O Espírito Santo nasceu, oficialmente, com a chegada de Vasco Fernandes Coutinho e seus companheiros, em 23 de maio de 1535. A Vila do Espírito Santo, nossa Vila Velha atual, se prepara para comemorar os 500 anos de existência daqui a 14 anos.
Tanto a História quanto a prosa de ficção têm dado à luz importantes e elucidativas obras sobre os primeiros anos da colonização portuguesa em nosso Estado, a luta dos primeiros colonizadores contra os primitivos habitantes da terra, que resistiram bravamente à colonização, e todo o perverso processo de colonização com a participação ativa dos jesuítas, dentre os quais o hoje Santo Anchieta.
O problema se agrava quando o público-alvo é o estudantil, ou seja, jovens em formação. Poucos livros de História se tornam legíveis, por sua linguagem não se adequar ao nível de conhecimento linguístico e intelectual de jovens leitores. Dentre esses, destaco o “Donatários, Colonos, Índios e Jesuítas”, da historiadora Nara Saletto, e alguns títulos da coleção “Grandes Nomes do Espírito Santo”, coordenada por Antonio de Pádua Gurgel, como o “Frei Pedro Palácios” e “Padre José de Anchieta”, ambos escritos pelo historiador Gabriel Bittencourt.
Com relação à literatura, o caso é o oposto. Muitos autores, incluindo historiadores, escreveram obras de ficção sobre os primeiros tempos da colonização portuguesa e seus personagens, sendo o principal deles o professor e historiador Luiz Guilherme Santos Neves, ainda ativo e produtivo nos seus quase 88 anos.
Luiz Guilherme possui uma vasta obra publicada sobre o Espírito Santo, dentre as quais "A Nau Decapitada" (romance, Vitória, 1982), "As Chamas na Missa" (romance, Rio, 1986), "Escrivão da Frota" (crônicas, Vitória, 1997), "Crônicas da Insólita Fortuna" (crônicas históricas, Vitória, 1998), "O Templo e a Forca" (romance, Vitória, 1999), "O Capitão do Fim" (romance, Vitória, 2001).
Para crianças e jovens leitores, publicou: "Tião Sabará" (em parceria com Renato Pacheco, S. Paulo, 1999), "Eu Estava na Armada de Cabral" (Vitória, 2004), "Eu Estava no Começo do Brasil" (Vitória, 2007), "Crinquinim e D.Pedro II em Nova Almeida" (Serra, 2008), "Crinquinim e o Mestre Álvaro", "Dona Lenda conta Lendas Capixabas", dentre outros.
Muitos outros escritores contemporâneos escreveram sobre nossa história: Renato Pacheco, "Vilão Farto"; Alvarito Mendes Filho, "Vasco Fernandes Coutinho, Biografia romanceada"; Bernadette Lyra, "A Capitoa"; Neida Lúcia Moraes, "O mofo no pão", "O sentido da distância" e "À sombra do holocausto"; Claudio Lachini, "Vasco, Memórias de um precursor da globalização"; Jovany Salles Rey, "O Donatário"; Francisco Aurelio Ribeiro, "Nos Passos de Anchieta" e “Histórias Capixabas".
Parece que, diante do vazio da pesquisa historiográfica sobre o nosso passado colonial, a literatura se ocupou de preencher esse espaço, ainda que com outros recursos e o imaginário. Todavia, um livro recentemente publicado nesse universo destoa dos bons livros já editados. Trata-se do romance histórico de aventura, segundo o autor, Julio Bentivoglio, "A Pedra do Trovão - A lenda do tesouro perdido dos jesuítas", obra premiada com o primeiro lugar no edital de seleção de projetos culturais 2020 da Lei Aldir Blanc da Secretaria Municipal de Cultura de Vila Velha.
Não questiono a inverossimilhança da narrativa, nem a inconsistência na construção de personagens, mas sobretudo a falta de revisão gramatical, pois o texto possui dezenas de erros de ortografia, pontuação, concordância, regência, colocação, e deslizes inadmissíveis para um historiador, como: “Pedro Palácios construiu o Convento da Penha em 1558”(p. 54). Na verdade, ele construiu uma pequena ermida.
O Convento foi construído anos depois, no período da União Ibérica, e seu estado atual data de 1644. “Anchieta veio juntamente com o Padre Manuel da Nóbrega e outros jesuítas com os navios da armada de Tomé de Souza”(p. 54). A história afirma que ele veio com a esquadra que trouxe o governador-geral Duarte da Costa, em 1553. “Ele fundou em 1552 a Igreja de São Tiago”(p. 55). Impossível, pois chegou no ano seguinte. Igreja e Colégio foram construídos pelo Pe. Afonso Brás, em 1551. Paro por aqui, pois o espaço acabou, mas ainda há muito mais. Melhor revisar a obra antes de chegar aos alunos.