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Valorização

A Enfermagem e a Covid-19: dignidade como critério de justiça

Seja na pesquisa, na gestão ou na educação em saúde, esses profissionais estão presentes, desempenhando não apenas a “arte de cuidar” mas o exercício científico de um cuidado especializado e humanizado

Publicado em 11 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

11 mai 2020 às 05:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Vagas para profissionais da saúde abertas em vários hospitais do ES.
Valorização do profissional de Enfermagem Crédito: Freepik
Chega um tempo no qual é preciso reparar séculos de injustiça, exploração e violação de direitos. Chega um tempo no qual não é mais possível ignorar uma presença que agora se impõe a nós como imperativamente necessária e cuja ausência poderá comprometer nossa existência e a possibilidade de que venhamos, minimamente, a sobreviver, já que abandonados por falta de profissionais com os conhecimentos básicos necessários ao provimento dos cuidados em saúde.
Sem os profissionais de Enfermagem não há que se falar em saúde na contemporaneidade. Eles representam mais de 80% dos profissionais necessários à abertura de um serviço de saúde, nos diferentes níveis de atenção.
Seja na pesquisa, na gestão ou na educação em saúde, esses profissionais estão presentes, concebendo, operando os processos de trabalho, acolhendo os usuários, enfim, fazendo aquilo para que foram formados, isto é, desempenhando não apenas a “arte de cuidar”, mas o exercício científico de um cuidado especializado e humanizado.
A abertura de mais leitos hospitalares para recepcionar os acometidos pela Covid-19 depende fundamentalmente de pessoal qualificado. O mundo tem carência desses profissionais.
Em 2019, antes mesmo que se começasse a falar do coronavírus, a OMS lançava o programa “Enfermagem agora”, destacando a relevância desses profissionais e valorizando a sua formação tendo em vista haver uma carência de 9 milhões deles no mundo.
A construção de um hospital pode se dar em tempo recorde como vimos acontecer na China e em outros lugares do mundo . A produção de macas e ventiladores pode ser feita em tempo possível de ainda enfrentar a pandemia, dependendo apenas de decisões políticas e econômicas que transformem, por exemplo, fábricas das mais diversas naturezas, em fábricas de ventiladores.
A formação de recursos humanos, pessoas capacitadas ao exercício do cuidar, entretanto, não se dá a “toque de caixa” como falamos em linguagem popular. Nesses casos, não se está a produzir operadores de máquinas, mas “gente que cuida de gente”, tendo como balizas os pressupostos das ciências naturais, da saúde, humanas e sociais, dentre outras.
Formar profissionais de saúde é um processo complexo, longo e difícil. A capacitação e o domínio de habilidades e competências necessárias ao exercício profissional depende de metodologias de ensino teórico/práticas que envolvem educadores comprometidos com uma educação significativa e criativa, capaz de entender o outro para além da dimensão física.
Não se ensina a cuidar como se ensina a operar uma máquina inerte, ainda que sofisticada tecnologicamente. Pessoas exigem mais do que operadores instrumentalizados e habilidosos.
No complexo mundo que habitamos, no qual nos vemos condicionados a abrir mão de nossa liberdade de ir e vir, de passear, de transitar pelas ruas da cidade, pelo comércio, de trabalhar fora de nossas casas, de encontrar com aqueles a quem amamos por medo de um diminuto vírus que se apresenta mais letal do que bombas atômicas e armamentos ultrassofisticados, nos vemos dependentes de profissionais que nos acostumamos a ignorar como se pouca ou nenhuma importância tivessem em nossas vidas.
Quando falamos em saúde é a figura do médico que se impõe em nosso imaginário social como aquele a quem devemos nossas vidas e a recuperação daquilo que nos é tão caro, qual seja, nossa saúde. Contam eles, no mais das vezes, com reconhecimento social e salários condizentes. Justa homenagem deve ser rendida a estes.
Os profissionais de Enfermagem, tratados, por muitos, de maneira pejorativa, como paramédicos, são poucas vezes lembrados e valorizados. Seus salários são ínfimos, inexpressivos, indignos. Seu reconhecimento social e a valorização em geral, são irrisórios, desprezíveis e injustos.
Submetidos a jornadas de trabalho incompatíveis com a existência digna, transitando de um emprego para outro como forma de sobrevivência, abrindo mão do repouso necessário e do convívio familiar, esses profissionais são tratados como força de trabalho a ser explorada. Não há locais para o descanso, condição obrigatória e necessária em um meio ambiente de trabalho saudável.
Completamos amanhã, 12 de maio, 200 anos do nascimento Florence Nightingale, aquela que viria a se transformar no mais importante nome da Enfermagem mundial, patrona da Enfermagem científica. Esta é a hora da Enfermagem. Duzentos anos é tempo suficiente.
Cuidar é o maior desafio da contemporaneidade, desafio este que ninguém quer assumir. Cuidar é trabalho desvalorizado, que ninguém deseja para si. Todos querem ser cuidados, todos esperam a dedicação de alguém para os momentos de dor, doença e solidão.
Os já escassos enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem começam a morrer em razão de seu exercício profissional. Os números de infectados e mortos na Enfermagem se avolumam.
Quem nos garante que eles não começarão a se questionar se vale a pena adoecer e morrer para cuidar de gente que os ignora e desvaloriza com salários indignos e condições laborais aviltantes?
“Por quem deverei eu morrer?” Poderão eles se perguntar.
“Por que deverei eu sacrificar minha vida em troco de um miserável e insignificante salário?”
“Por que deverei eu colocar em risco minha vida e da minha família para salvar a vida de quem não me valoriza, me despreza, me ignora e me destina salários iguais ao de profissionais não qualificados?”
“Quantas vezes tentamos nos acordos coletivos conquistar reposição salarial justa e fomos ignorados?”
“Quantas vezes nossas greves foram desvalorizadas e tratadas com desconsideração pelos sindicatos patronais?”. Agora querem seus cuidados e, hipocritamente, os homenagear.
O trabalho da Enfermagem não é mera vocação, fruto de doação daquele que nutre sem desejar ser nutrido. É preciso ressignificar o trabalho da Enfermagem de forma a garantir dignidade, grandeza e reconhecimento profissional.  É lícito reparar os séculos de injustiças. A hora da Enfermagem é agora!
É hora de lembrar e agir nas lutas históricas da Enfermagem: as 30 horas semanais, o piso salarial compatível com a nobreza e a importância da profissão, a destinação adequada de locais de descanso, os equipamentos de proteção individual, a segurança no trabalho, a educação continuada e o reconhecimento real da importância deles para a manutenção de nossas vidas e saúde.
Dependemos deles mais do que de qualquer outro profissional. Por que não reparamos as iniquidades agora?

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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