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Jornalista de A Gazeta há 10 anos, está à frente da editoria de Esportes desde 2016. Como colunista, traz os bastidores e as análises dos principais acontecimentos esportivos no Espírito Santo e no Brasil

Pedir a volta do futebol no Brasil reflete sociedade insensível a dor do outro

O presidente Jair Bolsonaro e alguns dirigentes ligados ao esporte defendem o retorno das competições. Cogitar esta hipótese em um momento que o Brasil atingiu números alarmantes durante a pandemia do novo coronavírus é, infelizmente, mais um triste reflexo social

Publicado em 09/05/2020 às 06h01
Atualizado em 28/08/2020 às 15h07
A maioria dos países permanece com as competições de futebol paralisadas devido à pandemia do novo coronavírus
A maioria dos países permanece com as competições de futebol paralisadas devido à pandemia do novo coronavírus. Crédito: Freepik

Ao contrário do que muitos pensam, o futebol está longe de ser um mundo que gira exclusivamente em torno de seus acontecimentos. Principalmente no Brasil, país em que boa parte da população ainda respira o esporte e o usa como metáforas para explicar diversas situações do cotidiano. Logo, é impossível não perceber como as discussões sobre o futuro das competições de calendários estaduais e nacionais refletem o contexto que vivemos: uma sociedade que se recusa a enxergar os fatos e os estudos científicos que apontam o isolamento social como a melhor medida de combate a disseminação do novo coronavírus

A Covid-19 já provocou quase dez mil mortes e infectou mais de 145 mil pessoas só no Brasil. Nesta última sexta-feira (08), o Ministério da Saúde divulgou dados de 751 mortes em apenas 24 horas, triste recorde. Nesse momento não há como pensar em um possível retorno das atividades do principal esporte do país.  

Mesmo assim, milhares de pessoas ainda tratam a Covid-19 como uma "gripezinha", ou pior: continuam a frequentar sociais e curtir o momento com os amigos. Aglomerações e mais aglomerações desnecessárias, que apenas contribuem com a propagação do vírus. Simplesmente não há empatia com as vítimas da doença, com a dor das famílias, com o trabalho dos profissionais da saúde, com nada. Um total desrespeito desses que pedem não só a volta do futebol aos gramados, mas a volta de suas "vidas normais", como se fossem os únicos incomodados com a situação. A essa altura já não deveria ser preciso dizer que cada um tem que fazer sua parte. Era para ser óbvio, mas a insensibilidade a dor do outro não permite.

Muito disso é motivado pelo péssimo exemplo que vem do Palácio do Planalto. Além de seguir desrespeitando as medidas de prevenção nas movimentações de seus apoiadores, o presidente Jair Bolsonaro já se mostrou favorável ao retorno das competições de futebol pelo Brasil sob a justificativa de fazer a economia dos clubes girar, mesmo argumento que usa quando fala que as pessoas precisam voltar aos seus postos de trabalho e movimentar o comércio.

A compreensão de que a pandemia provoca impactos devastadores na economia é necessária, mas não pode se sobrepor a percepção de que vidas são prioridade no momento em que vivemos. Por mais que seja forte a dor de ver times de pequeno porte perdendo renda, jogadores e diversos outros profissionais da esfera esportiva sendo demitidos, o fluxo financeiro não pode estar acima de tudo.

Jorginho, massagista do Flamengo por 40 anos, perdeu a luta contra a Covid-19
Jorginho, massagista do Flamengo por 40 anos, perdeu a luta contra a Covid-19. Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

Na noite da última quarta-feira, 06, o Flamengo divulgou que realizou testes de coronavírus em 293 funcionários do clube, e 38 testaram positivo, sendo três jogadores. Vale lembrar aqui também que o massagista Jorginho, que estava há 40 anos no Rubro-Negro, faleceu vítima de Covid-19. O Grêmio que já até iniciou os trabalhos físicos também informou que o jogador Diego Souza e outros dois funcionários também testaram positivo. Está  claro que não é hora de acelerar o retorno das competições e colocar tantas vidas em risco. Mesmo que as partidas aconteçam com os portões fechados, muitas pessoas precisariam trabalhar e fatalmente poderiam acabar infectadas. 

FUTEBOL CAPIXABA

Pelo menos é bom saber que no Espírito Santo, o retorno das competições está fora de cogitação ao menos nesse mês. Em entrevista ao Globoesporte.com/es, Gustavo Vieira, presidente da Federação de Futebol do Espírito Santo (FES), garantiu que a bola só volta a rolar com o aval dos órgãos competentes. 

"A nossa posição é de somente retomar os campeonatos do futebol no Espírito Santo a partir da autorização da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). E, sem um cenário em condições, não existe nenhuma previsão de data para os retornos dos treinos e dos campeonatos. Estamos mantendo um contato constante com o secretário Nésio Fernandes, que já nos sinalizou quanto a impossibilidade da volta ainda neste em maio. Então, no final deste mês, nós iremos entrar em contato com o secretário para saber qual é o panorama para o junho."

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