O anúncio feito pelo governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), de mudança no secretariado, na noite do dia 25 (quinta-feira), foi claramente um movimento político, mas ele traz também reflexos no que diz respeito ao desenvolvimento econômico do Estado.
O ex-prefeito de Viana, Gilson Daniel (Podemos), assumiu a Secretaria de Governo que até então era comandada por Tyago Hoffmann. Braço direito de Casagrande, Hoffmann será titular de uma nova pasta, criada a partir da fusão das secretarias de Desenvolvimento e Ciência e Tecnologia, até então sob a liderança de Marcos Kneip e Cristina Engel, respectivamente. Com a troca de cadeiras, Kneip vai para o Bandes e Engel para a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).
Para saber como a decisão do governador repercutiu entre o setor produtivo, a coluna ouviu fontes da iniciativa privada e nomes que sempre acompanharam de perto o desenvolvimento capixaba. Todos eles, com exceção da presidente da Federação das Indústrias (Findes), Cris Samorini, preferiram manter as declarações em off, como falamos no jornalismo quando a fonte opta por ter o seu nome preservado.
Não houve consenso entre os ouvidos. Há quem veja os movimentos realizados como muito positivos e que trazem otimismo para a cena econômica e há quem avalie que o governo fez uma jogada que priorizou o contexto político.
No time dos que veem o copo meio cheio, a união das pastas de Desenvolvimento e Ciência e Tecnologia é muito oportuna, porque assim o Estado tende a trabalhar melhor a inovação e a tecnologia pensando na geração de emprego e renda, e não somente com o foco mais acadêmico, que, segundo avaliações, deve ficar a cargo da Fapes.
"Inovação é nota fiscal na veia. Essa mudança pode dar uma dinâmica de desenvolvimento para a inovação e fazer com que pesquisas gerem entrega de produtos para a sociedade"
Entre os entusiastas das mudanças, unir essas áreas é uma forma que o governo encontrou de dar mais ênfase e protagonismo ao desenvolvimento econômico. A escolha de Tyago Hoffmann para comandar a Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento também agradou parte dos empresários e dos analistas de mercado.
Para alguns, por mais que ele tenha desempenhado um forte papel político nos últimos anos, Hoffmann também é reconhecido pela sua competência técnica. Algumas fontes o citam como um grande conhecedor da economia capixaba, uma pessoa que tem base para ter sob seu guarda-chuva a área do desenvolvimento e que tende a trazer mais pragmatismo para a nova pasta.
Além disso, o fato de ser o homem de confiança de Casagrande dará ao economista mais autonomia para tomar decisões, definir estratégias e tocar projetos que contribuam para o desenvolvimento do Estado. “O Marcos Kneip cumpriu um bom papel à frente da Sedes, mas ele nunca teve a carta branca do governador para assumir compromissos como o Tyago tem.”
Tanto no meio político quanto empresarial Hoffmann é considerado por muitos como uma pessoa vaidosa e muitas vezes difícil no trato. Mas são também características como essas que são apontadas como um gatilho para ele não decepcionar.
"Ele [Tyago Hoffmann] é um cara inteligente, com protagonismo e que vai querer valorizar onde está. Avalio que a Sedes precisa ser mais ousada e estou com a esperança que ele vai fazer a coisa acontecer"
Para a presidente da Findes, Cris Samorini, as mudanças sinalizaram ao mercado que houve por parte do governador uma análise ponderada e estratégica do desenvolvimento político-econômico do Estado. Sobre Hoffmann, ela avalia que o secretário “tem um diálogo muito próximo ao setor produtivo e terá uma grande oportunidade de impulsionar e integrar agendas que se complementam”.
Os críticos, por sua vez, argumentam que o governo perdeu a mão nas escolhas, fazendo mudanças que colocaram a política à frente de decisões gerenciais e técnicas. Para quem não viu com bons olhos a fusão das secretarias e o nome de Hoffmann no comando delas, o argumento é que o governo estadual interrompe o histórico de indicações técnicas na Secretaria de Desenvolvimento (Sedes).
