Depois de 14 meses na luta diária e insana contra o vírus, por fim veio a vacina. Eu me preparei para esse dia, sonhei com ele, o vivi várias vezes em meu sonho. Tinha até roupa especial para esse grande dia, semelhante à preparação que fazemos para os grandes eventos da vida.
No meu dia D e na minha hora H, acordei emocionada com esse grande dia. É estranho isso, um misto de alegria e incômodo por estar recebendo o que tantos brasileiros e brasileiras ainda não tiveram acesso. Pensando que essa dose poderia ter mudado a vida de tantas pessoas e tantas famílias que não estariam chorando nesse momento.
Mas, o governo brasileiro muito demorou em decidir pela aquisição das vacinas. Fontes oficiais da Comissão Parlamentar de Inquérito citam que o governo recebeu mais de 50 e-mails, só da Pfizer, mas decidiu ignorar e deixar de comprar as vacinas. Fez a compra tardiamente após pressões da sociedade civil em favor dessa estratégia de saúde coletiva.
A história poderia ter sido diferente, a segunda onda poderia não ter levado tanta gente e ferido tantas famílias, agora enlutadas. Infelizmente, temos um governo negacionista que intencionalmente desacreditou a ciência e decidiu ignorar a compra de imunizantes, fazendo com que elas chegassem em uma lenta procissão de doses. A vagarosidade de nossa campanha de vacinação é a responsável por estarmos ainda isolados. A recusa da compra de vacinas nos trouxe a esse lugar. É preciso sempre lembrar disso.
Em um país onde apenas 12% da população está vacinada com a 1ª e 2ª dose, receber a vacina é um privilégio. Sentimos um conflito, ficamos em um limbo entre a felicidade e a tristeza e que se materializa em um sentimento de felicidade triste.
Como definir a felicidade triste? Bem, uma pessoa pode estar triste por muitos motivos. Por perdas, por mudanças. Por decepções, abandonos. Nesses momentos, ficar triste é saudável. É preciso um tempo de digestão para dar conta do que passou, do que se está sofrendo. Mas em uma pandemia, a tristeza tem outra dimensão. Na verdade, ela é multidimensional. Ficamos tristes pelo vizinho que fechou seu pequeno comércio, com o amigo que teve que se mudar, pois já não conseguia pagar o aluguel, mas principalmente com tantas vidas perdidas. Nesse caso, a tristeza é a morte, o luto e o acesso que nos foi negado à vacina.
A felicidade, o júbilo e a alegria de estar sendo vacinada estão no outro extremo. Há uma euforia, uma ansiedade de finalmente ter chegado a sua vez. E como foi lento, moroso e demorou a chegar. Portanto, a felicidade é imensa de receber a vacina. No momento exato em que ela estava sendo aplicada, veio um filme na minha cabeça. Amigas que perdi, pessoas que precisaram se internar e que viram a morte de perto. Experiências que marcarão nossas vidas para sempre.
E ainda há as muitas sequelas físicas e mentais. Ainda teremos que conviver com as consequências dessa pandemia muito depois que ela nos deixar. Essa mistura é a felicidade triste. Aquela que nos acompanha por estarmos vivos, vacinados e ao mesmo tempo testemunharmos o sofrimento, a doença e a morte.
É nessa felicidade triste que vivemos nossos dias, com um certo embaraço, um constrangimento e uma linha tênue entre estarmos bem e os muitos que já não estão mais presentes entre nós.
E nesse embalo, nesse equilíbrio que nos impõem os tempos pandêmicos, vamos vivendo e fazendo nossa parte, certos que dias melhores chegarão. Dias em que poderemos reviver tempos de felicidades alegres, leves e sem qualquer ofuscamento. Em que haverá vacinas para todos e todas. Até lá, continue se cuidando, mesmo vacinado. Faça a sua parte e contribua com a vida impedindo o vírus de circular. Use máscara, evite aglomeração e mantenha o distanciamento.