Livros, família, história do Espírito Santo e de Minas Gerais. Assuntos de um agradável bate-papo com a saudosa prima e historiadora Zélia Cassa de Oliveira, lá em agosto de 2018, na Rua Dr. Chacon, “no Alegre”, município espírito-santense em que ela nasceu e que tanto amou.
Zélia faleceu aos 87 anos, no dia 9 de novembro de 2019, deixando considerável legado. Licenciada em Sociologia, também exerceu o cargo de professora. Já sua atuação voluntária, especialmente na Casa da Cultura de Alegre, na Academia Alegrense de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico de Alegre, a transformou em referência para pesquisadores da região e moradores locais.
Defensora convicta da educação e da cultura, jamais negou ajuda a quem a procurava, inclusive este colunista. No nosso derradeiro encontro, mencionado no início do texto, até a consulta médica foi atrasada para não interromper o interessante diálogo. Minutos depois, diante da insistência dos parentes, ela cedeu, mas não sem intimar o jovem historiador a retornar e concluir a conversa.
Ao partir, a veterana historiadora acabou não publicando o seu mais importante trabalho, fruto de décadas de pesquisa e do qual acertava os últimos detalhes antes de providenciar a impressão. A obra, intitulada “Os Alves de Araújo Ribeiro Soares: homens e mulheres forjados na luta”, era a “menina dos olhos” da autora, afinal o interesse em escrevê-la foi despertado após descobrir o centenário baú em que o pai, Eloy Cassa, guardava documentos antigos.
O livro aborda vários temas, mas é, sobretudo, a história da sua família. Grupo oriundo de Portugal, que fincou raízes no Estado de Minas Gerais e no século XIX aventurou-se pelas matas virgens do sul do Espírito Santo. Assim, de posse dos registros e anotações do progenitor, Zélia iniciou o caminho de volta para narrar a trajetória e a influência dos ascendentes em territórios mineiro e capixaba.
Seu objetivo, conforme destacado na introdução do manuscrito, é legitimar os antepassados “como agentes da história real e vivida, embora seus nomes estejam humildemente envoltos no mais puro anonimato”. Para alcançá-lo, arrecadou recursos com familiares e viajou por mais de 20 cidades mineiras a fim de visitar fontes orais e mergulhar em cartórios, paróquias, arquivos públicos e privados.
O resultado desse esforço está reunido em um estudo genealógico de caráter inédito, que supera 300 páginas e engloba biografias, parte da história do Espírito Santo e de Minas Gerais. Começa nos Alves de Araújo e Ribeiro Soares e percorre inúmeras outras famílias que ajudaram a povoar o sul capixaba e hoje estão espalhadas mundo afora.
Enfim, o livro é um presente para os capixabas. Trata-se de valiosa contribuição à historiografia e merece ser publicado, tanto pelo conteúdo, como em respeito à dedicação que Zélia sempre teve pelo ofício e com todos os amigos, colegas de profissão e admiradores.