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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Com Talibã, mulheres voltam a ser apagadas da esfera pública no Afeganistão

Imagens de Cabul demonstram o temor pela vida de meninas que serão impedidas de frequentar escolas, serão obrigadas a se casar com homens mais velhos e deverão usar burcas

Publicado em 18/08/2021 às 02h00
-Após o Tabelan reassumir o controle do Afeganistão, EUA e mais 60   países emitiram comunicado pedindo que cidadãos afegãos e estrangeiros tenham   permissão para deixar o país se assim desejarem. Ao longo do domingo e da manhã   desta segunda, 16, um tumulto no aeroporto de Cabul deixou mortos e feridos.
Combatentes do Talibã montam guarda em frente ao portão principal que conduz ao palácio presidencial afegão, em Cabul, no Afeganistão, nesta segunda-feira (16). Crédito: RAHMAT GUL/AP/ESTADÃO CONTEÚDO

Ninguém imaginava que ouviríamos Malala Yousafzai pedindo ajuda humanitária para meninas e mulheres no Afeganistão, retomado definitivamente nesta segunda-feira (16) pelo Talibã. Depois de vinte anos de ocupação pelos Estados Unidos, os soldados americanos foram retirados pelo presidente Biden autorizando, assim, a ocupação pelo grupo político-religioso no vácuo deixado no Indocuche pelos yankees.

As cicatrizes no rosto de Malala falam da violência que ela sofreu, justamente por um membro do Talibã que a atacou quando ela insistia em ir para a escola no Paquistão. Agora são as expressões faciais e os olhos da menina aterrorizada com as imagens de Cabul que demonstram o temor que ela tem pela vida de outras meninas que, como ela, serão impedidas de frequentar escolas, serão obrigadas a se casar com homens mais velhos, que deverão usar burcas, tudo isso com o fim de apagar a presença de mulheres na esfera pública afegã.

Não se pode esquecer que foi Donald Trump, antecessor do presidente Biden, que negociou e assinou o que vem sendo chamado agora de acordo de rendição dos Estados Unidos com os líderes do Talibã. Mas Biden, em conferência de imprensa nesta segunda-feira (16/8), defendeu a decisão por ele, afinal, tomada de retirar as tropas antecipadamente do Afeganistão.

Com ar determinado, o atual presidente da maior potência militar do mundo diz que ficar meses ou anos a mais não faria diferença, pois era inevitável acontecer o que aconteceu. E mais: Biden acusa o exército afegão de não lutar e deixar que o Talibã facilmente ocupe a capital do país.

A maioria dos analistas internacionais, inclusive a imprensa norte-americana que vem desde a era Trump apoiando o Partido Democrata e consequentemente o presidente Biden, tem atacado duramente a forma como as tropas norte-americanas foram retiradas, em especial, como deixaram a população afegã desamparada.

Ao ex-presidente Trump, durante a negociação do acordo, os líderes do Talibã afirmaram que iriam respeitar os direitos da população, inclusive os direitos conquistados pelas mulheres. Todavia, as informações que chegam de Cabul, via imprensa internacional, é que o Talibã já determinou que mulheres não compareçam mais aos seus locais de trabalho, devendo indicar um parente homem para ocupar a função laboral em seu lugar e que meninas já foram forçadas a se casarem com membros do Talibã.

O AFEGANISTÃO

O Afeganistão é um país que foi ocupado no século XIX pelos britânicos, posteriormente, durante a Guerra Fria, foi ocupado pela União Soviética, que com o fim do bloco comunista acabou se retirando do país, deixando espaço para a tomada do poder pelo grupo antes financiado pelo governo norte-americano, o Talibã.

Entre os anos de 1996 e 2001, o Talibã reinou livremente no Afeganistão, aplicando a sua visão de mundo e a sua leitura da Charia, a lei islâmica, à população afegã. A interpretação que fazem é única, pois muito radical, e vem sendo usada contra as minorias, como mulheres, a população LBTQIA+, etnias dissidentes e inimigos do grupo.

A visão radical tem alvo certo, as minorias vulneráveis. Na retomada do poder na capital do país, o que se via nas ruas de Cabul eram justamente homens heterossexuais e brancos com armas em punho, ostentando força e dominação.

BIDEN LAVA AS MÃOS

É certo que o acordo para a retirada das tropas americanas foi pactuado e teria que ser cumprido, mas, sinceramente, todos nós que depositávamos aquela última gota de esperança no presidente Biden, tendo nos frustrado enormemente ao vê-lo lavar as mãos, naquele gesto bem conhecido aqui no ocidente desde Pôncio de Pilatos.

Não, disse Biden, ele não queria trazer mais nenhum soldado americano dentro de um caixão de volta pra casa. A Guerra do Afeganistão, assim como a Guerra no Iraque, foram duas tentativas frustradas do governo norte-americano de impor uma mudança de regime à força em um outro país.

Biden diz que o objetivo da guerra nunca foi levar a democracia e direitos humanos para o Afeganistão, que na verdade o objetivo era prender Osama Bin Laden pelos ataques às Torres Gêmeas e isso foi feito, com muito sucesso, ressaltou. Ora, mas é difícil aceitar que após ocupar um país por vinte anos, inclusive depois de ter capturado Bin Laden, teria sido apenas um efeito colateral da busca pelo terrorista, a respeito do qual os Estados Unidos não tem qualquer responsabilidade.

O mundo aguarda agora, em suspense, as próximas cenas que chegarão de Cabul, sem saber até quando a imprensa livre será autorizada a reportar sobre o que acontece por lá. Quase ninguém, porém, acredita verdadeiramente que o Talibã irá respeitar os direitos humanos na sua nova investida no governo do Afeganistão. E o pior, o encantamento com Biden passou, o mundo está desencantado novamente!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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