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Jornalista de A Gazeta há 10 anos, está à frente da editoria de Esportes desde 2016. Como colunista, traz os bastidores e as análises dos principais acontecimentos esportivos no Espírito Santo e no Brasil

Técnico x clube: quem fica na mão se sente traído, mas o jogo é assim

Treinadores pedem longevidade, mas saem quando recebem boas propostas. Maioria dos times não garantem tempo de trabalho e demitem quando resultados são ruins. Não há santos nesta história

Vitória
Publicado em 08/12/2020 às 05h00
Atualizado em 08/12/2020 às 05h03
Odair Hellmann deixou o Fluminense para comandar o Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos
Odair Hellmann deixou o Fluminense para comandar o Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos. Crédito: Mailson Santana/Fluminense FC

Antes de iniciarmos uma análise ou buscar uma conclusão definitiva sobre o assunto desta coluna, gostaria que você leitor, que gentilmente se propõe a acompanhar esse texto, faça um breve exercício: imagine que você, profissional já empregado na sua área de atuação, receba uma proposta de uma empresa concorrente da qual você trabalha, e ao se deparar com a sugestão do contrato observa que estão dispostos a lhe pagar mais do que o dobro do seu atual salário. E aí? Você permaneceria na empresa onde atua, ou trocaria de crachá sem olhar para trás? Qual seria a sua decisão?

A não ser que você seja bem desapegado a esse capitalismo selvagem em que vivemos e tenha ainda um apreço especial pelo seu local de trabalho, certamente a escolheria mudar de ares e desfrutar de um melhor vencimento. Foi exatamente isso que o agora ex-técnico do Fluminense Odair Hellmann decidiu. Deixou para trás um salário mensal de aproximadamente R$ 250 mil no Tricolor, para receber cerca de R$ 600 mil no Al Wasl, dos Emirados Árabes. Que pecado há nisso? Nenhum.

No entanto, toda vez que acontece um caso parecido como o de Odair Hellmann, o mundo do futebol levanta uma velha discussão pautada sempre pela decepção do lado que se sente o perdedor da negociação. Quando o clube oferece tempo de trabalho ao treinador, mas o técnico aproveita uma proposta “irrecusável”, geralmente diretoria e torcida se sentem traídos e julgam o ex-comandante como mercenário e outros adjetivos pejorativos.

Quando a situação é oposta: casos em que os treinadores pedem tranquilidade para trabalhar, mas são demitidos quando os resultados não aparecem, esses mesmos técnicos reclamam que não são valorizados, e tacham dirigentes de “resultadistas”, imediatistas e por aí vai. Mas o que temos são situações de mercado, onde profissionais e clubes possuem o direito de escolha a qualquer momento e, desde que cumpram com as cláusulas contratuais, cada um que siga seu caminho e suas convicções. São negócios.

Porém, o futebol não é uma empresa “normal”. Clubes ainda são instituições movidas por paixões, pelo sentimento de pertencimento do torcedor fiel. Por isso a mágoa. Nesse caso específico do Fluminense, Talvez doa no coração do tricolor e de parte da diretoria que lutou pela permanência de Odair Hellmann, o fato dele ter tido suporte dos dirigentes e não ter sido demitido no momento difícil. Afinal, o treinador que ganhou a torcida recentemente, foi muito criticado ao ser eliminado precocemente na Copa do Brasil e na Sul-Americana.

O aproveitamento de Hellmann no Fluminense, no geral, nem é dos melhores, é de 56%. Em 50 jogos, foram 24 vitórias, 12 empates e 14 derrotas. Mas a quinta colocação no Campeonato Brasileiro empolgou o torcedor, logo tanta lamentação. Mas o treinador não quis pagar pra ver e arriscar ser mandando embora, caso tivesse uma outra sequência de resultados ruins, tanto que desabafou após a vitória por 3 a 1 sobre o Athletico-PR no último sábado (05).

“Quando não tem a vitória, eles crescem, ficam com a unha desse tamanho. Não fazem avaliação do que está acontecendo, de um clube que vem de dificuldade financeira há anos, que o presidente Mário Bittencourt assumiu pagando 10 salários em sete meses. É um processo. Não existe mágica, nem na vida e principalmente no futebol. E principalmente sem dinheiro. É um processo lento, difícil, porque vai ter oscilações, derrotas. É aí que tem que ter força, convicção. Essas coisas atrapalham muito ao Fluminense”, declarou. 

No fim, trata-se de “business”, nada mais que isso. Só esperamos que quando a situação for contrária não haja hipocrisia. Que o treinador aceite sua demissão, faça cumprir as cláusulas previstas e vida que segue. Essa é a situação mais provável de acontecer, já que o futebol brasileiro demite em larga escala. A pressão por resultado nos gramados brasileiros é realmente exacerbada. Mas essa visão do esporte vai ser papo para uma outra coluna. Até a próxima!

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