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É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

É preciso competência e habilidade para combater a miséria na pandemia

Muitos gestores não se planejam para dar conta das demandas no campo social, no apoio à geração de emprego e renda

Publicado em 22/06/2021 às 02h00
Marmita solidária - Grupo de voluntários que distribui refeições para pessoas em situação de rua, em Vila Velha
Como muitas pessoas perderam trabalho, moradia e renda, a população em situação de rua também aumentou. Crédito: Fernando Madeira

A fome é uma realidade no Espírito Santo, fruto também da crise econômica e a recessão que passa o país. O desemprego não é baixo (o IBGE registrou 269 mil pessoas desempregadas no primeiro trimestre de 2021) e parte da população está sem renda. E não são poucas, e sim muitas pessoas que passam fome. E para piorar, a política de transferência de renda, por meio do auxílio emergencial, teve seu valor e quantidade reduzidos.

No entanto, o presidente, ator político que deveria criar formas para melhorar a economia e ampliar as políticas sociais, não o faz. Em uma mesa com um banquete rico, disse, no  ano passado, que “passar fome no Brasil é uma grande mentira”. E ainda disse que não se vê gente pela rua com físico esquelético. E continuou a dizer que num país rico como o nosso, com uma riqueza que temos, a gente não sabe por que uma pessoa passa fome. Finalizou dizendo que este não era um problema seu, que ele tinha herdado de outros governos.

Não saber por que uma pessoa passa fome em plena crise instalada. Este discurso do presidente representa bem o modelo político que temos em muitas administrações municipais. Muitos não sabem por que sentam na cadeira para administrar uma cidade. Muitos gestores não se planejam para dar conta das demandas no campo social, no apoio à geração de emprego e renda. Pior ainda, muitos não sabem lidar com a miséria e os miseráveis. Não tem projetos para eles.

O poder público foi constituído, assim como as instituições que funcionam no atual modelo administrativo, para arrecadar e investir. Portanto, a máquina pública com este viés foca na arrecadação de impostos para gerir e manter o funcionamento das instâncias burocráticas e tem nesta tarefa seu fim último, quando deveria ser o meio para aplicar políticas e resolver problemas, como o social e outros.

Esta fragilidade se revela de modo evidente diante de crises sanitárias como a que estamos passando. Ela traz um pacote de problemas de toda ordem, dentre eles o econômico e o social, que deixam a maioria dos gestores perdidos sem saber o que fazer. Muitos acabam repetindo velhas receitas de problemas pontuais, que não dão conta dos gigantes dramas humanos que assolam a vida das pessoas neste tempo de pandemia.

O ineditismo das necessidades que afeta parcela da população se dá pelo tamanho do impacto causado com a falta de condições de se alimentar, estudar, além da ansiedade, medo, pânico e outros dramas que surgem diante da falta de perspectiva e de certeza de que a crise vai passar logo.

O que é passível de constatar quando parte dos alunos deixaram de ir para escola, por falta de internet em casa e também por falta de comida na mesa, como foi apontado pelo Fundo das Nações Unidas (UNICEF). E o que está sendo feito diante disso? Foram mais de 77 alunos que pararam de estudar em 2020 no Espírito Santo. O que já existe e é sabido de todos, a desigualdade e a exclusão, foram potencializadas com a pandemia da Covid-19.

Como muitas pessoas perderam trabalho, moradia e renda, a população em situação de rua também aumentou, segundo o núcleo de pesquisa da Fiocruz. No entanto, a forma como cada gestor responde aos problemas ao enfrentar a pandemia, como socorre os cidadãos desprotegidos, desempregados e desfavorecidos, irá definir muito no campo do humano, se os mesmos têm o grau de competência e habilidade necessárias àqueles que foram escolhidos para administrar as nossas vidas nestes tempos difíceis.

Vai ficar registrado como nunca antes, e a História vai cobrar daqueles que se propuseram a sentar na cadeira, a assinar documentos, a agir, retardar ou negar ações que deveriam ser mais céleres e urgentes. Nestes anos terríveis de pandemia, os resultados que terão que deixar pode mudar significativamente a vida de muitas pessoas, que nunca precisaram tanto do apoio do poder público como agora.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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