais próximo ao participar de forma ativa do golpe que derrubou o governo constitucional brasileiro em 1964.
Consolidada a tomada de poder, a expectativa logo transformou-se em frustração. Com direitos políticos cassados e arrependido por ter apoiado os militares, Carlos Lacerda foi ao encontro dos antigos rivais, o presidente deposto João Goulart e Juscelino Kubistcheck, a fim de construir uma frente pela redemocratização. Conhecida por “Frente Ampla”, a tentativa de união com os ex-presidentes acabaria extinta pelo Ministério da Justiça em 1968.
No final, o discurso extremista e o endosso ao golpismo, características de muitos udenistas, voltou-se contra o seu principal líder, agora derrotado pelo autoritarismo que ajudou a criar e sem perspectiva de subir a rampa do Palácio do Planalto. Assim, aos brasileiros restou conviver com a impossibilidade de escolher o presidente, afinal, as eleições presidenciais diretas retornaram apenas em 1989, mais de uma década após a morte de Carlos Lacerda.