O caso do ex-segurança negro George Floyd, morto por um policial branco nos Estados Unidos, desencadeou protestos antirracistas e debates sobre o destino de monumentos de personalidades ligadas à escravidão e ao autoritarismo. Parte das manifestações, como as realizadas nos EUA, Bélgica e Inglaterra, foram além das palavras e literalmente destruíram estátuas em louvor a essas figuras.
As disputas alusivas à memória não são recentes, todavia, por causa da dimensão das reivindicações, agora estão na agenda de milhões de pessoas, inclusive no Brasil, país também marcado pelo escravagismo e por regimes autoritários, tendo ainda produzido inúmeras homenagens aos respectivos períodos nos espaços públicos, algo que merece avaliação da sociedade.
"Cada estátua ou placa possui um histórico e requer análise individual, ou seja, a ideia da simples remoção de tributos questionáveis pode ser substituída por ações de ressignificação e contextualização"
Mais do que posicionar-se contra ou a favor da retirada abrupta dos símbolos, importa valorizar o debate. O historiador francês Marc Bloch, morto em 1944, tem uma frase sugestiva para o momento: “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”. Logo, é necessário estudar e debater à exaustão, pois, se honrarias ao escravismo e a ditaduras são consideradas normais, seguramente está aí um exemplo de ignorância do passado e do presente.
Em relação ao cenário brasileiro, o assunto provoca dúvidas e opiniões distintas. Mesmo entre historiadores e outros estudiosos, não há consenso. Cada estátua ou placa possui um histórico e requer análise individual, ou seja, a ideia da simples remoção de tributos questionáveis pode ser substituída por ações de ressignificação e contextualização.
Quanto à maneira adequada de atribuir novos significados, vale a discussão. O certo é que as modificações precisam ser efetivadas a partir de determinadas perguntas, tais como: Em qual governo foi construída? Houve diálogo com a comunidade local? Quais interesses estão envolvidos na tentativa de “imortalizar” o personagem? Por que nossos “heróis” são na esmagadora maioria brancos?
Baseado nas indagações, seria relevante a inclusão de biografias dos outrora celebrados nos próprios locais de homenagem ou num museu, até para a sociedade não esquecer que já reverenciou racistas, ditadores e torturadores. Paralelo as correções, é essencial trabalhar pela elaboração de critérios claros e justos ao nomear logradouros públicos e erguer monumentos, uma medida para evitar a repetição de equívocos.
Todas as reflexões são legítimas e a voz daqueles historicamente oprimidos precisa ser ouvida, contudo, derrubar violentamente não parece o melhor modo para lidar com o tema. Portanto, que se preserve a estrutura das obras controversas, mas reformulando o seu conceito, isto é, explicando os detalhes que envolveram a sua idealização e colocando-as apenas de forma simbólica no devido lugar.