Há dois anos, derrotados nas eleições para o democrata Joe Biden, apoiadores do ex-presidente Donald Trump invadiram o Capitólio, sede do Congresso americano em Washington durante a contagem oficial dos votos do Colégio Eleitoral. Nos EUA, o ato antidemocrático convocado por Trump culminou em um saldo de 250 feridos, três mortos e quase mil processados pela prática de crimes federais. No último domingo (8), em Brasília, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro vandalizaram a capital federal, invadindo e depredando não só o Congresso Nacional, mas os prédios históricos do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto.
O que aconteceu em Brasília no fim de semana não foi obra do acaso ou acontecimento repentino e inesperado. Na verdade, muito pelo contrário, tratava-se de episódio previsível e, eventualmente, até mesmo, premeditado. O mandato do ex-presidente Bolsonaro foi marcado por constantes e contumazes mensagens de ódio e de intolerância aos opositores, incentivando os asseclas mais à extrema do espectro da direita (ou do conservadorismo) a se rebelarem caso as urnas dessem a vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A propósito, por ocasião da invasão ao Capitólio, em vez de condenar os atos antidemocráticos nos EUA, Bolsonaro preferiu dizer que “se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”. Dito e feito. Seguindo a cartilha da extrema direita, apoiadores de Bolsonaro, desde a derrota eleitoral, tentam desacreditar o sistema eleitoral brasileiro, divulgando mentiras e apelando a táticas próprias de grupos de terrorismo.
Até que, no domingo, os golpistas deram a mais clara demonstração de seu potencial lesivo e de total menosprezo à democracia, de desrespeito aos brasileiros e de menoscabo às coisas públicas.
A tentativa de golpe contou, inclusive, com uma espécie de ensaio técnico, ocorrido na noite da diplomação do presidente Lula, ocasião em que apoiadores de Bolsonaro incendiaram veículos, tentaram derrubar um ônibus de um viaduto e quase invadiram a sede da Polícia Federal. Com tais comportamentos, os bolsonaristas reiteram seu descompromisso com todas as regras do jogo democrático, inclusive, as não escritas, que orientam uma disputa justa e que o resultado das eleições seja aceito também pelo lado menos votado.
Episódios de tamanha selvageria e criminalidade jamais foram registrados quando os partidos de esquerda perderam as eleições presidenciais em 1990, 1994, 1998 e 2018, tendo sido aceita a vitória do próprio ex-presidente Bolsonaro sem qualquer embaraço. Inclusive, nem mesmo no impeachment de Dilma Rousseff, tido como golpe pela esquerda, o descontentamento migrou para o campo da violência. Assim, cai por terra a falácia de que a esquerda é violenta e que a direita seria a legítima representante da ordem, da moral e dos bons costumes.
Não somos mais crianças, pirraça não combina com democracia. Na vida adulta, em especial, os dilemas e impasses não se resolvem por intermédio de brigas ou de violência. Quem não consegue controlar seu ímpeto violento ou reage com fúria às frustrações pode representar um perigo na vida em sociedade.
Agora, dada a reprovação popular, muitos bolsonaristas se dizem peremptoriamente contrários à violência ou tentam inverter os fatos para se colocar como vítimas em vez de algozes. Não que todo bolsonarista seja terrorista, mas todos os terroristas do domingo eram bolsonaristas.
Não adianta plantar laranjas e querer colher morangos, ou, noutras palavras, é dizer, os discursos de ódio fomentaram a violência, o terrorismo e o golpismo. Uma cultura de paz não se ergue com bases em discurso de ódio e intolerância. Como Margaret Thatcher alertou: “Cuidado com seus pensamentos, pois eles se tornam palavras. Cuidado com suas palavras, pois elas se tornam ações. Cuidado com suas ações, pois elas se tornam hábitos. Cuidado com seus hábitos, pois eles se tornam o seu caráter. E cuidado com o seu caráter, pois ele se torna o seu destino. O que nós pensamos, nos tornamos”.