Em 1991 eu decidi ser cientista, ainda quando era uma estudante universitária. Parece uma frase clichê, mas nós cientistas estamos sempre tentando consertar, modificar e melhorar o que está ao nosso redor, uma ideia de que, com algumas descobertas, o mundo pode ser um lugar melhor. É certo, que ao longo da história, muito do que se descobriu foi usado de forma bastante diferente do intuito de quem trouxe aquela revelação à tona. Mas como uma cientista na área de epidemiologia de doenças infecciosas, a conversa com os dados é uma constante no meu dia a dia.
W. Edwards Deming, célebre estatístico e professor universitário estadunidense, disse certa vez que: “Sem dados você é apenas mais uma pessoa com uma opinião”. Eu persigo os dados científicos e tenho sempre muito cuidado ao informar sobre eles. Essa é uma ação criteriosa, principalmente em tempos em que todos têm suas opiniões. Mas é necessário separar quando essas opiniões não têm bases científicas. Essa semana se consolidou com uma série de opiniões no campo das incertezas sobre as vacinas contra a Covid-19. Toda vez que isso acontece, eu sempre gosto de dizer e reconhecer: quando não temos dados, estamos no campo das incertezas.
Ora, em uma campanha de vacinação sem comunicação oficial, com duas vacinas que têm tecnologias, intervalos e eficácia diferentes, me espanta que tenhamos até poucos erros.
Nesse sentido, a primeira das incertezas veio da possibilidade de combinações de doses de vacinas diferentes, ou seja: algumas pessoas receberam a primeira vacina de um fabricante e a segunda dose de outro fabricante. Isso configura um erro vacinal. Não temos previsão para o erro nos ensaios clínicos. De fato, eles são bem evitados pelo rigor da técnica.
De campanhas mais adiantadas, temos os dados do Centro de Controle de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, que considera que o esquema está completo se duas foram administradas, mesmo de vacinas diferentes. Importante apontar que, lá, as duas vacinas que estão sendo administradas possuem a mesma tecnologia, são vacinas de RNA (ácido ribonucleico) das empresas Pfizer e da Moderna.
Por aqui, o governo federal decidiu por considerar esquema completo mesmo aquelas vacinas que têm tecnologias e intervalos diferentes. É bom que se diga que não temos estudo sobre isso. E não há plausibilidade biológica de que uma terceira dose pudesse trazer prejuízo, portanto, estamos no campo da incerteza.
A segunda grande confusão teve origem em março, quando o governo federal determinou que estados e municípios aplicassem suas reservas de segunda dose de Coronavac para a primeira dose em outras fases, sob a alegação de que novas doses chegariam e iriam repor o estoque de reserva com segurança para aqueles que dependiam da segunda dose.
Resultado: as novas doses não chegaram e muitos idosos e profissionais de saúde ficaram sem a segunda dose no intervalo correto. Os dados científicos só demonstram a eficácia no intervalo entre 14 e 28 dias. Ultrapassado esse prazo, o que temos é incerteza. Inferimos, do que sabemos sobre outras vacinas, que mesmo com o atraso é menor o prejuízo de tomar a segunda dose do que ficar sem ela.
A segunda dose é fundamental para que o nosso sistema imunológico tenha uma memória mais longa do agente infeccioso e possa nos proteger por mais tempo. Devemos aprender com o erro, e no caso de esquemas com intervalo curto, é fundamental que os agentes políticos sigam a normativa técnica de garantir o esquema completo vacinal (duas doses da mesma vacina) para todos. E não iniciar novos grupos, sem previsão de chegada de doses para essa garantia.
Outro motivo de incertezas tem sido a vacinação em gestantes e puérperas (mulheres até 42 dias do parto). O Ministério da Saúde, em face ao aumento do número de casos graves, recomendou a inclusão dessas mulheres no grupo prioritário. O que havia sido uma das pautas de movimentos de mulheres, em face ao crescente número de adoecimento e óbito neste grupo. O problema é que elas não terão a opção de escolher a vacina. No momento, apenas a vacina da Pfizer, que chegará ao Brasil em breve, apresenta dados consistentes e seguros para este grupo.
Diante disso, elas deveriam ter, sim, a preferência e a escolha para essa vacina, sobre a qual já temos dados. Fora disso, estamos no campo da incerteza. Porém, ainda assim é urgente destacar: entre o benefício da vacina e o risco da doença, a vacina, mesmo sem dados, possui o maior benefício.
Outra vacina sobre a qual não temos dados, mas cuja tecnologia já é amplamente conhecida por nós é a de vírus inativado, que certamente deveria ser uma opção considerada.
Há um falso argumento que pode induzir a população a pensar que uma vacina é melhor do que outra. Isso é mentira. O que define as diferentes escolhas é o quanto de evidências científicas temos sobre cada vacina, levando em conta as particularidades de cada grupo. As opções são puramente objetivas. Por exemplo: o Reino Unido, que detém a patente da AstraZeneca, recomenda que grávidas sejam vacinadas com a vacina da Pfizer ou da Moderna – esta última, o Brasil optou por não comprar. A recomendação leva em conta evidências científicas. Apenas isso.
Em todos os casos, seguir a ciência é sempre a melhor direção, pois foi com ela que encontramos a rota segura para sair dessa pandemia. E estamos aprendendo em outros países com a vacinação avançada que é assim que a vida vai voltar ao seu ritmo normal. Portanto, vamos seguir a ciência e cobrar de nossos governantes que também o façam. Tendo sempre a ciência como base das decisões políticas.