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Eugênio Ricas é delegado de Polícia Federal, adido da PF nos EUA, ex-Secretário da Justiça e ex-Secretário de Controle e Transparência do ES e mestre em Gestão Pública pela UFES

O novo cangaço é uma perigosa realidade que já bate à nossa porta

Polícias e sistema prisional precisam ter condições de enfrentar a criminalidade com a superioridade que deve ser peculiar ao Estado

Publicado em 24/04/2021 às 02h00
Novo cangaço
Ação de criminosos na cidade de Mococa, interior de São Paulo, no último dia 7 de abril. Crédito: Reprodução

Fortemente armados e extremamente violentos, assaltantes de banco têm levado terror a inúmeras cidades Brasil afora. O modus operandi das organizações criminosas tem se repetido de norte a sul do país. Portando fuzis, submetralhadoras e explosivos os bandidos invadem as cidades, fazem reféns e, muitas vezes, rendem os policiais que estão de plantão no município. Assim, se veem livres para, com toda a tranquilidade, saquearem os bancos, explodirem os cofres e caixas eletrônicos e fugirem com o dinheiro.

De 5 a 16 de abril, conforme noticiado pela imprensa, ocorreram pelo menos 10 ataques em cidades de São PauloParanáBahia e Minas Gerais. No dia 7 de abril, em Campo Bonito, interior do Paraná, os bandidos fizeram reféns e explodiram o cofre de uma cooperativa de crédito. No mesmo dia, ação semelhante foi vista na cidade de Mococa/SP. Lá, muitos tiros foram disparados durante o assalto a uma agência bancária.

Essa modalidade de crime não é nova. Conhecida no meio policial como “novo cangaço”, a prática, há alguns anos, tem levado terror a muitas cidades do Norte e Nordeste brasileiro. Em 2010, trabalhando no Maranhão, tive oportunidade de acompanhar algumas investigações que buscavam desbaratar quadrilhas especializadas nesse tipo de delito.

A novidade, no entanto, é a audácia dos criminosos. Se há alguns anos esse tipo de crime estava restrito a cidades isoladas, atualmente, nem mesmo cidades próximas a grandes centros urbanos têm escapado da ousadia dos criminosos.

O caso é grave e merece especial atenção dos profissionais de segurança pública, especialmente por dois pontos que devem ser ressaltados. Em primeiro lugar, a grande disponibilidade de armas de grosso calibre e explosivos ostentados pelos bandidos. Em segundo lugar, o fato de que com o passar do tempo esse tipo de delito tem se aproximado dos grandes centros (o que certamente gerará maior possibilidade de tiroteios, feridos e mortos).

Felizmente o Espírito Santo ainda não foi vítima do “novo cangaço”. A grande disponibilidade de armas de grosso calibre nas mãos de bandidos, no entanto, tem afligido a vida dos capixabas e pode ser um indicativo de que não estamos longe de viver situação semelhante. Tiroteios entre gangues de traficantes e confrontos entre bandidos e policiais têm ocorrido com grande regularidade.

Na semana passada, um tiroteio entre criminosos de Itararé, Morro do Macaco e Santa Martha pelas ruas de Andorinhas transformou a região de Vitória num cenário de guerra. A regularidade de confrontos entre bandidos e polícia também assusta (conforme noticiado pela imprensa, são 47 por mês) e indica não só a grande periculosidade dos criminosos, mas também a fragilidade da imagem do Estado que, há algum tempo, deixou de impor medo e respeito aos bandidos.

É urgente que esse quadro seja revertido, sob pena de, em pouco tempo, nos tornarmos um segundo Rio de Janeiro. O caminho não é fácil, mas é possível. Em paralelo à chamada prevenção primária, que prevê investimentos em políticas públicas que busquem fomentar a educação, a geração de empregos e o acesso à saúde, é imprescindível a realização de investimentos na segurança pública. Polícias e sistema prisional precisam ter condições de enfrentar a criminalidade com a superioridade que deve ser peculiar ao Estado. Não é um caminho fácil, mas é o único a ser percorrido se quisermos ganhar essa guerra.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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