Enquanto a pandemia que parou o mundo nos coloca em estado de alerta e nossa atenção fica inteiramente voltada para as notícias que modulam nossa vida diária, a frase emitida pelo ministro do Meio Ambiente, em referência às mudanças estruturais que alimentam um projeto ideológico no país, vai se consolidando: “vamos passar a boiada”. Além dos flagrantes retrocessos em leis de proteção ambiental e desmatamento acelerado, estamos assistindo aos ataques às nossas principais instituições de ensino e pesquisa no Brasil.
As universidades públicas e institutos federais respondem por 90% das pesquisas realizadas no Brasil. Paralisá-las significa impedir que o pensamento crítico e as evidências científicas se contraponham ao processo de desmonte, o que transporta o Brasil ao seu passado, como uma grande fazenda colonial.
Para compreendermos melhor, é fundamental lembrarmos dos fatos ocorridos: quando o governo informou que não havia desmatamento, foram os pesquisadores que comprovaram, através de dados de imagem de satélite, o problema do maior desmatamento florestal dos últimos anos. Quando o mesmo governo disse que havia tratamento para Covid-19, foram as inúmeras pesquisas no Brasil e no mundo que provaram que os medicamentos propalados eram uma falácia e não passavam de "neocuranderismo".
Quando as fake news espalhadas por pessoas do governo diziam que tínhamos que deixar as pessoas se infectarem para termos imunidade de rebanho, foram as pesquisas que disseram que não era possível haver imunidade com um vírus que tem a possibilidade de mutações.
Quando também tentaram deslegitimar as vacinas, foram as pesquisas que informaram para a população que, sem vacinas, não sairíamos dessa pandemia. Que as vacinas salvam vidas, obrigando o governo a investir na compra e na ampla distribuição dos imunizantes.
Silenciar a ciência é uma ação de governos totalitários que não querem contraposição e, principalmente, evidências que desmascarem suas narrativas. Foi assim no passado e está sendo assim neste momento. O primeiro ato foi reduzir em mais de 50% o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia. Em seguida, o corte de bolsas de mestrado e doutorado, impedindo que novas gerações se dediquem à ciência. O terceiro ato foi o sufocamento de financiamento para as Ciências Humanas, em uma tentativa de cercear o pensamento crítico que essa ciência produz.
Ao decidir pela não nomeação de reitores e reitoras eleitas pelas universidades, em detrimento de nomeações por alinhamento ideológico, o governo federal causou cisão nas instituições onde isso ocorreu, com enfraquecimento das instituições democráticas do Estado brasileiro.
Na esteira do desmonte, a retenção do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia paralisou o financiamento de todas as áreas da ciência no Brasil. Soma-se a isso tudo o corte de verba de mais de 18% das instituições, que concentram 90% das pesquisas no Brasil, impedindo o seu funcionamento e obrigando-as a fecharem as portas. Importante lembrar que essas instituições não tiveram seus orçamentos recompostos desde 2019 e, portanto, já estavam trabalhando no limite do inaceitável.
Atacar as instituições do Estado brasileiro que não pertencem ao governo A ou B, mas ao povo, é atacar frontalmente a soberania nacional e a possibilidade de estarmos em igualdade aos grandes produtores de conhecimento, em uma era da informação. Sem conhecimento, nós estaremos nos próximos anos de joelhos para os países detentores de patentes de tecnologia e produtores de informação.
A quem interessa um apagão na ciência? Aos que querem o controle das mentes, que desejam a imposição de narrativas equivocadas e governam com mentiras. Aos que não pensam assim, a ciência só tem a contribuir para apontar caminhos, avaliar políticas e auxiliar no planejamento do futuro. Assim, a ciência revela-se fundamental para o desenvolvimento sustentável no país e no mundo. A ciência salva vidas!