É mestre em História pela Ufes. Neste espaço, a história capixaba é a protagonista, sem deixar de lado as atualidades. Escreve às terças

Gripe espanhola deixou um rastro de tristeza e mortes no ES em 1918

Baseado nos números expostos, nos relatos orais e no trabalho da imprensa, é possível constatar que a enfermidade, um pesadelo para milhões de pessoas mundo afora, também marcou a nossa história

Publicado em 05/05/2020 às 05h00
Atualizado em 05/05/2020 às 05h00
Arte covid-19 para capa do site
Covid-19. Crédito: Divulgação

Como dissertado na última coluna, a gripe espanhola, pandemia que assolou a humanidade em 1918, também se fez presente nos municípios do Espírito Santo. De forma rápida, a propagação do vírus alterou o cotidiano da sociedade e matou 123 pessoas apenas em Vitória e não no Estado todo como afirmamos no artigo anterior.

Na educação, as atividades foram encerradas após decreto do governador Bernardino Monteiro considerar aprovados os alunos com média de 5 pontos. O retorno às aulas, em fevereiro de 1919, misturou sensações. No interior, devido à continuidade dos efeitos da gripe, os municípios de Afonso Cláudio e Conceição da Barra adiaram o regresso. Já na Capital, a volta foi celebrada, pois, conforme lamentado pelo jornal “Diário da Manhã”, durante as férias forçadas pelo vírus, “parece que a vida normal da cidade perdera um pouco de sua habitual garridice e Vitória se toucara de tristeza”.

Quanto à mortalidade, segundo dados do governo do Estado, que podem estar subnotificados, somente nos últimos meses de 1918, no auge do contágio, a gripe espanhola respondeu por quase 19% de todos os 653 óbitos registrados oficialmente na Capital, isto é, ocupou a primeira posição entre as causas de morte no ano, uma referência do que pode ter acontecido no restante do território. Na sequência, empatadas com 14%, aparecem tuberculose pulmonar e as afecções do aparelho digestivo.

Ao detalharmos as estatísticas de 1918, temos as seguintes informações: 18 mortes em outubro, 96 em novembro e 9 em dezembro, um total de 123, sendo 63 homens e 60 mulheres. Desse número, a faixa etária mais afetada foi a de 0 a 10 anos, com 45 mortes. Completam o ranking: 2º – 20 a 30 anos, 31 mortes; 3º – 40 a 50 anos, 13 mortes; 4º – 30 a 40 anos, 10 mortes; 5º – 10 a 20 anos, 8 mortes; 6º – Acima de 60 anos e Idade ignorada, 6 mortes cada; 7º – 50 a 60 anos, 4 mortes. No ano seguinte, a gripe provocaria só nove falecimentos em Vitória, ficando em 16º lugar na lista das moléstias mais fatais.

Por se tratar de tema complexo e amplo, os impactos da “espanhola” no Espírito Santo ainda carecem de estudos aprofundados, algo que certamente surgirá num futuro próximo. Contudo, baseado nos números expostos, nos relatos orais e no trabalho da imprensa, é possível constatar que a enfermidade, um pesadelo para milhões de pessoas mundo afora, também marcou a nossa história.

Por fim, analisando 1918 e 2020, fica evidente a necessidade de aplicar mais recursos em ciência e tecnologia, bem como fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS), as universidades públicas e, principalmente, concretizar na vida de cada brasileiro o Art. 196 da Constituição: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”

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