O economista Sérgio Vale publicou na última semana (Valor, 17/07/2026) uma provocação desconfortável: o Brasil não apenas se desindustrializou; desindustrializou-se do jeito errado.
A perda de participação da indústria também ocorreu em países ricos. A diferença está no caminho percorrido. Nos Estados Unidos, o crescimento da renda deslocou o consumo para os serviços. Alemanha, Japão e Itália transferiram etapas mais simples da produção para países com custos menores, mas conservaram em casa a engenharia, a tecnologia e as partes de maior valor agregado.
O Brasil fez diferente: perdeu indústria porque deixou de competir. Produtividade estagnada, custo elevado, infraestrutura deficiente, insegurança e uma economia que aprendeu a conviver com bens importados e a depender da exportação de recursos naturais. Não ficamos ricos antes de nos desindustrializarmos. Simplesmente passamos a produzir menos.
O Espírito Santo deve observar essa história com atenção. Nossa economia possui uma base industrial importante, construída em torno da mineração, da siderurgia, da celulose, do petróleo e gás e das rochas naturais. São atividades que geram produção, exportações, arrecadação e empregos. Entretanto, há duas vulnerabilidades conhecidas: a concentração em poucos setores e a forte dependência do mercado externo.
Os Estados Unidos receberam 27% das exportações capixabas em 2025. No primeiro semestre deste ano, ainda absorveram 27,5%, embora as vendas do Estado para aquele país já tenham recuado 17,2%.
Quando mais de um quarto das exportações depende de um único destino, uma canetada em Washington deixa de ser um problema diplomático e passa a ameaçar empresas e empregos capixabas.
A nova tarifa adicional de 25%, que entra em vigor neste mês, não alcançou igualmente todos os nossos produtos. Minério de ferro, petróleo, celulose, café solúvel e parte relevante das rochas, como o quartzito, foram preservados. Isso evita um choque ainda maior. Mas mármores, granitos e outros materiais continuam submetidos à sobretaxa.
O impacto pode parecer pequeno quando diluído na pauta total: os produtos atingidos movimentaram cerca de US$ 240 milhões em vendas capixabas aos Estados Unidos em 2025. Para as empresas diretamente afetadas, contudo, não existe “apenas 2,3% da pauta estadual”. Existem encomendas canceladas, margens comprimidas, férias coletivas, investimentos adiados e trabalhadores receosos de perder o emprego.
Esse é o ponto em que uma crise comercial pode se transformar em má desindustrialização. Uma fábrica não desaparece sozinha. Quando ela fecha ou reduz a produção, enfraquece também transportadoras, oficinas, fornecedores, comércio e serviços das cidades ao redor. Perde-se uma cadeia produtiva inteira. Reconstruí-la depois costuma ser muito mais caro do que preservá-la.
Há, felizmente, um sinal na direção contrária. A construção da fábrica da GWM em Aracruz pode introduzir no Estado uma indústria automotiva de maior complexidade, somando-se às cadeias já consolidadas da siderurgia, mineração, petróleo, celulose e rochas. O projeto prevê investimento de R$ 5,8 bilhões, capacidade de até 200 mil veículos por ano e milhares de empregos quando estiver plenamente implantado.
A proximidade da ArcelorMittal e de outros produtores e transformadores de aço abre espaço para que parte dos insumos seja fornecida aqui mesmo. Há ainda a possibilidade de atrair fabricantes de componentes, baterias, motores elétricos, softwares, equipamentos e serviços de engenharia.
Convém conter a euforia. Montar automóveis no Espírito Santo não significa, automaticamente, criar uma cadeia automotiva capixaba. Se peças, tecnologia e serviços especializados vierem quase todos de fora, teremos uma grande unidade industrial com poucos encadeamentos locais. Será produção no território, mas não necessariamente desenvolvimento do território.
Por isso, o sucesso da GWM não deve ser medido apenas pelo número de carros que sairão da fábrica. Deve ser avaliado pela quantidade de fornecedores capixabas incorporados à produção, pela formação de trabalhadores, pelos centros de pesquisa instalados e pelo valor que permanecerá circulando no Estado.
O tarifaço americano traz uma advertência e a GWM oferece uma oportunidade. A advertência é que depender de poucos produtos e compradores deixa empregos capixabas vulneráveis a decisões tomadas longe daqui. A oportunidade é utilizar uma nova indústria para diversificar nossa economia e conectar empresas locais a cadeias mais sofisticadas.
O Espírito Santo já sabe exportar minério, aço, celulose, petróleo, café e rochas. O próximo passo é transformar essa base em mais tecnologia, componentes, conhecimento e empregos qualificados.
Caso contrário, poderemos repetir em escala regional o erro brasileiro: perder indústria antes de construir algo melhor para colocar em seu lugar.