Desde o domingo (15), com o Talibã tomando o controle de Cabul, capital do Afeganistão, após 20 anos de ocupação norte-americana, o mundo voltou os olhos para a Ásia com as tristes imagens de afegãos tentando deixar o país desesperadamente. Seja em longas filas de automóveis nas estradas do país ou mesmo tentando se agarrar a aeronaves em processo de decolagem, o retrato de uma sociedade em pânico comoveu o mundo.
Afeganistão - volta do Talibã pode afetar o ES e o Brasil; entenda como
Nesta segunda-feira (16), lideranças mundiais de 60 países se posicionaram sobre a crise afegã e clamaram para que o Talibã permita a saída segura do país de estrangeiros e de compatriotas que queiram deixar o Afeganistão.
Formado em 1994 por ex-combatentes conhecidos como mujahidins, que apoiados pelos EUA lutaram contra a ocupação soviética entre 1978 até o fim da URSS em 1989, o Talibã é um grupo de orientação islâmica sunita. Suas raízes são de grupos tribais do Afeganistão e têm como principal característica o fundamentalismo religioso.
Mas, por que a crise afegã impacta o mundo todo, inclusive quem vive no Espírito Santo? A resposta disso está na interpretação dura que os talibãs fazem da sharia, a lei islâmica. Especialistas ouvidos por A Gazeta pontuam que essa interpretação fere direitos humanos, obriga as mulheres afegãs a usarem burca, a deixarem de sair de casa (a não ser que seja acompanhada por um parente do sexo masculino), além de as proibirem de trabalhar e estudar.
“É algo que devemos nos preocupar porque fere os direitos humanos e principalmente os direitos das mulheres. A gente sabe que o Talibã, durante o período em que eles controlaram o país, de 1996 a 2000, foi uma administração marcada por grandes restrições, que tinham como as principais vítimas as mulheres. Elas foram proibidas de estudar, de trabalhar e obrigadas a casar à força, algo que já tem acontecido nesses últimos dias”, afirma a professora de Direito da Ufes e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes, Brunela Vicenzi.
"É um retrocesso grande, porque nos 20 anos de ocupação norte-americana, houve avanços com as mulheres participando do parlamento afegão, por exemplo, que inclusive tinha uma representação feminina maior do que o Congresso Nacional brasileiro"
Para os especialistas, a chance da crise afegã causar prejuízos diretos à economia capixaba é remota, uma vez que o país, embora rico em recursos minerais, não é um grande exportador de commodities ou um grande consumidor dos fornecedores capixabas. Contudo, a tensão no Oriente Médio pode impactar países vizinhos, como a Índia e o Irã, estes, sim, consumidores de produtos capixabas, destinos de boa parte da exportação de carne de frango processada no Estado.
Outro parceiro comercial importante para o Espírito Santo, a China também pode sofrer impactos a médio prazo. Há ainda a preocupação que um Estado fundamentalista religioso no Oriente Médio possa se tornar atrativo para o fortalecimento de outros grupos extremistas, que defendem, por exemplo, ataques terroristas a outros países.
"Eu acredito que o impacto tem muito mais um viés político do que econômico, já que o Afeganistão é um país ainda dependente da própria agricultura e não é um grande produtor ou consumidor mundial. Até pelo histórico de ocupações que sofreu em sua história, é um país que não conseguiu desenvolver sua economia. Ainda assim, a médio prazo, pode representar dificuldades para outros países. A China, por exemplo, tem um interesse em uma nova rota da seda passando pela região, ou de construir oleodutos e gasodutos atravessando o território afegão, mas isso depende do que acontecerá nos próximos meses", analisa o cientista político e professor de Relações Internacionais da UERJ, Maurício Santoro.
No cenário internacional, a aposta é que a China, pela proximidade geográfica e com o vácuo deixado pela retirada das tropas norte-americanas, atue como intermediador com o Talibã e a Organização das Nações Unidas (ONU), para a garantia de ao menos alguns direitos fundamentais.
"No entanto, sabemos que a postura da diplomacia chinesa é uma diplomacia de bastidores e menos ofensiva do que a norte-americana. Se os EUA são do tipo de país que invade e diz que está levando os direitos humanos, a China é um país que não tem essa bandeira. Ela é até acusada em alguns momentos de violar os direitos humanos entre a sua própria população", destaca Brunella.
- PRINCIPAIS IMPACTOS QUE PODEM REFLETIR NO BRASIL E NO ES:
- Interpretação dura que os talibãs fazem da sharia, a lei islâmica ameaça direito de mulheres e minorias
- A tensão no Oriente Médio pode impactar países vizinhos, como a Índia e o Irã, consumidores de produtos capixabas
- Outro parceiro comercial importante para o Espírito Santo, a China também pode sofrer impactos a médio prazo
A volta do Talibã ao poder no Afeganistão
AFEGANISTÃO, UM PAÍS MARCADO POR OCUPAÇÕES
Para entender o conflito no Afeganistão, é preciso analisar um pouco da história recente do país, marcada por ocupações de estrangeiros em seu território. Resumidamente, o país foi dominado pelo império britânico durante o século XIX, pelas tropas que também ocupavam a Índia. Com a independência afegã, em 1919, o Afeganistão se tornou uma monarquia até 1973, quando foi instaurada uma república com partido única.
