Ao contrário do que muitos pensam, o
futebol está longe de ser um
mundo que gira exclusivamente em torno de seus acontecimentos. Principalmente no
Brasil, país em que boa parte da população ainda respira o esporte e o usa como metáforas para explicar diversas situações do cotidiano. Logo, é impossível não perceber como as discussões sobre o futuro das competições de calendários estaduais e nacionais refletem o contexto que vivemos: uma sociedade que se recusa a enxergar os fatos e os estudos científicos que apontam o
isolamento social como a melhor medida de combate a disseminação do novo coronavírus.
Mesmo assim, milhares de pessoas ainda tratam a Covid-19 como uma "gripezinha", ou pior: continuam a frequentar sociais e curtir o momento com os amigos. Aglomerações e mais aglomerações desnecessárias, que apenas contribuem com a propagação do vírus. Simplesmente não há empatia com as vítimas da doença, com a dor das famílias, com o trabalho dos profissionais da saúde, com nada. Um total desrespeito desses que pedem não só a volta do futebol aos gramados, mas a volta de suas "vidas normais", como se fossem os únicos incomodados com a situação. A essa altura já não deveria ser preciso dizer que cada um tem que fazer sua parte. Era para ser óbvio, mas a insensibilidade a dor do outro não permite.
Muito disso é motivado pelo péssimo exemplo que vem do Palácio do Planalto. Além de seguir desrespeitando as medidas de prevenção nas movimentações de seus apoiadores, o
presidente Jair Bolsonaro já se mostrou favorável ao retorno das competições de futebol pelo Brasil sob a justificativa de fazer a economia dos clubes girar, mesmo argumento que usa quando fala que as pessoas precisam voltar aos seus postos de trabalho e movimentar o comércio.
A compreensão de que a pandemia provoca impactos devastadores na economia é necessária, mas não pode se sobrepor a percepção de que vidas são prioridade no momento em que vivemos. Por mais que seja forte a dor de ver times de pequeno porte perdendo renda, jogadores e diversos outros profissionais da esfera esportiva sendo demitidos, o fluxo financeiro não pode estar acima de tudo.
Na noite da última quarta-feira, 06, o Flamengo divulgou que realizou testes de coronavírus em 293 funcionários do clube, e 38 testaram positivo, sendo três jogadores. Vale lembrar aqui também que
o massagista Jorginho, que estava há 40 anos no Rubro-Negro, faleceu vítima de Covid-19. O Grêmio que já até iniciou os trabalhos físicos também informou que o jogador Diego Souza e outros dois funcionários também testaram positivo. Está claro que não é hora de acelerar o retorno das competições e colocar tantas vidas em risco. Mesmo que as partidas aconteçam com os portões fechados, muitas pessoas precisariam trabalhar e fatalmente poderiam acabar infectadas.
Pelo menos é bom saber que no
Espírito Santo, o retorno das competições está fora de cogitação ao menos nesse mês. Em entrevista ao Globoesporte.com/es, Gustavo Vieira, presidente da Federação de Futebol do Espírito Santo (FES), garantiu que a bola só volta a rolar com o aval dos órgãos competentes.
"A nossa posição é de somente retomar os campeonatos do
futebol no Espírito Santo a partir da autorização da
Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). E, sem um cenário em condições, não existe nenhuma previsão de data para os retornos dos treinos e dos campeonatos. Estamos mantendo um contato constante com o secretário Nésio Fernandes, que já nos sinalizou quanto a impossibilidade da volta ainda neste em maio. Então, no final deste mês, nós iremos entrar em contato com o secretário para saber qual é o panorama para o junho."