"A escolha não tem fundamentação técnica nenhuma. Foi um movimento político pensando em 2022 e, ao meu ver, antecipado demais. Você pode acabar desconfigurando uma estrutura que estava funcionando razoavelmente bem", pontua um nome do setor privado.
Uma fonte acrescenta que na tentativa de buscar a reeleição em 2022, o governador Casagrande está sacrificando áreas estratégicas este ano e no próximo.
"Vamos perder dois anos de gestão para tratar de política e garantir mais 4 anos na frente. Esse é um movimento muito ruim para o Estado. Independentemente dos nomes, o que está sendo priorizado não é a boa gestão"
Um empresário opina que Hoffmann é introspectivo e que precisará ter mais traquejo nas relações para além da política, uma vez que a área que ele assume exige jogo de cintura e um bom relacionamento com a iniciativa privada e potenciais investidores.
Independentemente das avaliações positivas ou negativas, o que as fontes defendem é que a nova secretaria deve buscar forma de se tornar dinâmica, atrair negócios e se consolidar. Afinal, em dois anos Hoffmann será o terceiro nome a cuidar da pasta ligada ao desenvolvimento capixaba.
No início do mandato de Casagrande, quem assumiu o comando da Sedes foi o engenheiro civil e de petróleo Heber Resende. Ele ficou somente cerca de sete meses no cargo, uma vez que em julho de 2019 foi indicado pelo governador para assumir a presidência da ES Gás.
Com a saída de Resende, o governo procurou um novo nome para a pasta, mas só depois de quase um mês foi escolhido o advogado e especialista em gestão Marcos Kneip, que está à frente da Sedes há um ano e meio.
Por isso, há uma queixa entre especialistas e fontes do setor produtivo que a área do desenvolvimento acabou perdendo fôlego e continuidade para trabalhar ações e projetos que coloquem o Espírito Santo em evidência para o investidor.
"A gente se autoelogia, reconhece que aqui há um bom ambiente institucional, mas o Espírito Santo está crescendo menos do que a média do país, que já é vergonhosa. Então, precisamos buscar caminhos para gerar riqueza, renda, empregos, para crescer. Precisamos de mais agressividade, mais presença, e espero que o Tyago dê ritmo a isso"
A lista de desafios para o "novo" secretário é extensa, ainda mais em um momento em que o Brasil e o mundo sofrem com a pandemia do novo coronavírus e o aumento das desigualdades. O entendimento de especialistas é que a condução dos negócios vai ser diferente e que muitos dos projetos que eram planejados antes da pandemia já não são mais viáveis.
"A gente está perdendo negócios porque a pandemia está inviabilizando muitos deles, afinal eles perderam o sentido econômico. Ou seja, a condução dos negócios vai ser diferente, então temos que buscar formas de maximar a nossa atuação, ter uma ligação forte com o mercado, uma retaguarda de pessoas técnicas que possam oferecer conteúdo e alternativas. E precisamos olhar para o setor produtivo mundial, não é só para o capixaba. Se não focarmos em oferecer produtos e condições diferentes, não vamos conseguir atrair o investidor e fazer com que o nosso povo tenha renda."
Como citei no início deste texto, as mudanças feitas pelo governador Casagrande tiveram origem nos arranjos políticos, mas elas têm peso significativo no ambiente econômico. Por isso, é tão importante acompanhar o que estar por vir. Trocar o comando de secretarias e cargos estratégicos faz parte do jogo, mas é fundamental que, nesse jogo, a sociedade não saia perdendo.
MUDANÇAS NO BANDES
As mudanças também tendem a trazer impactos para o Bandes. O banco de desenvolvimento teve recentemente alterações na presidência, com a chegada do advogado Munir Abud, que assumiu o cargo no lugar de Maurício Duque, e do então secretário de Desenvolvimento, Marcos Kneip, que assumirá uma diretora na instituição. Mas o tema fica para uma próxima coluna.