Autor(a) Convidado(a)
É doutor em Ciências da Religião, professor, escritor e pastor da IBAB

Entre Trump e Maduro, sobra somente o caos

Enquanto isso, por aqui, há quem confunda o colapso de uma ditadura com a legitimação de um projeto que despreza a democracia tanto quanto ela, apenas com métodos diferentes

  • Kenner Terra É doutor em Ciências da Religião, professor, escritor e pastor da IBAB
Publicado em 07/01/2026 às 10h00

Qualquer pessoa com um mínimo de senso democrático é, necessariamente, contra ditaduras, tortura e perseguição de Estado. O regime de Nicolás Maduro representa tudo isso, e a dor do povo venezuelano é real. Negar esse fato seria desonestidade intelectual. No entanto, reconhecer a brutalidade da ditadura não torna automaticamente legítima a ação dos Estados Unidos na Venezuela, ação que, sob diversos aspectos, viola o direito internacional e ignora até mesmo os ritos previstos na própria Constituição norte-americana.

Como analistas conservadores e de direita têm corretamente apontado, nem Maduro nem Donald Trump são defensáveis. Ambos violam procedimentos legais, cada um à sua maneira. A crítica a um não pode servir de absolvição ao outro. Trump, inclusive, recorreu a um argumento cínico para justificar a ofensiva: o combate ao narcotráfico.

Não há qualquer evidência de que sua preocupação seja, de fato, a democracia venezuelana, preocupação que ele tampouco demonstra em relação a outros países. Pelo contrário: seu histórico revela profunda seletividade moral.

A narrativa antidrogas entra em contradição quando se observa, por exemplo, o perdão concedido ao ex-presidente de Honduras, diretamente envolvido na facilitação do envio de toneladas de cocaína para os Estados Unidos. Some-se a isso o silêncio conveniente diante de regimes autoritários aliados, como a ditadura da Arábia Saudita. A indignação de Trump não é ética; é estratégica.

Não por acaso, a Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, estimada em cerca de 303 bilhões de barris. O próprio Trump declarou publicamente que o petróleo venezuelano estaria, agora, sob seu controle. Não se trata de uma suspeita interpretativa, mas de uma afirmação explícita.

A ofensiva, portanto, não pode ser compreendida prioritariamente como uma ação em defesa da democracia ou de combate ao narcotráfico. Trata-se de geopolítica pura: controle de recursos energéticos, manutenção da hegemonia dos Estados Unidos na América do Sul e contenção da influência chinesa na região.

É verdade que parte do povo venezuelano celebrou a queda do regime, e há bons motivos para isso. Trata-se do desespero legítimo de uma população que ansiava por sair da opressão. Mas o alívio momentâneo de uma sociedade não tem o poder de purificar projetos imperialistas declarados. A dor de um povo não legitima a abertura de precedentes perigosos.

Trump já deixou claro o que pensa do continente. Disse que a Colômbia está “doente” e que ele irá “curá-la”. Afirmou que Cuba vai cair porque está mal. Voltou a declarar que pretende anexar a Groenlândia. Hoje foi a Venezuela; amanhã pode ser qualquer outro país que contrarie seus interesses estratégicos. Basta um álibi conveniente.

Havia outros caminhos. Mesmo com participação dos Estados Unidos, seria possível uma força-tarefa internacional, com carta de compromisso clara para reconstrução democrática, respeito à soberania e às instituições. Não foi isso que ocorreu. Trump não quis ser um mediador nem um garantidor da democracia. Ele quis tomar, controlar, saquear (e, de quebra, abrir um precedente que permita futuras intervenções no continente).

Não se derruba um ditador abrindo a porta para outra monstruosidade. A Venezuela precisava de libertação, não de tutela imperial. O que se fez foi aproveitar um mal para cavar espaço para outro. E o mais grave: nem sequer houve o cuidado de revestir a ação com um discurso democrático consistente.

São alguns observadores que, agora, tentam coroar Trump como salvador da democracia, algo que ele próprio jamais reivindicou. Pelo contrário, deixou claro que sua motivação central foi proteger o petróleo do acesso de seus inimigos.

U.S. President Donald Trump attends a press conference
Donald Trump. Crédito: Jessica Koscielniak/Reuters

As consequências são evidentes. A Venezuela tende a ser deixada em profunda vulnerabilidade política, econômica e social, arcando sozinha com os efeitos dessa intervenção. Os Estados Unidos violaram acordos internacionais, ignoraram seu próprio Congresso e estabeleceram um precedente que ameaça toda a América Latina.

Quem dará conta das portas do caos que se abriram? Os próprios norte-americanos estão escandalizados com o discurso e as declarações de Trump. Enquanto isso, por aqui, há quem confunda o colapso de uma ditadura com a legitimação de um projeto que despreza a democracia tanto quanto ela, apenas com métodos diferentes.

Celebrar a queda de um tirano não pode nos cegar para o nascimento de algo igualmente perigoso.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais
Donald Trump Estados Unidos nicolás maduro venezuela

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.