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Entrevista

"O ES é um lugar com muitas oportunidades e motivos para investirmos"

Afirmação é do chefe da seção política e econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro, Jesse Levinson. Em entrevista à coluna, ele falou sobre a aproximação com o Espírito Santo e pontuou as perspectivas da relação do governo de Joe Biden com o Brasil

Publicado em 11 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 fev 2021 às 02:00
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

Jesse Levinson é chefe da seção política e econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro
Jesse Levinson é chefe da seção política e econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro Crédito: Consulado dos EUA no RJ/Divulgação
Parceiro comercial de longa data e o principal destino das exportações capixabas, os Estados Unidos vêm buscando estreitar cada vez mais os laços com o Espírito Santo. O país enxerga o Estado com grande potencial para reforçar a pauta do comércio exterior, bem como para desenvolver projetos de forma conjunta e estimular negócios americanos por aqui. 
O interesse em intensificar as relações e a aproximação entre a maior potencial mundial e o Espírito Santo foram abordados pelo chefe da seção Política e Econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro, Jesse Levinson. Em entrevista à coluna, o diplomata falou sobre o potencial capixaba e fez elogios a lideranças políticas e empresariais locais. 
"O Espírito Santo é um lugar com muitas oportunidades e motivos para investirmos. É um Estado que apresenta diversas oportunidades comerciais para a comunidade empresarial americana e para os consumidores americanos. Eu tive a oportunidade de visitar o ES e conversei com lideranças estaduais, municipais e membros da comunidade empresarial, e fiquei com uma impressão muito forte de que o ES é um lugar onde o governo e a comunidade empresarial estão fazendo várias coisas para torná-lo mais atraente como um local de negócios e para promover a competitividade econômica."
O relacionamento entre as partes deve render a construção de um memorando, como adiantou Levinson à coluna. A expectativa é que o plano de trabalho ganhe fôlego a partir deste ano.
Ele também falou sobre as perspectivas das relações entre o Brasil e o Estados Unidos sob a liderança do presidente Joe Biden. Entre os principais pontos que vai demandar o diálogo a construção de soluções das duas nações está a política ambiental, tema considerado prioritário do chefe da Casa Branca. Confira a entrevista completa abaixo.
O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, discursa durante a cerimônia   de sua posse realizada no Capitólio, em  Washington (DC), nesta quarta-feira (20). Biden se tornou o   46º presidente a assumir o comando do país
O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, discursa durante a cerimônia de sua posse realizada no Capitólio, em Washington (DC). Biden se tornou o 46º presidente a assumir o comando do país Crédito: PATRICK SEMANSKY/ESTADÃO CONTEÚDO

Com a vitória de Biden sobre Trump para o comando da Casa Branca, considera que a relação Brasil x EUA pode ser prejudicada, uma vez que o governo brasileiro demonstrou publicamente a preferência pela vitória do ex-presidente Trump?

A nova administração Biden traz seu próprio foco e prioridades, mas a relação dos Estados Unidos com o Brasil é forte, madura e estratégica. É uma parceria que continuará se aprofundando e crescendo, independentemente de quem seja o presidente dos Estados Unidos ou do Brasil. Nós como americanos olhamos para o Brasil e vemos um país como o nosso. Continental, rico em diversidade cultural e com um potencial ilimitado. E, quando há uma transição política nos Estados Unidos e no Brasil, isso deve ser visto como uma oportunidade de identificar quais são as prioridades de um lado e de outro e buscar entendimentos, um diálogo novo, e é isso que a administração Biden vai buscar agora. Só para destacar que o presidente Biden e o secretário de Estado [Antony] Blinken e toda a equipe de segurança nacional têm décadas de experiência com o Brasil. Eles conhecem bem os líderes brasileiros, os diplomatas brasileiros, e têm muita experiência em resolver problemas compartilhados e sabem que a nossa parceria com o Brasil é fundamental.

O que o senhor apontou é que a relação histórica EUA x Brasil pesa mais do que um comportamento pontual do atual governo. Avalia que o Brasil deva ter esse mesmo olhar e siga na mesma intenção a partir de agora, que é reforçar relações?

É isso. Eu pessoalmente vejo mais oportunidades do que grandes mudanças ou desafios na relação. Vão ter novas prioridades, claro que vai ter diálogo, mas o que nós sabemos é que a relação vai continuar crescendo e aprofundando de qualquer forma.

Um tema sensível na relação Brasil x EUA é a questão ambiental. Em alguns momentos Joe Biden fez críticas ao Brasil em relação à condução das políticas ambientais. Como deve ficar essa relação? Os EUA podem vir a tomar alguma medida de restrição econômica, por exemplo, diante da forma como o governo brasileiro tem se posicionado na área ambiental?

