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Dia do Soldado

Lott, o marechal que divergiu da elite militar e virou piada em Cachoeiro

Gozando de prestígio e com imagem de legalista entre setores do centro e das esquerdas, Lott, que passara à reserva como marechal em 1959, foi escolhido para disputar a presidência em 1960 pelo PSD

Publicado em 25 de Agosto de 2020 às 05:00

Públicado em 

25 ago 2020 às 05:00
Herbert Soares

Colunista

Herbert Soares Herbert Soares
Propaganda do General Lott
Cartaz com a propaganda do General Lott da época Crédito: Acervo do Arquivo Nacional
O Dia do Soldado, comemorado hoje, 25 de agosto, homenageia o nascimento do marechal Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, patrono do Exército. A data é celebrada desde 1923, no entanto, a escolha de Caxias como patrono foi homologada apenas em 1962, mediante decreto do então presidente João Goulart.
De Caxias a Jair Bolsonaro, passando por movimentos tenentistas e pelos generais-presidentes da ditadura, constata-se um número significativo de militares com papel determinante na sociedade brasileira. Um deles, que alcançou o posto mais alto do seu tempo, também destacou-se na política nacional: o marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, ex-ministro da Guerra e candidato a presidente da República.
Na posição de ministro, entre 1954 e 1960, adquiriu popularidade ao liderar o contragolpe de 11 de novembro de 1955, movimento vitorioso contra as conspirações que visavam impedir Juscelino Kubistcheck, presidente legitimamente eleito, de tomar posse. Na sequência, também garantiu a estabilidade do país ao sufocar as revoltas de Jacareacanga (1956) e Aragarças (1959), ambas lideradas por militares da Aeronáutica insatisfeitos com o governo JK.
Gozando de prestígio e com imagem de legalista entre setores do centro e das esquerdas, Lott, que passara à reserva como marechal em 1959, foi escolhido para disputar a presidência em 1960 pelo Partido Social Democrático (PSD), tendo ao seu lado João Goulart, atual vice-presidente e ícone do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), concorrendo à reeleição. A chapa, liderada por um militar sem traquejo político e vivência partidária, proporcionaria momentos curiosos, inclusive no Espírito Santo.
Durante a campanha, Lott promoveu comício em Cachoeiro de Itapemirim e sua performance entre os cachoeirenses virou piada na revista carioca Mundo Ilustrado. Segundo a publicação, o candidato sugeriu aos presentes que evitassem a monocultura do café e também plantassem milho verde. O discurso, no Estado em que a maioria vivia da produção de café, evidentemente não agradou e a resposta de um ouvinte veio em tom de deboche: “E por que não, também, batata frita?”.
Por fim, apesar da vitória de Goulart, já que a eleição de vice era separada, a aliança PSD-PTB não resistiu a força eleitoral de Jânio Quadros, do Partido Trabalhista Nacional (PTN), eleito presidente com 48% dos votos. No Espírito Santo, o detentor do jingle “varre, varre, vassourinha” também triunfou ao atingir 49,5%, seguido de Lott (32,9%) e Adhemar de Barros (17,6%).
Nos anos posteriores à derrota eleitoral, Lott permaneceu divergindo da elite militar. No episódio da renúncia de Jânio Quadros, chegou a ser preso por manifestar-se em defesa da Constituição e contra a tentativa dos ministros militares de barrar a posse do vice-presidente João Goulart. Também discordou do golpe de 1964 e na década de 1970 defendeu a abertura política e a anistia. Faleceu em 1984, e, conforme noticiado na imprensa da época, foi sepultado sem as honras fúnebres militares a que tinha direito.

Herbert Soares

Herbert Soares Herbert Soares

É mestre em História pela Ufes. Neste espaço, a história capixaba é a protagonista, sem deixar de lado as atualidades. Escreve às terças.

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