O governo federal tem divulgado resultados otimistas acerca do mercado agropecuário durante a pandemia. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o setor teve alta de 2,5% em 2020 (gov.br), enquanto o PIB recuou 4,1%. Como reflexo na mão de obra, embora o nível de desemprego no país tenha atingido a marca de 14,2%, a agropecuária criou em 2020 mais de 61 mil novas vagas.
Essa visão, ainda que seja vista como uma boa notícia para o setor e, de modo global, para a economia pátria, esconde alguns dados perniciosos, calcados especialmente no aumento da desigualdade entre os pequenos produtores e as grandes multinacionais, trazendo, no curto e no longo prazo, graves prejuízos ao consumidor e à renda do trabalhador brasileiro.
Com forte demanda da China pelo produto pátrio, ainda reflexo da gripe suína de 2018, bem como pela baixíssima cotação do real, tudo isso, aliado ao recuo no abate de fêmeas para reposição, diminuindo a oferta do animal, fez com que o preço do boi gordo disparasse. Insumos (farelo de soja e milho) subiram ainda mais.
Tais fatores contribuem para ressaltar duas realidades distintas da pecuária: o mercado exportador e o mercado interno. Apenas os grandes players conseguem ter os rigorosos certificados de exportação e, pela grande produção, conseguem adquirir insumos em escala, reduzindo os custos de produção, além de, é claro, possuir volume suficiente para fazer frente à demanda chinesa. Ah, e recebem em dólar.
A JBS, por exemplo, recentemente anunciou a abertura de 3.500 vagas de emprego em 13 Estados e no DF ("Isto É Dinheiro", 20.04.2021), enquanto diversos frigoríficos que atendem exclusivamente o mercado interno estão fechando as portas ou operando em baixa, sem qualquer margem de lucros. Para se ter uma ideia do desgaste dos pequenos e médios, a taxa de ociosidade produtiva média desses frigoríficos, entre os 13 Estados onde a JBS vai investir, atingiu em abril 45% ("Revista Globo Rural", 12.04.2021). Na Bahia, esse percentual alcançou 60%.
Mesmo com o elevado valor dos insumos e do boi gordo, o empresário não consegue repassar essa alta para o consumidor interno. Segundo Wilson Jr., um dos maiores especialistas no comércio de carnes, “o Brasil ficou hoje 30% a 40% mais pobre que o mundo, a gente exporta o quilo de peito de frango a US$ 2/kg (R$ 11/kg), algo barato para eles, mas temos dificuldades em repassar a R$ 8/kg para o mercado interno”.
Noutra oportunidade (A Gazeta, 13.04.2021), apresentamos a preocupação da ausência de retomada econômica do país, enquanto seus pares emergentes estão batendo recordes de crescimento, fator que aumenta a desigualdade brasileira com o resto do mundo. Como reflexo disso, tem-se um aumento na desigualdade no mercado interno, entre os grandes e os pequenos empresários.
O clima está propício para o crescimento das gigantes e péssimo para os frigoríficos menores, espaço fértil ao oligopólio. O preço, independentemente dos fatores acima, deixa de ser definido pelo custo marginal e os fornecedores conseguem maximizar seus lucros às custas do consumidor e, é claro, do trabalhador. Aumenta-se a contratação em massa, porém, dada a imensa oferta de mão de obra ociosa, os salários e benefícios tendem a cair.
No entanto, sendo o país um dos maiores produtores mundiais de proteína animal, a questão não é dicotômica e não se pode pensar em defender pequenos contra os grandes ou vice-versa. O mercado é tamanho que é possível criar uma situação de equilíbrio, com espaço de crescimento para todos e ampliação do mercado interno.
Aliás, isso é fundamental para manter o Brasil no topo do ranking de produção e exportação. Com políticas macroeconômicas acertadas, visando reequilibrar o mercado, ambos podem contratar trabalhadores e ampliar seus negócios, reduzindo o desemprego, permitindo que se exporte absurdamente e, claro, sem retirar do brasileiro o consumo habitual do melhor churrasco do mundo.