A administração Biden está em fase de definição e articulação das suas próprias prioridades. O que eu posso te dizer é que uma prioridade do presidente Biden é a proteção do meio ambiente e a busca de uma solução para as mudanças climáticas. Já está muito claro que isso é uma prioridade para o presidente Biden. Ele assinou o ato para voltar ao acordo de Paris, e os EUA pretendem voltar a liderar nesse campo. 
"A questão ambiental é uma área onde estaremos desenvolvendo as soluções e o diálogo com o governo brasileiro"
Jesse Levinson - Chefe da seção política e econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro

Então, por enquanto, o Brasil não deve sofrer nenhuma sanção comercial ou sofrer alguma penalidade. Os EUA vão apostar no diálogo nesse primeiro momento?

Claro. O Brasil era um parceiro nosso estratégico e vai ter diálogo para qualquer assunto que seja importante para o hemisfério ocidental e para a segurança global, e claro que a mudança climática fica nesse campo.
Queimadas na floresta amazônica
Queimadas na floresta Amazônica:  proteção do meio ambiente e a busca por soluções para as mudanças climáticas estão entre as prioridades do governo de Joe Biden Crédito: Reprodução/TV Globo

O Brasil e o Espírito Santo são importantes parceiros comerciais dos EUA. Por exemplo, os EUA é o principal destino das exportações capixabas, com destaque para celulose, café mármore e granito, aço. A importação de produtos americanos pelos portos capixabas também é relevante, enfim, a relação comercial é sólida. Acredita que essa relação pode ser intensificada? Que tipos de ações podem ser realizadas sob a administração Biden?

É claro para nós que o Espírito Santo é um lugar onde tem muitas oportunidades e motivos para investirmos, e apostamos na construção de nossos laços com lideranças políticas e empresariais. O Espírito Santo é um Estado que apresenta diversas oportunidades comerciais para a comunidade empresarial americana e para os consumidores americanos. Pessoalmente eu tive a oportunidade de visitar o Espírito Santo no início de 2020 e conversei com lideranças estaduais e municipais, além de membros da comunidade empresarial, visitei Findes, ES em Ação, e fiquei com uma impressão muito forte de que o Espírito Santo é um lugar onde o governo e a comunidade empresarial estão fazendo várias coisas para torná-lo mais atraente como um local de negócios e de promover a competitividade econômica do Estado. E, como resultado disso, a gente já vê decisões de empresas americanas como a da Hersheys de sediar no Espírito Santo a sua distribuição para todo o Brasil. É um investimento de mais de R$ 7 milhões e uma geração de novas vagas de emprego. Então, com o tempo, as políticas públicas que o Estado está promovendo vão trazer novos investimentos americanos e criar empregos para a população capixaba.

Então, além das relações de comércio exterior, o senhor avalia que os laços podem se estreitar mais com a chegada de empresas americanas no ES?

Sim. Os laços comerciais estão crescendo. Ao mesmo tempo a nossa prioridade é trabalhar para aprofundar nossas bases documentais, em especial estamos planejando e negociando um memorando de entendimento entre o governo federal americano e o Estado do Espírito Santo. Um acordo como esse é tipo um plano de trabalho e de cooperação entre ambos governos, que têm a tendência de identificar áreas de cooperação seja na educação, na saúde, na segurança pública ou no desenvolvimento econômico. Espero que a gente vá concluir este trabalho durante este ano.

Essa aproximação com governos estaduais e representantes da sociedade civil organizada é uma ação que já vinha acontecendo ou ela está sendo fortalecida no governo Biden?

Se não me engano, o primeiro acordo, memorando de entendimento com um estado brasileiro, foi com São Paulo, faz uns 5 a 6 anos. Mas é verdade que estamos intensificando nossos esforços para criar laços com os Estados, porque nós temos empresas, cidadãos em diversas regiões e Estados do Brasil. 
"De forma natural estamos focados em Estados como o Espírito Santo, onde há presença de empresas americanas e que vão crescendo, e onde o governo estadual e a comunidade empresarial estão implementando políticas que criam condições para o crescimento econômico e atração de mais investimentos nossos"
Jesse Levinson - Chefe da seção política e econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro

O memorando citado pelo senhor define áreas para serem trabalhadas em conjunto? Já tem isso definido?

Estamos em fase de desenvolvimento e negociação. Um acordo de memorando, de entendimento, é um plano de trabalho, é uma coisa que vai definindo as prioridades entre os dois governos e vai definir as áreas em que vamos cooperar.
Produção de placas de aço na ArcelorMittal Tubarão
Produção de placas de aço na ArcelorMittal Tubarão: o então governo de Donald Trump chegou a impor dificuldades na compra do aço brasileiro. Segundo Levinson, a gestão de Joe Biden deve ser menos protecionista  Crédito: ArcelorMittalTubarão/Divulgação

Trump ao longo da sua gestão adotou diversas medidas protecionistas, algumas delas que trouxeram impactos para o Brasil e para o Espírito Santo, como foi o caso de restrições para o aço e o alumínio. Biden deve seguir uma postura semelhante? O que devemos esperar nesse aspecto?

O presidente Biden e o secretário Blinken não vêm articulando tendências protecionistas. Mas, como eu falei, eles estão na fase inicial e estão definindo suas próprias prioridades e focos para a política. Mas o que sabemos é que nos últimos anos temos realizado vários acordos que vão facilitar o comércio entre o Brasil e os EUA, seja o Atech Agreement, quer dizer potencialização do comércio de cooperação econômica, e o estabelecimento do acordo de salvaguarda de tecnologia, ou às vezes, outros acordos para a proteção de propriedade intelectual. Com todos esses acordos, a tendência é de ampliar o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos e não de diminuir.

