Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 17:10
O professor universitário Xavier Crettiez reconhece que não sabe o nome verdadeiro de muitos alunos da sua classe.>
É uma situação altamente incomum no mundo acadêmico, mas o trabalho do professor também é fora do padrão. Ele ajuda a treinar espiões franceses.>
"Raramente conheço os antecedentes dos agentes de inteligência quando eles são encaminhados para o curso e duvido que os nomes informados sejam verdadeiros", ele conta.>
Se a intenção era criar um ambiente para uma escola de espionagem, o campus da Universidade Sciences Po Saint-Germain-en-Laye, nos arredores da capital da França, Paris, parece bastante adequado.>
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Suas austeras construções do início do século 20, com aparência que chega a ser sombria, são cercadas por intimidadores portões metálicos, que levam a rodovias comuns e movimentadas. Tudo muito discreto.>
A diferença é o seu diploma único, que atrai igualmente estudantes típicos com pouco mais de 20 anos e membros ativos do serviço secreto francês, normalmente entre os 35 e 50 anos de idade.>
O curso se chama Diplôme sur le Renseignement et les Menaces Globales — Diploma em Inteligência e Ameaças Globais, em tradução livre. Ele foi desenvolvido pela universidade, em associação com a Academia de Inteligência, o setor de treinamento do serviço secreto francês.>
As aulas foram um pedido das autoridades francesas, uma década atrás. Depois dos ataques terroristas em Paris, em 2015, o governo da França promoveu uma campanha de recrutamento em massa nas agências de inteligência do país.>
Por isso, o governo pediu à Sciences Po, uma das principais universidades francesas, que criasse um novo curso para formar possíveis novos espiões e fornecer treinamento contínuo para os agentes atuais.>
Grandes empresas francesas também demonstraram interesse rapidamente, tanto para levar seus funcionários de segurança para o curso, quanto para contratar muitos dos formandos mais jovens.>
O curso tem 120 horas-aula e dura quatro meses. Para alunos externos (espiões e funcionários de empresas), o custo é de cerca de 5 mil euros (cerca de R$ 31,7 mil).>
O principal objetivo do programa é ensinar os alunos a identificar ameaças em qualquer lugar, como rastreá-las e superá-las. >
Os principais temas incluem aspectos econômicos do crime organizado, jihadismo islâmico, coleta de inteligência comercial e violência política.>
Para comparecer a uma das aulas e conversar com os alunos, precisei receber aprovação prévia dos serviços de segurança franceses. O tema da lição era "a inteligência e a dependência excessiva da tecnologia".>
Um dos alunos com quem conversei foi um homem na casa dos 40 anos, que se apresenta com o nome de Roger. Ele me conta, em inglês muito preciso e polido, que é banqueiro de investimentos.>
"Ofereço consultoria em todo o oeste africano e entrei no curso para fornecer avaliações de risco aos meus clientes na região", ele conta.>
Crettiez leciona radicalização política. Ele explica que os serviços secretos franceses passaram por uma enorme expansão nos últimos anos.>
Existem agora cerca de 20 mil agentes, segundo o professor, no que ele chama de "círculo interno", composto pelo DGSE, que cuida dos assuntos internacionais (o equivalente francês ao MI6 britânico ou à CIA americana) e pelo DGSI, voltado às ameaças internas (como o MI5 britânico ou o FBI dos EUA).>
Mas nem tudo trata apenas de terrorismo, segundo o professor.>
"Existem as duas agências de segurança principais, mas também a Tracfin, uma agência de inteligência especializada em lavagem de dinheiro.">
"Ela cuida do aumento da atividade mafiosa, especialmente no sul da França, incluindo a corrupção nos setores público e privado, principalmente devido aos lucros massivos do tráfico de drogas ilegais", explica ele.>
Outros professores incluem um agente do DGSE que já foi destacado para Moscou, na Rússia, um ex-embaixador francês na Líbia e um agente sênior da Tracfin.>
O chefe de segurança da gigante francesa de energia EDF também é responsável por um dos módulos do curso.>
O interesse do setor privado pelo diploma aparentemente continua em crescimento.>
Grandes empresas demonstram cada vez mais disposição para contratar os alunos para enfrentar as implacáveis ameaças de espionagem, cibersegurança e sabotagem. Elas incluem especialmente companhias do setor de defesa e aeroespacial, mas também marcas francesas de produtos de luxo.>
Recentemente, os formandos vêm sendo recrutados pela operadora francesa de telefonia celular Orange, pela gigante aeroespacial e de defesa Thales e pela LVHM, dona de quase tudo, desde a Louis Vuitton e a Dior até as marcas de champanhe Dom Perignon e Krug.>
Vinte e oito estudantes estão matriculados para as aulas deste ano. Seis deles são espiões.>
É possível identificar quem são estes alunos. Eles se reúnem durante os intervalos, longe dos estudantes mais jovens, e não ficam muito entusiasmados quando me aproximo deles.>
Com os braços cruzados e sem declarar exatamente seu cargo, um deles afirma que o curso é considerado um trampolim para uma rápida promoção do escritório para o trabalho de campo.>
Outro conta que consegue ter ideias novas no ambiente acadêmico. Ambos assinaram a lista de presença do dia apenas com seus primeiros nomes.>
Um dos alunos mais jovens é Alexandre Hubert, de 21 anos. Ele conta que queria compreender melhor a iminente guerra econômica entre a Europa e a China.>
"Observar a coleta de inteligência do ponto de vista de James Bond não é importante", afirma ele. "A questão é analisar os riscos e trabalhar para combatê-los.">
Outra estudante é Valentine Guillot, também com 21 anos. Ela conta ter se inspirado na popular série de TV francesa Le Bureau des Légendes (2015-2020).>
"Vir aqui para descobrir este mundo que eu não conhecia, exceto pela série de TV, é uma oportunidade memorável", diz ela. >
"E, agora, estou muito interessada em entrar nos serviços de segurança.">
Quase a metade dos alunos da classe, na verdade, são mulheres. Esta é uma mudança relativamente recente, segundo um dos professores, Sebastien-Yves Laurent, especialista em tecnologia de espionagem.>
"O interesse das mulheres pela coleta de inteligência é algo novo", segundo ele. "Elas estão interessadas por acreditarem que irão colaborar para um mundo melhor.">
"E, se existir uma linha comum entre todos esses jovens estudantes é que eles são muito patriotas e isso é novo, em comparação com 20 anos atrás", explica o professor.>
Se você quiser se matricular no curso, um requisito essencial é possuir cidadania francesa. Mas são aceitas algumas pessoas com dupla cidadania.>
O professor Crettiez conta que precisa ser cauteloso na seleção de candidatos.>
"Recebo regularmente inscrições de mulheres russas e israelenses muito atraentes, com ótimos currículos", ele conta. "É claro que elas são imediatamente descartadas.">
Em uma foto recente do grupo de estudantes, é possível identificar imediatamente quem são os espiões. Eles ficam de costas para a câmera.>
Todos os estudantes e espiões profissionais que conheci são elegantes e esportistas, mas Crettiez pretende desfazer o mito das aventuras de James Bond.>
"Poucos novos recrutas acabarão no campo", segundo ele. "A maioria dos empregos nas agências de inteligência francesas são para trabalhar no escritório.">
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