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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Polarização em torno do Dia Mundial Sem Carne tem raízes mais profundas

Mesmo que o tema seja a escolha da cerveja que vai acompanhar o churrasco, o que está realmente em jogoé um país dividido, onde o debate público democrático se faz impossível

Publicado em 24/03/2021 às 02h00
Atualizado em 24/03/2021 às 02h03
A postagem da Heineken, no Dia Mundial sem Carne, e a resposta da empresa capixaba
Uma empresa capixaba também reagiu à postagem da Heineken no Dia Mundial sem Carne. Crédito: Reprodução

No último sábado (20), a cervejaria Heineken fez uma postagem na sua conta do Instagram sugerindo o seguinte: “Neste Dia Mundial Sem Carne, que tal comer e beber mais verde?”. A partir deste post, a marca passou a ser atacada por haters, que comentando a postagem sugeriram que ninguém mais comprasse a cerveja da marca, que seria um absurdo sugerir não comer carne, outras pessoas fizeram vídeos jogando a cerveja da marca na pia, dentre outros comentários que ainda podem ser lidos na página da marca.

Esse simples fato do fim de semana retrata bem a polarização de nossa sociedade, que passou a criar nichos de pessoas que se fecham em narrativas repetidas e repetidas milhares de vezes, impedindo qualquer tipo de aproximação e menos ainda de conversa com grupos que pensam de forma contrária. O que se vê muito nitidamente na política brasileira fez o spin over para a vida social, e vem causando controvérsias e brigas virtuais por conta até de escolhas pessoais sobre o que comer ou não comer.

Além dos ataques na conta do Instagram da empresa, que produz uma das cervejas mais idolatradas no Brasil, ela também foi atacada por pecuaristas brasileiros que se sentiram agredidos pela postagem em homenagem ao Dia Mundial Sem Carne, o qual, frisa-se, é celebrado mundialmente e sem toda essa repercussão negativa.

Não se pode deixar de conectar a questão do vegetarianismo aos movimentos sociais que lutam pela proteção do meio ambiente, das populações tradicionais, da Floresta Amazônica, pela redução da emissão de gases de efeitos estufa e para a redução do aquecimento global. Esses movimentos fazem-se presentes nas lutas diárias da população brasileira, em especial no momento em que vivemos, em que se vê o desmantelamento das estruturas de proteção ao meio ambiente no Brasil dentro do próprio Ministério do Meio Ambiente.

Para que não restem dúvidas sobre essa conexão, lembremos da frase dita pelo ministro Ricardo Salles em reunião do dia 22 de abril de 2020: “Precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos neste momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid, e ir passando a boiada, e mudando todo regramento (ambiental), e simplificando normas.” Dito e feito, desde então vimos queimadas e queimadas no Pantanal, que não foram objeto de processos de apuração, e, pior, um descaso com o meio ambiente que vem causando o genocídio da população indígena.

Por fim, há uma outra conexão que deve ser feita com essa questão ambiental que está na nota divulgada na semana passada pelo escritório da Procuradoria do Tribunal Penal Internacional em Haia, na Holanda, confirmando que a denúncia de prática de genocídio e crime contra a humanidade contra o presidente Jair Bolsonaro está formalmente sob análise preliminar de jurisdição.

A denúncia em análise trata justamente de crimes contra a humanidade e incitação ao genocídio de povos indígenas que teriam sido cometidos pelo presidente da República. Essa será a primeira vez que um presidente brasileiro será investigado pelo TPI, juntando-se a ditadores do Sudão, da Sérvia, da Ruanda, do Quênia e da Bósnia.

Como se pode ver, toda a polarização em torno do Dia Mundial Sem Carne e a cervejaria Heineken tem raízes mais profundas na sociedade brasileira. A divisão de opiniões e o ódio propagado por políticos vêm levando à desestabilização das relações sociais também. Mesmo que o tema seja aparentemente banal, ou seja, a escolha da cerveja que vai acompanhar o churrasco do fim de semana, o que está realmente em jogo aqui é um país dividido, onde o debate público democrático se faz impossível tamanho o ódio cultivado entre ambas as partes do espectro político, que vai da extrema direita à esquerda democrática.

Em tempo: para que fique claro, o vegetarianismo não faz parte de qualquer crença política, tampouco da esquerda. É apenas uma forma de vida que se preocupa com o planeta e com os animais, para que futuras gerações possam herdar um mundo onde se possa viver, respirar e até mesmo tomar cerveja.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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