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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

A pandemia frustra a tentativa de ocupação da esfera pública pelas mulheres

Falhamos ao assumirmos as mesmas posições que os homens na sociedade sem focar e exigir fortemente a compensação por meio de direitos e garantias

Publicado em 03/03/2021 às 02h00
Atualizado em 03/03/2021 às 02h01
Mulher triste
Falhamos gloriosamente durante a pandemia e o resultado, já visto hoje, é o adoecimento cada vez maior de mulheres pelo cansaço excessivo. Crédito: Freepik

Costuma-se dividir o movimento feminista na modernidade em três ondas. A primeira delas, mais longa, surge inicialmente com a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, proposta na França revolucionária por Olympe de Gouges. Em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, Olympe propõe a versão feminina do documento, tendo sido perseguida e morta no período do Terror da Revolução Francesa, pela ousadia de propor a declaração e por suas críticas à política do governo jacobino.

Mas a luta feminista estava só começando. Essa primeira onda continua ao longo do século XIX com a busca pelo pagamento de salários dignos às mulheres durante à Revolução Industrial na Inglaterra e na Europa. Porém, a força feminista toma fôlego e começa a produzir efeitos marcantes em vários lugares do mundo com o movimento sufragista nas primeira e segunda décadas do século XX, quando finalmente países como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos passam a garantir o direito de voto às mulheres.

Brasil não ficou para trás no movimento sufragista. Aqui com as mulheres representadas por Bertha Lutz, o movimento tomou forma e proporcionou o direito de voto às mulheres a partir de 1932. Porém, não se pode dizer com plena certeza que o direito ao voto foi exercido de forma igual entre todas as mulheres, pois sabemos que as mulheres negras nos Estados Unidos somente passaram a votar em 1964, enquanto às brancas o direito já era garantido desde 1920. 

No Brasil, o movimento de Bertha Lutz também é visto como conservador, sem ter levado em consideração as diferenças econômicas e raciais que permeiam a vida das mulheres brasileiras.

Na década de 1960, inspirando-se nos movimentos sociais que surgem a partir dos movimentos estudantis de 1968, da luta pelo meio ambiente e para a ampliação do estado de bem-estar social-democrata, as mulheres entram de novo em cena, no que vai-se chamar usualmente de Segunda Onda do Movimento Feminista. Engajam-se nessa luta mulheres de diversos países, em busca da igualdade de direitos não só na política mas no mundo do trabalho, no dia a dia das empresas. Passa-se a discutir, então, a dupla jornada das mulheres que, além de cuidarem dos filhos, passam a ter posição proeminente no mercado de trabalho.

Num momento de exponencial crescimento do Brasil, na década de 1970 o país precisou integrar a mulher no mercado de trabalho, pois já se fazia escassa a mão de obra masculina para dar conta do potencial econômico e fabril que se antevia para o país à época. Hoje sabemos que o discurso e a política praticada durante a Ditadura Militar (1964-1986) tinham por objetivo desenvolver a qualquer custo o parque industrial brasileiro, de modo que as mulheres foram incluídas de forma abrupta no mercado de trabalho sem que a devida estrutura legal, familiar, escolar e trabalhista fosse adequada para tanto.

A Segunda Onda no Brasil mescla-se, muitas vezes, com as lutas pelo restabelecimento da democracia, que era um debate mais primordial para nós aqui do que o debate sobre o estado social na Europa de 1968. O próprio direito de liberdade estava em jogo no país, pessoas eram torturadas e perseguidas pelas suas convicções políticas, não tendo sido as mulheres que se dedicavam à luta política exceção à perseguição pelo aparato estatal de repressão durante a ditadura.

As conquistas do movimento feminista durante a Segunda Onda foram várias, mas ainda se fazia necessário especificar os diversos grupos de mulheres nas políticas institucionais feministas. Usa-se dizer que a Terceira Onda do Movimento Feminista, a que vivemos atualmente, inicia-se na década de 1990 com a participação ampla de diversas camadas da sociedade através da participação coletiva para a formação de políticas públicas, seja por meio de coletivos, associações, conselhos estaduais e municipais.

A Terceira Onda abarca todas nós que vivemos atualmente, umas mais ativas, outras não, mas sempre envolvidas na perspectiva proposta pela Segunda Onda de que todas as mulheres podem ocupar as mesmas posições na sociedade que os homens, com direitos e garantias para o exercício e fruição dessas posições.

pandemia da Covid-19, porém, revelou que falhamos ao assumirmos as mesmas posições que os homens na sociedade sem focar e exigir fortemente a compensação por meio de direitos e garantias. Explicando melhor: se o homem sai de casa para o mercado de trabalho ou para o exercício da política, a ele é garantido o bem-estar social na esfera pública e na esfera familiar. Essa lógica permaneceu intacta mesmo durante a pandemia, com os homens que passaram a trabalhar em home office ou em atividades essenciais.

As mulheres, por outro lado, viram-se de um dia para outro de mãos atadas, em meio a um caos, pois sem escolas e creches funcionando, tiveram que dar conta de trabalhar em home office, cuidar e ensinar as crianças em casa, tendo que dividir o espaço privado com a nova forma de “local de trabalho” imposta pela pandemia não só para ela, mas eventualmente para familiares que residem no mesmo ambiente doméstico.

Muitas leitoras devem estar familiarizadas com a situação acima descrita, a qual, devido à restrição de movimentação em razão da pandemia, fez do ambiente doméstico o centro da vida pública e privada. Espaços que antes eram satisfatórios e designados para a vida privada, passaram a ser compartilhados e a funcionar como escola e escritório (ou creche e repartição pública).

A pandemia frustra qualquer tentativa de ocupação da esfera pública pelas mulheres de forma adequada, pois retira a barreira virtual que existia para separar as duas esferas, possibilitando às mulheres o exercício de diferentes posições sociais. Falhamos gloriosamente durante a pandemia e o resultado, já visto hoje, é o adoecimento cada vez maior de mulheres pelo cansaço excessivo decorrente do aumento insuportável de suas tarefas, seja no ambiente privado, seja no ambiente laboral.

Não foi pensado, até aqui, qualquer regulamentação ou dinâmica que possibilite a organização do espaço privado para que as mulheres continuem a exercer de forma digna as suas tarefas laborais, políticas e sociais, sem que elas sejam engolidas pela racionalidade que se impõe com o fardo extremo das atividades decorrentes da vida contemporânea. Fica aqui, portanto, a chamada para que pensemos coletivamente sobre o assunto, de modo a construir políticas públicas para possibilitar uma vida mais digna às mulheres enquanto o estado de pandemia não acabar.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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