Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 16:10
Enquanto Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores contestam as acusações contra eles em Nova York, especialistas questionam o significado da captura do líder venezuelano pelos Estados Unidos para as normas internacionais e se as ações americanas poderão servir de incentivo para outros países.>
O presidente americano, Donald Trump, declarou que os Estados Unidos irão "governar" a Venezuela, "até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa".>
Trump também reiterou sua reivindicação de anexar a Groenlândia aos Estados Unidos e citou a Doutrina Monroe, de 1823, que prometia a supremacia americana no hemisfério ocidental.>
Os países vizinhos da Venezuela e seus aliados de longa data, a Rússia e a China, condenaram as ações dos Estados Unidos. Eles receiam que ela prejudique o direito internacional e estabeleça um perigoso precedente.>
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Já os aliados de Washington foram cautelosos nas suas reações. O Reino Unido, a Alemanha e a França evitaram qualquer condenação.>
Como a China e a Rússia poderão observar esta situação? E como ela poderá influenciar suas ações?>
"Se os Estados Unidos impõem o direito de uso de força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados por eles de conduta criminosa, o que impede que a China reivindique a mesma autoridade sobre os líderes taiwaneses?", questionou em declaração o senador democrata americano Mark Warner.>
"Ao cruzar esta linha, as regras que restringem o caos global começam a entrar em colapso e os regimes autoritários serão os primeiros a explorar a situação.">
Estaria ele certo? As ações de Washington poderão realmente incentivar a China a considerar uma ação similar contra a ilha democraticamente autogovernada de Taiwan, que Pequim considera seu território e se comprometeu a retomá-la, pela força se for preciso?>
"Não necessariamente", segundo o professor Hoo Tiang Boon, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura.>
Para ele, "os chineses não fariam deliberadamente nenhuma relação direta entre essas duas questões... É muito improvável que a China aja impulsivamente após a medida de Trump.">
É preciso observar que o ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, condenou o uso da força por Washington, considerado violação do direito internacional e uma afronta à soberania da Venezuela.>
"Nunca acreditamos que qualquer país possa agir como polícia internacional", declarou ele.>
Outros especialistas destacam que existe uma diferença importante entre as duas regiões.>
Para a China, Taiwan é uma província e a Venezuela é um Estado soberano. Por isso, Pequim consideraria qualquer ação contra Taiwan como uma questão interna.>
Os analistas indicam que a eventual invasão de Taiwan não seria, para a China, uma questão de encontrar justificativa, mas sim de capacidade.>
Membros do parlamento taiwanês também parecem acreditar que a captura do chefe de governo da ilha não está no roteiro de Pequim.>
"O que a China quer não é retirar à força o chefe do governo, nem bombardear toda a ilha de Taiwan e ir embora em seguida", declarou o parlamentar taiwanês Hou Han-ting ao canal de TV do país CTi News. "O que ela quer é a reunificação e que a ilha seja governada por Pequim.">
"Por isso, puramente desse ponto de vista, repetir o que os Estados Unidos estão fazendo agora na Venezuela simplesmente não é a forma em que a China idealiza a retomada de Taiwan", segundo ele.>
Alguns observadores destacam que Pequim pode perceber o destacamento de um volume significativo de equipamento naval americano para o Caribe como uma mudança temporária do foco global de Washington, o que pode afetar indiretamente seu tempo de reação em outras regiões.>
Mas os especialistas que conversaram com a BBC também afirmaram que este fator, isoladamente, não alteraria os cálculos de Pequim sobre Taiwan. A ilha ainda detém extensos tratados com os Estados Unidos e compra grandes volumes de armas de Washington.>
Um ponto em que a China pode se beneficiar é na formação das percepções globais sobre o comportamento americano.>
O ataque americano à Venezuela permite que os diplomatas e a imprensa chinesa apresentem os Estados Unidos como uma força instável, que pratica intervenções que comprometem as normas internacionais, enquanto a China seria defensora da soberania — mesmo com seus críticos observando a atividade chinesa em regiões contestadas, como o Mar do Sul da China, onde Pequim construiu e militarizou ilhas artificiais, usando navios da marinha e a guarda costeira para impor suas reivindicações marítimas em disputa.>
Já o relacionamento entre a China e a Venezuela, desenvolvido há mais de duas décadas, é baseado mais na oportunidade do que em um profundo alinhamento entre os dois países.>
Primeiro sob o ex-presidente Hugo Chávez (1954-2013) e, depois, sob Nicolás Maduro, Caracas fortaleceu suas relações com Pequim, à medida que seus laços com Washington se deterioravam.>
A China se tornou o maior credor da Venezuela. Os empréstimos eram pagos, em grande parte, em petróleo. E, em retorno, Pequim garantia seu fornecimento de energia e oferecia apoio político.>
Com o passar do tempo, a presença chinesa na Venezuela se tornou simbólica da sua maior participação na América Latina como um todo, em busca de mercados, recursos naturais e apoio diplomático. Pequim se apresenta como parceiro que respeita a soberania e a não interferência entre as nações.>
Mas a influência chinesa na América Latina enfrenta obstáculos cada vez maiores.>
