Aspas para o ministro Guedes esta semana: “Nós vamos fazer quatro grandes privatizações em 30, 60, 90 dias.” Não vão fazer, ministro! Os que me conhecem sabem o quanto gosto e admiro V.Exa. Sei que é um grande comunicador e tem formação acadêmica sólida, mas, estranhamente, começou a imitar “Rolando Lero” e a acreditar que mudanças estruturais se fazem só no “gogó”.
Não teremos grandes privatizações nem em 30, nem em 60 e nem em 90 dias, ministro. Será que só V.Exa. não sabe disso?! Ministros de Estado, sobretudo da economia, não podem falar como se estivessem em uma mesa de boteco cercado de coleguinhas da “pelada”. É preciso entender a importância da credibilidade e das justas expectativas geradas quando uma “autoridade” se manifesta publicamente e, sobretudo, quando estabelece uma agenda.
Não seria melhor dizer que o governo vai propor privatizações!? A mentira é uma fraqueza de caráter, não há dúvidas. Porém, sempre me impressiono muito quanto alguém conta uma mentira que poderá ser “conferida” (desmentida) na próxima esquina. Já comecei a fazer contagem regressiva e vou escrever outro artigo, daqui a 90 dias, só para “registrar” que a mentira não virou verdade (Eu prometo).
Difícil não lembrar do deputado Osmar Terra dizendo que morreriam menos de 2.100 pessoas no Brasil em razão da Covid-19. Já são mais de 67 mil (até aqui), e bastaram dois meses para conferir! Mas vamos recordar outras lorotas do eminente ministro: Sua Exa. disse que era “factível” zerar o déficit primário em 2019; Não fez e, como se sabe, agora considerada a pandemia, não fará; O posto Ipiranga também prometeu “privatizar tudo.” Até agora nada!
Não vai fazer, ministro, porque dentre outras razões de ordem prática o seu chefe é, e sempre foi, um estatizante. Aquela casca de liberal foi só para “eleitor ver”. Vamos aos registros: Ele votou contra a quebra do monopólio das telecomunicações, contra a quebra do monopólio estatal do petróleo, contra o Plano Real, contra a reforma administrativa que previa a limitação de gastos com servidores. E, em conjunto com o PSOL e o PT, votou contra o cadastro positivo.
Ah, também votou a favor de um regime especial de aposentadoria para deputados e senadores. Com um chefe desses, ministro, V.Exa. não vai fazer grandes privatizações nem em 90 anos. Mas, certamente, haverá uma desculpa igualmente fantasiosa: Não fizemos porque o Congresso não deixou! É tão ridículo quanto uma entrevista em que o artilheiro do Flamengo culpasse o goleiro do Vasco por não ter feito o gol.
Assim, difícil é não lembrar da autopsicografia de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, na dor lida sentem bem. Não nas duas que ele teve. Mas só nas que ele não tem.” Fosse V.Exa. um poeta, ministro, estaria perdoado!