Desde que assumiu o Ministério da Saúde, em 18 de abril, portanto há exatos 14 dias, praticamente não se ouve falar em Nelson Teich. As poucas manifestações a respeito do ministro estão relacionadas a fatos não ligados diretamente ao Covid-19 e à pasta que ocupa no governo.
Uma de suas poucas aparições, e a mais emblemática, foi no teatro montado durante o longo pronunciamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, logo após a demissão de Sergio Moro. Aparição que, diga-se de passagem, lhe foi extremamente desfavorável, já que o ministro, não afeito à lógica da política, não percebeu que o foco da imprensa e da sociedade civil não estaria apenas no ator principal, emissor do discurso, mas também em cada um dos personagens que fazia parte daquela encenação.
Cada detalhe passaria a ser objeto de longas avaliações, em um contexto midiático de avidez por notícias bombásticas ou por mero exercício da crítica.
" O barco está à deriva, o avião está sem piloto, a guerra sem comandante, não apenas por inconsistência operacional do ministro e de sua equipe, mas por uma ausência total de comando e de direção. Ausência, inclusive, física. Não há corpo, ainda que decorativo. Não há voz, ainda que inadequada a mensagem"
O enfado estampado no rosto de Nelson Teich durante todo o pronunciamento e o sono incontrolável que quase o levou a um dos maiores vexames pelos quais passaria em sua vida, tornaram-se o mote de um processo de ridicularização de alguém que, não fosse uma sede de poder incontrolável associada a interesses não facilmente declaráveis, não se submeteria a tal constrangimento.
É de conhecimento público sua total ignorância acerca dos meandros da Saúde Coletiva e da política pública de saúde brasileira, faltando-lhe não apenas o conhecimento do complexo Sistema Único de Saúde, maior sistema público de saúde do mundo, mas também, e sobretudo, dos conceitos mais elementares que compõem o arsenal mínimo necessário ao exercício da função que lhe foi destinada.
Desaparecer, enclausurar-se, manter-se inerte mesmo diante do eminente desastre e da grave crise acompanhada por líderes, políticos, pesquisadores e pela imprensa de todo o mundo, bem como por cidadãos engajados que se encontram analisando o cenário internacional de saúde, foi a estratégia adotada pelo novo ministro.
Nunca saberemos exatamente se enclausurar-se foi um mecanismo de autoproteção no sentido de evitar a exposição pública de sua ignorância ou um acordo engendrado nos gabinetes, deixando espaço para que Bolsonaro pudesse brilhar sozinho como o bobo da corte, único líder internacional de uma nação da importância do Brasil a considerar a pandemia uma histeria internacional.
Qualquer avaliação acerca do fato será mero exercício especulativo, tendo em vista o silêncio absoluto que impera no reino shakespeariano da “Dinamarca” brasileira a respeito do lamaçal que envolve o comando da pandemia.
Não é unicamente a falta de coletivas que preocupa os especialistas, pois, afinal de contas, esse governo se tornou especializado em omitir informações claras para a sociedade, utilizando-se exclusivamente dos pronunciamentos presidenciais, carregados de contradições, contrassensos, desvarios, delírios, incoerências e fake news, capilarizadas por meio de robôs, para manter o povo “informado”.
É o silêncio absoluto do ministro que não se comunica com os secretários estaduais de Saúde. É o Ministério da Saúde, de onde não tem emanado as diretrizes necessárias ao comando de um processo que deveria ser único e estrategicamente articulado, condição essencial para a sobrevivência das pessoas e do Estado em uma perspectiva republicana.
O barco está à deriva, o avião está sem piloto, a guerra sem comandante, não apenas por inconsistência operacional do ministro e de sua equipe, mas por uma ausência total de comando e de direção. Ausência, inclusive, física. Não há corpo, ainda que decorativo. Não há voz, ainda que inadequada a mensagem. Não há qualquer sinal indicativo de que alguém manobre o leme do barco conduzindo-o a uma navegação, ainda que somente para a manutenção de um mínimo de equilíbrio.
Onde está escondido Nelson Teich? Porque está escondido o ministro? Quem o mantém asilado? Quem comanda a pandemia? Onde está o interventor militar, Almirante Flávio Rocha, colocado no ministério por Bolsonaro, como Secretário Executivo, para tomar conta do ministro da Saúde, evitando que ele fale, pense, ou se desgaste, correndo o risco de indispor-se seja com a comunidade médica seja com o presidente da República, que não pode ser contrariado, passando da condição de “amigo” para a de adversário, caso discorde em alguma coisa?
Onde está o ministro da Saúde que até hoje não convocou reunião com os secretários estaduais para alinhamento de condução da pandemia?
"Esse governo se tornou especializado em omitir informações claras para a sociedade, utilizando-se exclusivamente dos pronunciamentos presidenciais, carregados de contradições, contrassensos, desvarios, delírios, incoerências e fake news, capilarizadas por meio de robôs, para manter o povo “informado”"
Caminhamos a passos largos para ocupar o pior resultado do controle pandêmico no mundo. Para ter o maior número de infectados e de mortos. Caminhamos à velocidade da luz para nos desmancharmos como nação, desacreditando de nosso potencial, seja para o enfrentamento da crise de saúde, seja da crise econômica.
Perdemos nossas vidas, nossa credibilidade, nossa dignidade e nossa potência para resistir e mudar. Enquanto isso, no reino da Dinamarca, acordos continuam a ser feitos, recursos transferidos e polpudas contas bancárias alimentadas enquanto o povo morre de fome, morre de Covid-19 e de vergonha.
Onde está Teich? Para que foi nomeado Teich? Porque Teich aceitou o caricato e histriônico lugar de ministro da Saúde do Brasil? Alguma forte e potente compensação deve haver para justificar tal decisão.