Alguns especialistas consideram que o Brasil sede muito em relação aos EUA e não tem uma troca na mesma proporção. Avalia que exista uma relação desigual?

A meu ver, os dois lados têm uma relação robusta e baseada em valores compartilhados, e o respeito pelos interesses mútuos é fundamental. Os americanos e os brasileiros se beneficiam imensamente da nossa parceria histórica, seja no comércio ou na segurança, e essas relações são traduzidas em acordos e parcerias culturais, comerciais e com o desenvolvimento de projetos em conjunto. Então, eu vejo uma relação que está crescendo de um jeito mútuo e não de um lado ou de outro.

Tem algum ponto que o senhor acredita que a relação Brasil x EUA tende a se intensificar em 2021?

Especificamente acho que a gente vai ter que buscar um diálogo novo sobre o meio ambiente, porque essa já é uma indicação de prioridade para o presidente Biden. Ele vai focar na proteção do meio ambiente e de buscar solução para as mudanças climáticas. Então, nosso relacionamento é extremamente amplo e profundo.  Acho que a nova administração vai levar nossa aliança para um próximo patamar, mesmo que existam pontos difíceis ou desafios em certos momentos do diálogo bilateral.

O Brasil tem desafios enormes relacionados às contas públicas, ao sistema tributário, ao custo Brasil, à elevada burocracia. As empresas americanas relatam essas dificuldades, isso chega de alguma forma para vocês? Avalia que essas questões são desafios que precisam ser superados pelo Brasil?

Certamente estamos acompanhando essa conversa nacional sobre reforma tributária e outras reformas econômicas. Vamos dizer que as grandes empresas americanas também estão focadas nesses assuntos, mas essas são decisões que o Brasil e o governo brasileiro têm que decidir e implementar de acordo com a sua soberania econômica e soberania nacional. Então, estamos acompanhando, mas essas são decisões para o Brasil fazer.
Navio chega ao Porto de Vitória
Navio no Porto de Vitória: EUA é o principal destino das exportações capixabas Crédito: Vitor Jubini

Considera que representeantes do Itamaraty vêm cometendo excessos, adotando posturas incompatíveis com o que é esperado de autoridades responsáveis pelas relações internacionais?

Bom, pessoalmente eu acho que eu não posso falar de soluções internas do Itamaraty de um jeito competente. O que posso dizer é que a administração Biden e o governo americano têm laços bons com todos os níveis do poder no governo brasileiro e administração atual. Mas também estamos focados em criar laços com a sociedade civil e com os governos estaduais. 
"O Brasil é um país continental. Por isso, é importante que a gente mantenha contato com serviço diplomático e também com os governos estaduais e líderes de ONGs. Então, acho que a nossa aliança com o Brasil é tão ampla que a diplomacia oficial é uma parte específica da nossa relação."
Jesse Levinson - Chefe da seção política e econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro

Como os EUA vêm se posicionando em relação à pandemia e olhando como o Brasil lida com a doença. O Brasil tem sido muito criticado pela forma de enfrentamento da Covid-19. Então, gostaria de saber como está o contexto americano e o olhar do país em relação ao Brasil?

Nosso olhar é um olhar de um país amigo. Claro que a pandemia foi um desafio para os EUA e para o Brasil e conter o coronavírus é a prioridade número 1 do nosso presidente Biden. Isso podemos incluir um grande esforço por parte do nosso governo em desenvolver, implementar estratégias que fortaleçam e estimulem a volta do crescimento econômico e ajude a por um fim na pandemia. Foi desafio muito grande e estamos trabalhando juntos para conter a pandemia e voltar ao crescimento econômico e à vida normal. Só quero dizer que espero voltar para o ES quando a gente voltar a viajar dentro do Brasil, e estou muito animado de trabalhar com meus colegas e com o governo estadual para realizar esse acordo.

Quem é Jesse Levinson

Jesse Levinson é o atual chefe da seção política e econômica do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro. Ele entrou para o serviço diplomático do Departamento de Estado Norte-Americano em 2002 como cônsul para assuntos econômicos. Já serviu em Islamabad, Jerusalém, e em Tikrit, no Iraque, onde liderou uma equipe local de reconstrução. Posteriormente, serviu em Washington D.C e em São Paulo. Além disso, já fez parte da Missão Permanente dos EUA junto às Nações Unidas, e mais recentemente, atuou como chefe de política interna da embaixada dos Estados Unidos em Bagdá.

Levinson completou seu bacharelado na Escola de Serviço Estrangeiro de Georgetown University, e possui mestrado em Administração Governamental pela Harvard Kennedy School of Government e em estudos estratégicos pelo Army War College dos EUA. Antes de ingressar no Departamento de Estado, foi bolsista Fulbright na Universidade Federal do Ceará. Nascido em Boston, fala português, espanhol e árabe.

Perfil

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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