Publicado em 8 de junho de 2021 às 16:42
Uma em cada cinco pessoas com mais de 70 anos não completou a vacinação contra Covid-19 no país. As informações, extraídas do DataSUS (sistema de informações do Ministério da Saúde), mostram que há grupos prioritários ficando para trás na imunização para o controle da pandemia. >
Entre os brasileiros acima dos 70 anos, 2,6 milhões nessa faixa etária começaram o processo vacinal, mas não concluíram a imunização com a segunda dose.>
Na prática, 3,6 milhões de brasileiros com mais de 70 anos não estão completamente imunizados contra Covid-19 no país, já que cerca de 1 milhão não tomaram nem a primeira dose. Isso representa um quarto dos brasileiros nessa faixa etária –há 13,5 milhões de pessoas no Brasil acima dos 70 anos, de acordo com a estimativa populacional da Campanha Nacional de Vacinação contra a Covid-19.>
As informações foram tabuladas com exclusividade para a reportagem, considerando todos os vacinados contra a Covid-19 acima de 70 anos no país desde o início da campanha (em 17 de janeiro) até 30 de maio.>
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É importante que todos os vacinados tomem a segunda dose porque só assim é garantida a eficácia máxima dos imunizantes.>
No Brasil, integraram os primeiros grupos prioritários na imunização os profissionais de saúde, os indígenas, as pessoas com deficiência institucionalizadas e os idosos (acima de 60 anos). Isso foi definido no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 .>
Os idosos que vivem em espaços como casas de repouso foram os primeiros vacinados. Depois, a vacinação se deu em ordem decrescente por faixa etária. A maioria dos imunizados no país com mais de 85 anos recebeu a primeira dose em fevereiro. Já a maior parte dos vacinados com idade entre 70 anos e 85 anos no país começou o processo vacinal em março.>
O problema é que as pessoas mais velhas que perderam a vacina estão ficando para trás –e a vacinação segue para os grupos prioritários seguintes (por exemplo, de adultos com comorbidades). Entre quem passou dos 90 anos, por exemplo, menos de 80% tomou a primeira dose da vacina contra Covid-19.>
"Os grupos prioritários existem por um motivo: são pessoas com maior risco de exposição ou pessoas que, ao se exporem, correm maior risco de adoecer gravemente e morrer. Aqui se encaixam os idosos", diz Natália Pasternak, microbiologista da USP.>
Segundo estudo recente que olhou para a população de SP, o risco de internação e morte por Covid de pessoas com mais de 80 anos era cerca de quatro vezes maior do que nas pessoas com 60 anos ou menos.>
"O buraco de um milhão de idosos que não tomaram nem a primeira dose –menos de 10% do total– pode ser impacto direto do negacionismo. Podem ser pessoas que não quiseram tomar vacina, não acreditam em vacina", diz Pedro Hallal, epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas e colunista da Folha.>
"Ninguém vira negacionista depois de tomar primeira dose. Então quem não voltou é impacto de desorganização do cronograma, de não ficar claro que é preciso voltar para segunda dose, de não ter um sistema de lembrete para segunda dose. Fica somente nas costas da pessoa que ela tem de voltar.">
A quantidade de pessoas com mais de 70 anos que não concluíram ou que ainda nem começaram a imunização contra Covid-19 varia pelo país. Três estados –Rio de Janeiro, Amazonas e Santa Catarina–, por exemplo, não atingiram 90% da população nessa faixa etária nem com a primeira dose. São os piores cenários do país.>
Já no Acre, que vacinou 92% da sua população acima de 70 anos com a primeira dose, menos da metade (49,4%) desse grupo etário completou a imunização com a segunda dose.>
Entre os vacinados acima de 70 anos, oito em cada dez receberam Coronavac, vacina que tem intervalo estipulado de 28 dias entre as doses. O restante foi imunizado com Oxford/AstraZeneca, que tem três meses de intervalo entre as doses. Os vacinados com Pfizer nessa faixa etária até 30 de maio não chegam a 0,1% do total.>
Para Pasternak, é preciso buscar ativamente essa população, com campanhas publicitárias e serviços de acompanhamento. "Busca por aplicativo, por telefone, lembrando as pessoas de se vacinarem, de voltarem para a segunda dose.">
Isso é feito, por exemplo, nos Estados Unidos. De acordo com a epidemiologista Denise Garrett, do Instituto Sabin (EUA), vacinados saem da primeira dose naquele país com a segunda etapa agendada –e são notificados por mensagem com um lembrete. "Há busca ativa dos que não aparecerem para a segunda dose.">
Nos EUA, oito em cada dez adultos com mais de 65 anos (um universo maior de pessoas do que a análise feita no DataSUS) já está completamente vacinado. Do restante da população nessa faixa etária, metade já tomou pelo menos uma dose. Os dados são do CDC, Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.>
Imunizar a maior quantidade de pessoas por grupo prioritário é importante no controle da pandemia como um todo. Recentemente, pesquisa do Instituto Butantan no município de Serrana (SP) mostrou que a pandemia começa a ser controlada com mais de 75% da população vacinada. Na cidade, 95,7% dos adultos foram vacinados.>
O Ministério da Saúde informou que todas as campanhas sobre Covid-19 ressaltam a importância da vacinação e, também, que estuda fazer uma campanha específica para quem deveria ter tomado a 2a dose do imunizante mas, por algum motivo, ainda não a tomou.>
Não há informação sobre campanhas específicas do Ministério da Saúde para idosos que ainda não tenham se vacinado ou completado a vacinação contra Covid-19. No seu site, o ministério informa que "o ritmo da vacinação está acelerando".>
O rastreamento dos vacinados contra Covid-19 nos dados do DataSUS é possível porque cada pessoa imunizada é registrada no sistema com um código individual de identificação, ao qual estão ligadas informações sobre idade, dose da vacina recebida e grupo prioritário.>
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