O Panamá abandonou recentemente o emblemático projeto de infraestrutura chinês conhecido como a Nova Rota da Seda e um candidato apoiado por Trump, Nasry Asfura, venceu as recentes eleições presidenciais em Honduras. >
Ele ameaça restabelecer relações com Taiwan, revertendo a decisão tomada em 2023 de firmar laços diplomáticos entre Honduras e Pequim.>
Além de questionar como a China poderá observar a situação, o senador americano Mark Warner também questionou se as ações dos Estados Unidos poderão aumentar a disposição de Moscou para buscar seus próprios objetivos estratégicos por vias militares e não diplomáticas.>
"O que impede Vladimir Putin de buscar uma justificativa similar para sequestrar o presidente da Ucrânia?", pergunta ele.>
Até aqui, a reação da Rússia à operação americana na Venezuela tem sido contida em meio aos feriados de Ano Novo. Diplomatas russos condenaram os Estados Unidos e exigiram a libertação de Maduro, mas o presidente russo Vladimir Putin ainda não comentou o ataque em público.>
Mesmo assim, existem poucas dúvidas de que Moscou esteja monitorando atentamente os acontecimentos.>
Na quarta-feira (7/1), os Estados Unidos apreenderam um navio petroleiro ligado à Venezuela que viajava sob bandeira russa. >
Após a apreensão, o Ministério dos Transportes da Rússia disse que "nenhum Estado tem o direito de usar força contra embarcações devidamente registradas nas jurisdições de outros países". Já o ministério das Relações Exteriores pediu que os EUA garantam "tratamento humano e adequado aos cidadãos russos a bordo".>
Esta situação deixa Putin em uma situação difícil. É possível que ele venha a usar a operação americana na Venezuela para justificar sua própria invasão da Ucrânia.>
O presidente russo vem acusando repetidamente o Ocidente de usar dois pesos e duas medidas. Putin menciona, por exemplo, a guerra do Iraque (2003-2011) e o bombardeio da antiga Iugoslávia pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 1999.>
Putin não confia nos Estados Unidos há muito tempo e critica repetidamente Washington por interferir nos assuntos de outros países. Ele descreve esta estratégia como um dos fatores que prejudicaram as relações entre a Rússia e o Ocidente.>
A captura de Nicolás Maduro provavelmente reforçará os temores do Kremlin em relação a mudanças de regimes lideradas pelos Estados Unidos.>
Mas a beligerante retórica americana sobre seu direito de liderança no "seu próprio hemisfério" é similar à visão de mundo do Kremlin, que defende que a Rússia teria o direito de fazer avançar seus interesses de forma agressiva ao longo das suas fronteiras.>
Moscou chegou a imaginar uma vitória rápida na Ucrânia, mas, cerca de quatro anos depois da invasão, a Rússia permanece restrita ao leste ucraniano, um contraste marcante em relação à rapidez do ataque de Trump à Venezuela.>
No ano passado, Putin esperava trazer Washington para o lado de Moscou e enfraquecer o apoio internacional à Ucrânia.>
Esta intenção foi acompanhada por uma notável mudança de tom, com autoridades russas, lideradas por Putin, evitando críticas diretas ao presidente Trump.>
Neste momento fundamental das negociações de paz na Ucrânia, Moscou provavelmente não deseja complicar ainda mais suas relações com os Estados Unidos.>
Em termos do seu relacionamento com a Venezuela, a Rússia passou a ser um dos principais aliados do país sul-americano. Seus laços de longa data abrangem a cooperação no setor energético, projetos relativos ao petróleo e o fornecimento de armas.>
Entre 2005 e 2017, Moscou vendeu armamentos a Caracas no valor de mais de US$ 11 bilhões (cerca de R$ 59 bilhões). Eles incluem aeronaves Su-30 e sistemas de defesa antiaérea S-300, além da realização de exercícios militares conjuntos.>
Mas "parece que as defesas antiaéreas russas não funcionaram muito bem, não é verdade?", zombou o secretário de Defesa americano Pete Hegseth na segunda-feira (5/1).>
Desde 2006, Moscou também forneceu o valor estimado de US$ 17 bilhões (cerca de R$ 91 bilhões) em empréstimos e linhas de crédito, segundo cálculos da agência de notícias Reuters. Foram investimentos políticos, não econômicos.>
Maduro foi um dos poucos líderes mundiais a reconhecer a Crimeia como território russo, quando Moscou anexou a península no mar Negro em 2014, e a apoiar a invasão da Ucrânia por Putin.>
A Venezuela foi um dos últimos aliados incondicionais da Rússia. A remoção do seu líder autoritário representa mais um golpe para os regimes amigos de Moscou, em um momento em que a Rússia está obcecada pela guerra na Ucrânia.>
Na Síria, as forças de oposição derrubaram o aliado russo Bashar al-Assad em 2024. >
O Irã, outro parceiro próximo de Moscou, sofreu ataques dos Estados Unidos em relação ao seu programa nuclear em 2025, com pouca resistência visível da Rússia.>
Tomados em conjunto, estes casos levantam questões desconfortáveis sobre o valor político e militar de se manter amizade com a Rússia.>
No ano passado, Moscou e Caracas assinaram um acordo de parceria estratégica. Mas, quando os Estados Unidos saíram em busca de Maduro, a Rússia não fez nada para proteger seu aliado.>
Talvez haja esperança em Moscou de que as operações americanas na Venezuela acabem se desfazendo, considerando a falta de detalhes de um plano de longo prazo e a ausência de precedentes convincentes para uma mudança de regime bem sucedida.>
Moscou talvez relembre a guerra entre a União Soviética e o Afeganistão (1979-1989), que começou com a rápida tomada do palácio do governo, mas progrediu para se tornar um dispendioso fracasso que durou uma década.>
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