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Segurança

A ousadia dos traficantes em Vitória e a Teoria das Janelas Quebradas

Algumas ações, como pintar um muro pichado por criminosos, são de grande simbolismo e importância na guerra contra a criminalidade

Públicado em 

22 mai 2021 às 02:00
Eugênio Ricas

Colunista

Eugênio Ricas

Pichação com ameaça em muro da Ilha do Príncipe, Vitória
Pichação com ameaça em muro da Ilha do Príncipe, em Vitória Crédito: Ricardo Medeiros
Em março de 1982, os cientistas sociais e professores da Universidade de Harvard James Q. Wilson e George L. Kelling publicaram um artigo no qual apresentaram a chamada Teoria das Janelas Quebradas. Em apertada síntese, a teoria defendia que se uma janela de um edifício fosse quebrada e não fosse reparada no menor espaço de tempo possível, a tendência seria que outras pessoas quebrassem também outras janelas. Em seguida, vândalos passariam a ocupar o prédio e, posteriormente, a destruí-lo.
A teoria defende, portanto, que sinais visíveis de crime, comportamentos antissociais e desordem civil criam um ambiente que encoraja outros crimes, novas desordens e, até mesmo, delitos mais graves. O estudo aponta como estratégia para combater o crime e o vandalismo que os problemas sejam prontamente atacados e resolvidos enquanto ainda são pequenos. Agindo assim, afirma a teoria, os pequenos delitos são evitados e os crimes maiores tendem a diminuir.
Na década de 1990, a teoria influenciou fortemente a política de segurança pública de Nova York quando o chefe de polícia William Bratton e o então prefeito da cidade, Rudy Giuliani, basearam o modelo de gestão na área da segurança nos fundamentos daqueles estudos. Obviamente, uma política de segurança eficaz não pode, nos dias atuais, se encerrar nos princípios da Teoria das Janelas Quebradas. Mais do que nunca, é preciso investir na chamada prevenção primária, com investimentos consistentes em educação, saúde, moradia, esportes e outras políticas sociais.
Algumas ações, no entanto, são de grande simbolismo e importância na guerra contra a criminalidade. Em março deste ano, criminosos picharam um muro no acesso principal à Ilha do Príncipe, em Vitória. Em tom desafiador, os marginais ameaçaram mandar bala nos moradores. Os fatos foram divulgados pela imprensa e, horas depois, a Prefeitura de Vitória determinou a pintura do muro.
No início do mês de maio, mais uma vez criminosos, em total afronta ao Estado e às forças de segurança, picharam um muro no Romão. Numa tentativa de exaltar o poder paralelo estabelecido pelo tráfico, os bandidos determinavam, por meio da pichação, que motociclistas tirassem o capacete, motoristas abaixassem os vidros e ainda falavam em bala, fazendo referência ao poderio bélico que possuem.
Mais do que um ato de vandalismo, as pichações realizadas pelos criminosos pretendem publicizar o poder paralelo estabelecido pelo narcotráfico, onde o crime dita as regras de conduta e desconsidera a presença estatal. Cabe ao Estado e às forças de segurança, portanto, estarem atentos a esses sinais.
Além do enfrentamento permanente realizado pelas polícias, ações como as realizadas pela Prefeitura de Vitória contribuem para aumentar a sensação de segurança da sociedade e demonstram que o poder paralelo da criminalidade organizada não pode prevalecer sobre a autoridade do Estado. Infelizmente, vivemos um período de guerra contra o crime organizado e cabe às instituições demonstrarem, a todo momento, a superioridade que lhes deve ser peculiar.

Eugênio Ricas

É superintendente regional da Polícia Federal no Espírito Santo, ex-secretário da Justiça e ex-secretário de Controle e Transparência do Espírito Santo, mestre em Gestão Pública pela Ufes

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