Em 1978, após um golpe de Estado, o Afeganistão se tornou um Estado socialista, com a ocupação da União Soviética, durante o período da Guerra Fria. É neste contexto, a partir do início da década de 1980 que surge o embrião do Talibã, os rebeldes mujahidins, que travam a Guerra Afegã-Soviética, que chegou ao fim com a extinção da URSS, em 1989.
O QUE É O TALIBÃ
O Talibã foi oficialmente formado em 1994, como um grupo político-religioso marcado pela defesa de um país fundamentalista muçulmano. As principais lideranças eram ex-combatentes dos rebeldes mujahidins, aqueles que travaram conflitos com os soviéticos na década de 1980. Os mujahidins receberam apoio militar dos Estados Unidos para lutar contra a União Soviética, já que os norte-americanos tinham interesse no enfraquecimento da URSS, durante a Guerra Fria.
“O Talibã é formado por grupos tribais do Afeganistão. São pessoas que se associaram contra o regime russo de 1978 a 1989. A geografia do país é muito montanhosa, o que facilita a tática de guerrilha adotada pelos locais, e dificulta ataques militares contra eles. Era um grupo insignificante até receber o apoio norte-americano. Com o vácuo da saída da URSS, em 1989, eles passaram a ter uma importância ainda maior”, afirma Brunella.
"Tem um componente genuíno da origem deles, que é a proteção da nação contra o Ocidente, uma vez que eles sofreram muitas ocupações durante a sua história. Muitos afegãos, em sua maioria muçulmanos, acabaram comprando a ideia do Talibã como protetor de seu território. É um grupo que tem um certo apoio popular"
PRESSÃO SOBRE BIDEN E CRÍTICAS AOS NORTE-AMERICANOS
A atual crise no Afeganistão foi gerada pela retirada das tropas norte-americanas do país, em um processo ainda iniciado sobre o governo de Donald Trump, mas que foi acelerado pelo atual presidente dos EUA, Joe Biden. Foram 20 anos de ocupação do exército dos EUA no Afeganistão. O início desse período começou após os atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, no ataque às torres gêmeas.
O grupo fundamentalista religioso Al-Qaeda, liderado por Osama Bin Laden, assumiu a autoria do atentado. O então presidente norte-americano, George W. Bush, sob o pretexto que o governo Talibã estava escondendo Bin Laden e seu grupo nas montanhas do Afeganistão, ordenou a ocupação do país, que depois acabou se estendendo também para o Iraque.
"A retomada do Talibã no Afeganistão é uma derrota muito grande para a política externa americana que caiu no colo do Biden, mas é fruto da ações de vários presidentes, de Bush, Obama e Donald Trump. Esse retorno cria um risco de transformar o Afeganistão novamente em um polo de incentivo a movimentos fundamentalistas mulçumanos, causando problemas de segurança nacional para países vizinhos no Oriente"
Na segunda-feira, o presidente americano Joe Biden lavou as mãos e disse em pronunciamento oficial que "as tropas norte-americanas não devem lutar uma guerra na qual os próprios afegãos não querem continuar”.
"A verdade é que o [governo do] Afeganistão caiu mais rápido do que pensávamos. Os líderes afegãos desistiram e fugiram. As forças afegãs colapsaram", disse.
Para Santoro, a principal crítica feita ao governo norte-americano pelos especialistas é a de que durante 20 anos de ocupação, os EUA retirou o governo do Talibã, mas não deu sustentação para que outros grupos estabelecessem um Estado forte no país. Com a saída repentina, o vácuo deixado pelos EUA possibilitou a retomada do grupo fundamentalista.
"Eles nunca tiveram objetivos políticos bem definidos no Afeganistão e que os recursos que eles destinaram à reconstrução nacional foram insuficientes. O objetivo mais básico era derrotar a Al Qaeda e o Talibã, mas o que fazer depois? Quais eram os planos a longo prazo para o país? Isso nunca ficou muito bem definido, sempre foi meio improvisado. Depois houve a invasão do Iraque, que se tornou a guerra prioritária. O Afeganistão foi deixado de lado, era uma liderança errática, os generais no Afeganistão eram mudados com frequência, houve dificuldade com o relacionamento com os presidentes. Foram 20 anos de uma política de defesa confusa. O resultado disso é o que vemos agora, com a rapidez com que o Estado afegão ruiu, com a tomada de Cabul, a capital do país", explica.