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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Pandemia: crise tornou as pessoas mais centradas em si mesmas

A ideia de vivermos em um “novo normal” agregou uma série de possibilidades novas para novas versões do “jeitinho brasileiro de ser”

Publicado em 23/06/2021 às 02h00
Pessoa usando máscara
Há mais de um ano convivendo com o coronavírus, não estamos melhores, pelo contrário. Crédito: Shutterstock

Sempre ouvimos falar que de toda crise nós saímos diferentes, tendo ganhado algum aprendizado, a tendência é mudarmos para melhor. Há mais de um ano convivendo com o coronavírus, porém, não estamos melhores, pelo contrário. A ideia de vivermos em um “novo normal” agregou uma série de possibilidades novas para novas versões do “jeitinho brasileiro de ser”.

Nos primeiros dias do isolamento social, nós, de fato, aqui no Brasil também, passamos a valorizar mais algumas profissões às quais usualmente não atribuíamos uma alta estima social. Assim, profissões como a de enfermeiros, caixas de supermercados, motoristas de ônibus, trabalhadores da limpeza pública, passaram a ser vistos como importantes independente do salário que recebem (normalmente o valor atribuído a uma profissão é dependente do salário recebido pelo profissional).

Todos lembramos das homenagens públicas que foram feitas a esses profissionais naquele momento inicial. Hoje em dia, porém, vocês já repararam que aquelas manifestações de apoio acabaram? E o pior, enquanto todos esses profissionais continuam assoberbados nas lutas diárias – muitos até já adoeceram por contaminação pelo coronavírus, retornaram ao trabalho e outros tantos viram familiares morrerem com o vírus –, a população que não foi considerada como de trabalhadores essenciais parece viver como se os trabalhadores essenciais não tivessem fazendo mais do que a sua obrigação.

O reconhecimento inicial, valorizando profissões que na escala social normalmente não eram altamente conceituadas, poderiam ter continuado em alto nível de estima social se a população em geral tivesse tirado da pandemia uma lição de reconhecimento do esforço que aqueles profissionais fizeram e continuam fazendo arriscando as suas vidas, como num fronte de batalha. Aliás, é importante ressaltar que não só durante a pandemia que essas profissões são importantes, elas sempre foram, só não eram valorizadas.

Uma situação que vimos inicialmente e não se vê mais, por outro lado, é o esforço de arrecadar e fazer doações de alimentos e dinheiro para pessoas que estão em situação de insegurança alimentar ou que perderam suas fontes de renda. Víamos no ano passado grandes iniciativas, pedidos de mantimentos, preparação e entrega de marmitas para pessoas em situação de rua.

Hoje em dia, porém, parece que a fadiga causada pela pandemia fez apagar esses esforços, de modo que um ou outro projeto assistencial que já existiam antes mesmo da pandemia continuam funcionando e num esforço hercúleo tentam dar conta de uma situação que só piorou desde o início da crise.

A crise, como vimos, ao invés de nos fazer tirar aprendizados das dificuldades para construirmos um novo amálgama social, tornou as pessoas mais centradas em si mesmas. A disputa pelas vacinas nos mostrou um exemplo dessa nova realidade, pessoas buscando a qualquer custo serem vacinadas antes da outra, ao ponto de um grande empresário de Belo Horizonte chegar a contratar para familiares e amigos influentes uma “vacina pirata”. Houve também casos de seringas vazias, doses de vento aplicadas nos braços de nossos idosos.

Agora estamos na fase dos sommeliers de vacinas, pessoas que escolhem quais vacinas aceitam tomar, sem qualquer compromisso com a ideia de virtude coletiva pela qual uma pessoa vacinada a tempo (com qualquer vacina autorizada pela Anvisa) salva a vida de milhares de outras. A vacina, como os cientistas nos têm explicado, só tem efeito se for tomada por muitas pessoas. Tanto é que os Estados Unidos, maior potência do mundo ocidental, estão doando doses de vacinas para outros países, a fim de que eles também possam, num esforço coletivo, vacinar os seus cidadãos.

Aqui também um aprendizado poderia ter sido tirado, dando lugar à ideia rousseauniana de vontade coletiva visando ao bem comum. Pensar o coletivo como o bem maior a ser almejado é agir para o outro mesmo se isso nos causar um prejuízo ou restringir a nossa liberdade em parte. Pensando nisso, tomara que o tempo restante de pandemia nos permita construir um novo normal para que, quando tudo isso passar, vivermos em uma sociedade mais solidária com pessoas menos egoístas.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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