O conteúdo da política externa dos Estados Unidos mudou pouco desde o final do século XIX, quando foi estabelecida a doutrina Monroe, ‘América para os americanos’, entendida como território das Américas para os estadunidenses. Inicia-se ali o neocolonialismo no território invadido pelos europeus a partir do século XV.
Ao longo do século XX a doutrina Monroe foi praticada nas Américas através da proteção dos interesses das empresas estadunidenses na exploração econômica de países da região. Quando esses interesses foram contrariados, alianças com elites locais ensejaram golpes de estado e estabelecimento de ditaduras. O resultado foi a continuada subordinação econômica dos países do continente americano aos interesses estadunidenses.
A história recente do Brasil ilustra a doutrina Monroe na prática, disfarçada de proteção da democracia e da lisura pública. Os golpes de 1964 e de 2016, cada um a seu modo, foram praticados por aliados internos dos interesses estadunidenses. Para esses, por um lado, as legítimas e necessárias reformas de base propostas pelo governo João Goulart colocavam em risco a subordinação acrítica do Brasil aos ditames de Washington.
Por outro, a capacitação tecnológica em áreas como a exploração de gás e petróleo, energias alternativas, engenharia pesada, agricultura intensiva em conhecimento, dentre outras, tornava o Brasil um competidor em mercados internacionais indesejado pelas empresas estadunidenses.
O uso em 1964 do poder militar e em 2016 do lawfare como instrumentos para depor governantes legitimamente eleitos é mero detalhe. No fundo. foi o exercício no maior país da América do Sul de uma doutrina que vê toda a América Latina e o Caribe como seu quintal.
Operacionalização de uma doutrina que, sob Trump, ameaça de forma explícita todos os países da região que desejem defender sua soberania política e autonomia econômica. Em entrevista após o sequestro do presidente venezuelano e sua esposa, o presidente de um país decadente economicamente, mas ainda com o maior aparato bélico do mundo, por um lado, explicitou seu objetivo de dominar a exploração do petróleo venezuelano.
Por outro, ameaçou os presidentes da Colômbia e do México como se eles fossem os próximos alvos do terrorismo institucionalizado dos Estados Unidos. Sequestro e ameaças feitas à revelia das leis em vigor no próprio país e do que estabelece o Direito Internacional com relação à soberania das nações.
Os desdobramentos das ações de Trump em nome de seu devaneio de tornar os Estados Unidos o centro do mundo novamente certamente se darão em um cenário em que a multipolaridade política, econômica e militar já está em processo acelerado de construção. Multipolaridade construída à margem da ordem internacional estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial que colapsou pelo descaso de quem dela mais se beneficiou, os Estados Unidos.
Construção de multipolaridade da qual o Brasil participa ainda de forma tímida. Timidez, por um lado, provocada por restrições políticas internas onde interesses fortemente representadas no Congresso Nacional são aliados históricos de Washington. Por outro, pelo ainda presente apego de sua diplomacia aos interesses estadunidenses.
Restrições e apego que precisam ser superados em nome do efetivo compromisso com a autodeterminação do povos, a soberania nacional e do compromisso com a democracia. Autodeterminação, soberania e compromisso que estão longe do radar do tirano Trump e do complexo industrial-militar, das big techs e dos gestores de fundos financeiros estadunidenses que ele representa como ninguém.
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