A crise da Apex Partners ganhou rapidamente o apelido de “Master capixaba”. A comparação é compreensível: a gestora enfrenta um passivo preliminar de pelo menos R$ 985,6 milhões, executivos foram afastados, uma auditoria independente foi contratada e investidores e credores estão expostos a potenciais prejuízos gigantescos. Entre as operações que estão no centro da crise estão a aquisição de participação na CVC e os problemas envolvendo o fundo BRM Carbyne.
Na minha visão, é cedo para afirmar que estamos diante de um escândalo com as características do Banco Master e, principalmente, para afirmar que crimes foram praticados. Investigações, auditorias e processos ainda deverão esclarecer responsabilidades. O que já existe, entretanto, é uma crise financeira de grandes proporções — e muitas perguntas ainda sem respostas.
No que tange à operação de compra de parte da CVC, a pergunta que fica é: como garantir retorno certo quando o investimento, por natureza, é incerto? Esse talvez seja um dos pontos principais.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, fundos ligados à Apex chegaram a adquirir cerca de 15% da CVC. A operação envolvia, segundo as reportagens, uma promessa de retorno garantido aos investidores, o que, no entanto, acabou tornando-se impossível de concretizar, haja vista a queda das ações, que girou em torno de 30%.
Vamos simplificar. Se alguém investe em uma ação, aceita um risco elementar: o preço da ação pode subir ou cair. Afinal, todos sabem que o mercado de ações é um investimento de risco. Se eu compro uma ação por R$ 100 e ela passa a valer R$ 70, perdi R$ 30. É o mercado.
Mas se, mesmo sabendo disso e conhecendo as regras de mercado, alguém promete ao investidor que ele receberá determinado retorno independentemente do que acontecer com aquele ativo, surge uma pergunta óbvia: quem assume o risco no caso de queda do preço das ações?
Se o investidor não assume, porque conta com a “garantia” oferecida pela Apex, a própria Apex deve assumir esse risco. E, obviamente, precisa ter capacidade financeira para arcar com eventuais prejuízos e honrar o compromisso assumido com os investidores.
Uma operação de investimento, no entanto, pode se transformar em um problema de liquidez e, posteriormente, em um problema de solvência. O caso do BRM Carbyne ajuda a entender a segunda parte da história. De acordo com o que foi divulgado pela imprensa, o fundo, gerido pela BRM Carbyne e administrado pelo BTG Pactual, teve os resgates suspensos em meio à crise.
Também aqui é importante explicar de forma simples: imagine um cofre cheio de dinheiro oriundo de investimentos. Os investidores podem querer retirar sua parte hoje, mas pode acontecer de os ativos não conseguirem ser vendidos imediatamente — ou de só poderem ser vendidos por um preço muito inferior ao esperado.
Isso gera um risco importante de liquidez. Por isso, fundos de investimento precisam ser estruturados de forma que os compromissos assumidos com os investidores sejam compatíveis com a liquidez dos ativos existentes.
Não há nada de errado em correr riscos. O problema é correr riscos que não estão adequadamente dimensionados ou transferi-los sem que isso esteja claro para quem está tomando a decisão (e que conta com uma garantia que, futuramente, não poderá ser honrada).
Outro ponto que chama a atenção e que merece ser analisado de perto: os mecanismos de controle existentes foram capazes de identificar, questionar e limitar os riscos antes que eles se transformassem em uma crise de proporções bilionárias? Nessa altura do campeonato, todos nós sabemos a resposta.
Ainda é cedo para saber exatamente onde os controles falharam na Apex. Mas as informações divulgadas até agora levantam dúvidas importantes: os riscos estavam sendo adequadamente avaliados? Havia limites efetivos para a concentração das exposições? A liquidez necessária para honrar os compromissos foi suficientemente testada? Existia uma estrutura independente, com autoridade para questionar ou interromper operações que apresentassem risco excessivo?
Se os mecanismos de controle existissem e tivessem funcionado adequadamente, talvez a história fosse outra. Disso tudo há uma lição que independe do resultado das investigações: não existe almoço grátis.
No mercado financeiro, retorno e risco caminham juntos. Quanto maior a promessa de retorno, mais relevante se torna investigar o risco existente na operação. E isso, obviamente, vale não apenas para grandes investidores.
Toda pessoa que recebe uma proposta de investimento “imperdível”, com retorno elevado ou, pior ainda, garantido, deve desconfiar do milagre. No fim das contas, a pergunta mais importante talvez seja a mais simples: se é tão bom, por que alguém está me oferecendo isso?
Essa, aliás, é a lógica por trás de inúmeros estelionatos, pirâmides financeiras e tantos outros golpes aplicados todos os dias: a promessa de um ganho extraordinário com um risco aparentemente inexistente.
A crise da Apex ainda está longe de ter todas as suas respostas. Novos documentos, auditorias e eventuais investigações poderão revelar responsabilidades que hoje ainda não conhecemos — inclusive, eventualmente, responsabilidades criminais.
À medida que novas informações forem reveladas, talvez seja necessário voltar ao caso. E, então, será possível escrever não apenas sobre as perguntas que fazemos hoje, mas sobre as respostas que as investigações terão produzido.