Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Sistemas inteligentes

'Big techs': liberdade e intervenção estão em debate

Congresso Estadunidense aprovou um relatório que conclui que gigantes da tecnologia abusam de seus monopólios, a ponto de dominar mercados, aniquilar com pequenos empresários e cercear a liberdade de escolha dos cidadãos

Públicado em 

20 abr 2021 às 02:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Inteligência artificial, robôs
Imagine um sistema de inteligência artificial que tenha todos os dados inseridos por alguém durante toda sua vida, desde dados objetivos a preferências Crédito: Shutterstock
Há, na sociedade, diversos debates acerca da defesa de liberdades, sejam elas políticas, econômicas, individuais ou coletivas. Liberdade de pensamento, de expressão, de ir e vir. Não raro, expressões de liberdade são reprimidas, polemizadas e até canceladas. Duas questões são importantes sobre liberdade, poder escolher e saber escolher.
No universo de análises dedutivas da ciência econômica, a escola clássica tomava o ser humano como um sujeito absolutamente racional, que tinha preferências definidas que não mudavam de forma arbitrária, que buscava sempre a maximização de resultados, como a preferência pelo maior número de bens que pudesse ter e o máximo de satisfação. Era um sujeito, enfim, que sempre fazia uma análise lógica antes de decidir.
Thorstein Veblen, um norueguês radicado nos Estados Unidos e professor da Universidade de Chicago, foi um dos primeiros a desmontar esse mito do “homo economicus”. Para Veblen, o ser humano não era nem um pouco racional, mas o oposto, tão bárbaro quanto nas mais primitivas comunidades. Bastante rejeitado pela rigidez e extremismo de suas posições, o professor analisava o mercado cético à tendência natural de equilíbrio, paradigma da teoria econômica tradicional, mostrando suas severas preocupações com a ferocidade com que os oligopólios eram formados.
Sua grande obra, “A Teoria da Classe Ociosa”, é uma crítica dura e até furiosa à classe aristocrática. Veblen questionava por um lado a exploração da mão de obra, o que limitava o poder de escolha do trabalhador, e por outro, a influência exercida pela aristocracia nas escolhas feitas pela plebe. “Os trabalhadores não apenas permitiam como idolatravam os que viviam no ócio e tinham hábitos de consumo refinados; não apenas idolatravam, mas imitavam, certos que a posse de determinados bens poderia alçá-los à categoria social mais nobre” (Jusdenaider e Kamel, 2017).
Sem novidades, os mercados evoluíram, fornecedores passaram a estudar a psicologia econômica para antever as escolhas de seus consumidores sob um enfoque mais subjetivo e menos racional, não somente para levar o melhor produto ao consumidor, como para convencê-lo de que deve comprar. O convencimento, até aí, ainda faz parte do jogo. O poder de escolha ou simplesmente dizer não, pertence ao cidadão.
Com a evolução tecnológica, “big data”, “big analytics” e a inteligência artificial, a situação começa a ficar preocupante. O receio é que a influência exercida pelas redes sociais e por todos os milhares de dados individuais que são inseridos no mundo digital diariamente faça os algoritmos conhecerem melhor o cidadão que ele próprio. Mais que isso, que tais sistemas inteligentes possam exercer um poder de manipulação a ponto de levar o indivíduo a decidir segundo a vontade da máquina.
Imagine um sistema de inteligência artificial que tenha todos os dados inseridos por alguém durante toda sua vida, desde dados objetivos a preferências (fotos, músicas, sites navegados, compras realizadas, artigos e livros lidos, relacionamentos, manifestações políticas, tudo). A partir do perfil montado, passa-se a bombardear o sujeito com assuntos supostamente de seu interesse. Distopia ou realidade?
Com receio que as “big techs” criem um “Rehoboam” (supercomputador fictício que aparece na 3ª temporada de "Westworld" e controla as pessoas), o Congresso Estadunidense aprovou, na semana passada, um relatório que conclui, entre outros efeitos, que essas gigantes da tecnologia abusam de seus monopólios a ponto de dominar mercados, aniquilar com pequenos empresários e, consequentemente, cercear a liberdade de escolha dos cidadãos ("O Globo", 16.04.2021).
A “House of Representatives” propõe um conjunto legal que limita drasticamente a atuação dessas empresas. Há, inclusive, um recente projeto de lei que permite a negociação coletiva entre produtores de conteúdo digital e as plataformas, para dispor sobre remuneração desses trabalhadores.
Esse debate mostra o quão é importante analisar vieses mais sofisticados sobre o real exercício das liberdades. Intervenção estatal nem sempre as cerceiam. O Estado americano debate como intervir nos monopólios para garantir a liberdade de escolha e de empreender do cidadão, o que é exatamente o oposto, parece contraditório, mas é libertador.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Novos documentos mostram "contabilidade" do esquema de tráfico com policial do Denarc
Imagem de destaque
Estudo orienta inclusão de todos os municípios do ES na área da Sudene
Imagem de destaque
Jantar leve e saudável: 3 receitas com proteínas vegetais para o dia a dia

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados