Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 14:10
"Uma coisa é chamar o diabo e outra é vê-lo chegar. Quando vimos aquelas explosões e tudo aquilo, uau! Foi algo muito surpreendente", diz uma mulher que pede para não ser identificada.>
Caracas ainda vive uma enorme comoção após a operação militar dos Estados Unidos que levou à captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e à sua transferência para Nova York, onde será julgado por acusações de narcotráfico, entre outras.>
A mulher conversa com a reportagem da BBC News Mundo (serviço de ntícias em espanhol da BBC) enquanto homens vestidos inteiramente de preto e portando armas longas circulam pelo local. Eles vão e vêm.>
Essa é a cena no centro de Caracas, onde, no domingo (4/1), houve uma "marcha pela libertação" de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foi detida na mesma operação.>
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Não havia uma multidão. Foi uma concentração pequena.>
"O povo indignado exige seus direitos", entoa um grupo.>
Estavam presentes os chamados coletivos, grupos paramilitares pró-governo. >
Também participavam trabalhadores de instituições públicas.>
O clima era de raiva, dor e muitas perguntas sem resposta.>
"Honestamente, sinto-me humilhada, humilhada porque me pareceu muito fácil a forma como levaram o nosso presidente (...). Penso que nosso presidente foi traído de alguma forma", diz Rosa Contreras, de 57 anos, que participou da manifestação. Ela é líder social em Antímano, um bairro no oeste de Caracas.>
A chamada "Operação Resolução Absoluta", com a qual os Estados Unidos detiveram Maduro e Flores na Venezuela, envolveu o deslocamento de 150 aeronaves que partiram de terra e do mar.>
O presidente e sua esposa foram capturados pela Força Delta do Exército dos Estados Unidos, a principal unidade antiterrorismo do país, e levados para um navio em águas do mar do Caribe. De lá, foram transferidos para Nova York.>
Na segunda-feira (5/1), Maduro compareceu a um tribunal em Nova York para enfrentar acusações de narcotráfico e narcoterrorismo. Ele afirmou ser um "prisioneiro de guerra" e declarou-se inocente. >
"Ainda sou o presidente", assegurou.>
Para Contreras, a imagem de Maduro acenando ao chegar aos Estados Unidos transmite uma mensagem clara às fileiras chavistas e a tranquiliza: "Pudemos ver a atitude do presidente, ele estava firme, firme em meio a esse processo, que é um processo muito delicado.">
"Ele estava com uma postura que nos mandava uma mensagem: se eu estou aqui de pé, vocês também têm que estar de pé, têm que estar firmes, erguidos e seguir em frente", acrescenta.>
Já Carmen Chirinos, de 63 anos, caiu no choro ao ver Maduro algemado.>
"Sinto muita dor e tristeza, porque sou revolucionária (...) parte meu coração. Hoje, com outro vídeo que vi, comecei a chorar (...) um vídeo de Maduro quando o levaram", conta Chirinos.>
"Trump, é com você: devolva o nosso presidente, Nicolás Maduro", diz, efusiva, Gelen Correa, de 50 anos, que trabalha em programas sociais do governo.>
"Este povo se respeita. Estou disposta a contra-atacar", acrescenta.>
Diante da ideia de um eventual segundo ataque terrestre, Correa afirma: "Vocês vão nos encontrar armados até os dentes".>
Meses antes, o governo convocou os venezuelanos a se alistarem na milícia, e vários disseram que pegariam em um fuzil para defender com a própria vida Maduro e a revolução.>
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, informou que não houve mortos nem feridos entre as forças americanas durante a operação.>
Do lado venezuelano, mais de 48 horas após os ataques, nenhuma autoridade apresentou um balanço de vítimas ou de danos materiais.>
No domingo, o ministro da Defesa da Venezuela, o general em chefe Vladimir Padrino López, informou que a maioria dos escoltas e guarda-costas que protegiam Maduro foi "assassinada a sangue frio" pelos militares americanos que capturaram Maduro e sua esposa, sem fornecer números concretos.>
O único número veio do governo cubano, que informou no domingo que 32 cidadãos cubanos morreram nos ataques.>
Segundo as autoridades de Cuba, eles "cumpriam missões em representação das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior, a pedido de órgãos homólogos do país sul-americano".>
Elin Mata, por sua vez, pede repetidas vezes: "Devolvam Nicolás, devolvam o presidente".>
"O que senti ao ver o presidente Maduro [preso]? Muita impotência e muita raiva, porque um império quer colonizar a nossa pátria", responde.>
Entre os chavistas nas ruas, são muitas as perguntas: o que aconteceu com a segurança de Maduro? O que falhou? Ele foi entregue? Houve ou não negociação?>
"É preocupante como eles vêm e levam Maduro e sua esposa, isso é vergonhoso (...). Acho que houve uma grande falha, a defesa nacional tinha que estar ativa, porque se sabia que havia uma ameaça", diz um aposentado de 73 anos, alinhado ao governo, que prefere resguardar seu nome.>
Por enquanto, diante da ausência de Maduro, na segunda-feira Delcy Rodríguez, a vice-presidente venezuelana, tomou posse como presidente interina por ordem do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela.>
Fora desse perímetro chavista em Caracas, a imagem é outra.>
As pessoas tentam se abastecer de proteínas, leguminosas e qualquer outro alimento básico para os dias que virão. Fazem isso com o pouco que têm nos bolsos.>
Anos de crise econômica as atingem duramente.>
Ainda assim, os supermercados seguem com filas de pessoas nas entradas, aguardando para entrar. E, já no fim da tarde, algumas prateleiras estão vazias.>
Os postos para abastecimento de gasolina seguem abertos.>
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