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Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Pandemia: precisamos cuidar de quem cuida de nós

Enquanto as enfermeiras adoecem e morrem, alguns continuam a viver como se a pandemia não existisse

Publicado em 22/06/2021 às 02h00
Enfermeira, profissional da saúde, enfermagem
O esgotamento dos profissionais de saúde que atuam na linha de frente do enfrentamento à Covid-19 é uma realidade inconteste. Crédito: Freepik

São muitas as razões que deveriam nos motivar a adotar radicalmente todas as medidas sanitárias reconhecidamente eficazes para o enfrentamento da Covid-19. Algumas de caráter humanitário, por compreendermos as necessidades do outro de sobreviver sem que tenha acesso às mesmas regalias que alguns de nós temos  para escapar desse triste destino que é a morte, quando ela ainda não viria por processo natural.

Outras por demonstração de singela capacidade cognitiva para entender a gravíssima situação pela qual passamos diante de todas as evidências, mais do que suficientes para nos mostrar que a gripezinha está se prolongando mais do que os falsos videntes de plantão, com suas teorias mirabolantes, caricatas e espalhafatosas, poderiam presumir.

Outras, ainda, que por puro egoísmo utilitarista, compreendendo que se seguirmos nos rumos pelos quais temos trilhado, chegaremos à virada do ano sem as condições mínimas para comemorarmos a vida e a saúde dos que nos são queridos, já que o vírus se espalha capilarmente, ainda que de forma não inteiramente democrática e igualitária, colocando em risco nosso tão propalado direito à saúde, ainda que por ele consideremos apenas o direito de acesso aos serviços de saúde.

Ainda que tenhamos recursos financeiros para abrir mais leitos, comprar mais respiradores, mais camas hospitalares e todo o aparato logístico material para dar conta dos acometidos por formas graves da doença, nós não teremos como colocá-los em funcionamento.

Leitos, respiradores, medicamentos e os sofisticados equipamentos hospitalares precisam de gente em quantidade e em condições de operá-los com competência, capacidade técnica, força e saúde para suportar um cotidiano que exige resiliência, saúde física e mental, e não apenas vocação e desejo de servir ao próximo.

Ainda que tenhamos recursos financeiros, e eles certamente existem, para contratar profissionais de saúde em quantidade suficiente para abrir mais leitos, ainda que resolvamos pagar um salário digno e decente para eles, especialmente para as enfermeiras, que continuam sub-remuneradas, desvalorizadas e com suas forças de trabalho expropriadas, nós não os teremos em quantidade suficiente e nem com o vigor físico e a saúde mental necessários para tal.

O esgotamento dos profissionais de saúde que atuam na linha de frente do enfrentamento à Covid-19 é uma realidade inconteste. Pesquisas como a desenvolvida pela respeitada professora Maria Helena Machado, da Fiocruz, em associação com pesquisadores de todo o país, e por outros investigadores ligados a outras instituições de ensino e pesquisa, bem como pelos dados apresentados pelo Conselho Federal de Enfermagem e Conselhos Regionais de Enfermagem, têm demonstrado que estamos chegando ao limite da capacidade de resiliência das trabalhadoras da enfermagem e também de outros trabalhadores da saúde, como os médicos, por exemplo.

São milhares de mulheres que todos os dias saem de suas casas, normalmente nas periferias das cidades, de madrugada, deixando seus filhos nas mãos de vizinhas ou sozinhos em casa, ainda que sem idade para se cuidarem, para assumir plantões esgotantes, sem as condições de trabalho mínimas para a preservação de sua integridade física e emocional.

Ganhando salários muito baixos, sem creches e sem escolas funcionando, elas não possuem, na maioria das vezes, as condições econômicas necessárias para proverem a segurança que seus filhos necessitam.

Voltando dos plantões, onde cuidaram de pacientes infectados, com alta carga viral, ainda que obedeçam a todas as medidas de segurança exigidas, elas sabem que poderão se constituir um risco para a saúde de suas famílias. Os sentimentos de desamparo, medo e impotência têm sido uma constante para essas mulheres.

Convivendo com dupla ou tripla jornada de trabalho, parcela significativa dessas trabalhadoras sobrevivem com poucas horas de sono e nenhuma oportunidade de descanso ou de lazer.

Em uma sociedade patriarcal que entende, convenientemente, ser de responsabilidade da mulher o trabalho doméstico, as enfermeiras continuam a suportar toda a carga de trabalho na casa, fazendo os alimentos, limpando, cuidando e educando os filhos, enquanto convivem, muitas, com as mesmas violências que as estatísticas nos mostram acometer de forma ainda mais frequente as mulheres em tempos de pandemia.

Diante da angústia, do temor e da dor de existir em meio a tanto sofrimento próprio, e também daqueles de quem cuidam, vendo a morte todos os dias se apresentando como realidade concreta, desumanizada pela distância das pessoas queridas, elas se veem melancolicamente envolvidas em pensamentos que lhes causam desprazer, ansiedade, amargura e luto.

Vivendo há cerca de um ano e três meses em situação de permanente tensão, assistindo ao surgimento de variantes ainda mais gravosas no cenário internacional e também no Brasil, com mais de 500 mil mortos sendo que, destes, em torno de 3 mil trabalhadores da saúde, considerando os 18 milhões de infectados, a redução do número de leitos disponíveis, a pobreza e a fome que se alastram pelo país, imagino os pesadelos que devem povoar as breves horas de sono dessas trabalhadoras e trabalhadores.

Enquanto isso, como se alheios a esta realidade vivessem, milhares continuam a se reunir e se divertir, quebrando todas a regras sanitárias, com escárnio e desrespeito àqueles que morreram, àqueles que vivos sofrem as dores dos queridos que foram perdidos e daqueles que continuam a entregar suas vidas e sua saúde para cuidar da vida daqueles que foram infectados, muitas vezes, pela violação cometida pelos transgressores contumazes ou pelos fomentadores de políticas de morte, que se alimentam da dor e do sofrimento de muitos.

Os trabalhadores da enfermagem não suportam mais colocar em risco suas vidas e sua saúde, enquanto alguns se divertem irresponsável e egoisticamente, violando regras mundialmente aceitas por meio de evidências validadas pela comunidade científica.

Precisamos cuidar de quem cuida de nós. Respeitar é reconhecer o valor do trabalho com salário justo. É garantir condições dignas e seguras para o exercício profissional.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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