Coletivamente falando, há duas maneiras de proteger o trabalhador do desemprego. A primeira é impedir que seu emprego desapareça, mesmo quando a atividade perdeu sentido econômico. A segunda é garantir renda, formação e oportunidades para que ele atravesse as mudanças do mercado de trabalho.
O Brasil quase sempre escolhe a primeira: restringe novas tecnologias, reserva o mercado ou subsidia a empresa. Preserva-se o posto no papel, mas abandona-se o trabalhador ao futuro.
O Nobel de Economia de 2025 recuperou uma ideia associada a Joseph Schumpeter: o crescimento depende da “destruição criativa”, processo pelo qual novas tecnologias, empresas e formas de produzir substituem as antigas.
A expressão parece cruel porque toda inovação, ao criar alguma coisa, também elimina outra. O computador aposentou máquinas de escrever; o comércio eletrônico reduziu a importância de lojas físicas; a inteligência artificial já transforma inúmeras tarefas administrativas.
Isso não significa que toda novidade seja boa ou que o mercado distribua sozinho os benefícios do progresso. Significa apenas que uma economia incapaz de substituir tecnologias e modelos ultrapassados acaba condenada à baixa produtividade, aos salários modestos e ao crescimento medíocre. Sem mudança, não há apenas estabilidade, há estagnação.
Nesse embate, normalmente se apresentam discursos favoráveis à privatização, porque empresas públicas representam atraso e letargia. Não é bem assim. Essas podem inovar e evoluir. Doutro lado, não raro, empresas privadas antigas, absolutamente defasadas, ainda sobreviverem graças a subsídios e incentivos fiscais.
O problema brasileiro é confundir proteção social com conservação produtiva. Tratamos empresas, setores e profissões como se tivessem direito adquirido à eternidade. Quando uma atividade perde competitividade, pede-se crédito subsidiado. Quando uma empresa deixa de inovar, pede-se proteção contra a concorrência. Quando uma tecnologia ameaça uma ocupação, proíbe-se a tecnologia. Parece uma política generosa, mas é profundamente conservadora.
Um exemplo está nos postos de combustíveis. Desde 2000, uma lei federal proíbe bombas de autosserviço operadas pelo próprio consumidor. A justificativa: preservação dos empregos dos frentistas. O argumento é compreensível, são pessoas que dependem daquele salário. Revogar a lei de uma hora para outra e esperar que o mercado resolva tudo produziria muita destruição e pouca criatividade.
Mas cabe a pergunta incômoda: obrigar indefinidamente alguém a executar uma tarefa que pode ser automatizada é realmente protegê-lo? A legislação conserva o emprego atual, mas não prepara o trabalhador para o próximo. Protege a função, não a pessoa. E o setor já está mudando com pagamentos automáticos, aplicativos, lojas de conveniência, gestão de frotas, serviços rápidos e carregamento de veículos elétricos.
Uma saída melhor seria permitir uma transição gradual. Parte das bombas poderia funcionar por autosserviço, enquanto outra continuaria atendida por trabalhadores, especialmente para auxiliar idosos, pessoas com deficiência ou consumidores que preferissem o serviço.
A mudança ocorreria por etapas, com negociação coletiva, qualificação custeada pelas empresas e prioridade dos atuais empregados nas novas funções.
Não bastaria oferecer qualquer curso, entregar um certificado e desejar boa sorte. A formação precisaria estar ligada a vagas reais, às novas atividades do setor e às necessidades de cada região. Também seria possível criar uma complementação temporária de renda para quem migrasse para uma função inicialmente menos remunerada. Em vez de proibir o futuro, construiríamos uma ponte até ele.
O mesmo raciocínio vale para incentivos fiscais, socorros diante do tarifaço e renegociações recorrentes de dívidas rurais. Esses instrumentos podem ser legítimos diante de uma crise comercial, de um desastre climático ou de outro choque extraordinário.
O problema começa quando o auxílio deixa de financiar uma transformação e passa a garantir eternamente a rentabilidade de empresas e propriedades. Nos anos bons, o lucro permanece privado; nos ruins, a perda é transferida à sociedade.
Todo apoio público deveria nascer com prazo, metas e avaliação. A empresa socorrida por uma barreira comercial (como a super taxação do Trump) precisaria buscar novos mercados e reduzir sua dependência.
O setor beneficiado por incentivos deveria investir em produtividade e inovação. O produtor rural atingido por um evento climático merece proteção; já uma atividade estruturalmente inviável não pode depender de renegociações sucessivas. O Estado pode ajudar alguém a atravessar uma ponte, mas não deve financiar sua permanência eterna no meio dela.
Há um risco evidente: a automação pode apenas elevar o lucro das empresas, sem reduzir preços nem criar empregos melhores. É justamente por isso que a destruição criativa precisa de concorrência, proteção social, educação e negociação coletiva.
O papel do Estado não é congelar cada empresa e cada profissão, mas organizar a transição e distribuir seus custos. Empregos podem desaparecer, trabalhadores não podem ser descartados.