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Reflexão da nossa realidade

De desalento e distopias a utopias

A omissão do poder público diante da pandemia quase sempre vem justificada pela forma como as pessoas tendem a ser descuidadas para com a sua própria saúde e para com a de seus semelhantes

Públicado em 

13 ago 2020 às 05:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Atual conjuntura no Brasil contribui para o aumento de evidências que alimentam a distopia
Atual conjuntura no Brasil contribui para o aumento de evidências que alimentam a distopia Crédito: Pixabay
É desoladora a situação da sociedade brasileira diante da Covid-19. Às mais de 100 mil mortes já ocorridas, se somam mais de 500 diariamente e mais de 20 mil novos casos de infectados todos os dias. Parte considerável dessa situação é resultado da forma irresponsável como a pandemia vem sendo tratada por autoridades brasileiras.
Seja no plano federal, nos Estados ou municípios, o exercício do poder – tanto no âmbito do Executivo, quanto do Legislativo e Judiciário – se dá de forma irresponsável, salvo algumas poucas exceções. A omissão do poder público quase sempre vem justificada pela forma como as pessoas tendem a ser descuidadas para com a sua própria saúde e para com a de seus semelhantes. Argumento fraco quando se sabe que, respeitados direitos individuais, cabe às autoridades estabelecidas cuidar do interesse geral da população.
Do desalento causado pela forma como às vítimas são imputadas responsabilidades decorre o Brasil ocupar a vergonhosa segunda posição mundial em casos de mortes provocadas pela Covid-19. Só perde para os Estados Unidos, matriz do terraplanismo da ultradireita que inspira diretamente a ação do governo federal e indiretamente outras instâncias de poder no país.
Essa conjuntura nacional contribui para o aumento de evidências que alimentam a distopia enquanto um universo controlado pelo Estado. Controle exercido através da camuflagem de problemas segundo os interesses dos poucos que dominam e aparelham as instituições que deveriam ser públicas. Como resultado, se torna refém do sistema a maioria da população - principalmente aqueles que vivem em condições precárias de humanidade. Dominação que se dá através da camuflagem de problemas e falseamento da real situação do sistema que resultam em uma estupidez coletiva.
Camuflagem de problemas como os que resultam do processo de apropriação indevida como o feito por corporações que controlam a cadeia produtiva do gás e petróleo. Aos malefícios que dela resulta em termos de recursos naturais – águas, terra e ar – e biodiversidade depredados, se somam condicionamentos de comportamento viabilizados pelo marketing agressivo a que recorrem nos mais diversos veículos de comunicação social.
Exemplo desse condicionamento de comportamento é o que induz ao crescente consumo de produtos plásticos. Ainda que campanhas de conscientização ocorram, elas ainda são insuficientes para tornar mais amplo o debate sobre os resultados da adesão acrítica ao consumo de plástico em escala mundial. As evidências são de que, em media, as pessoas engolem o equivalente a um cartão de crédito por semana em microplásticos presentes na comida e na água de consomem.
A questão vai além do acúmulo de lixo sólido. O plástico também libera toxinas de diversas maneiras em seu uso doméstico, contaminando o ar em estantes de brinquedos, liberando substância em contato com a pele e a boca das crianças, Ou seja, o brinquedo de plástico é portador de doenças que acompanharão no futuro as crianças que deles só deveriam derivar alegria e boas lembranças.
Falseamento da real situação do sistema econômico como o que ocorre na transferência de recursos governamentais, gerados através de impostos pagos pela maioria da população, para poucos que vivem da especulação financeira. Transferência que se acentua em momentos de crise seja ela de ordem financeira – como a de 2007/8 – ou aquela multifacetada como a que se acelerou com a pandemia. Recursos governamentais que beneficiam processos especulativos que em praticamente nada contribuem para o progresso econômico e para a geração de emprego e renda.
O círculo vicioso que leva ao desalento que alimenta distopias precisa ser quebrado para que floresçam utopias que são semeadas mundo afora através da ação de pessoas e grupos sociais que ousam pensar e agir em nome do bem comum. Sementes da dimensão de iniciativas como a do Papa Francisco e o projeto "Economia de Clara e Francisco"; e aquela liderada pela jovem Greta Thunberg, que se recusa a aceitar como normal a destruição da natureza e de valores culturais humanistas por poucos que só conseguem vislumbrar o mundo a partir da perspectiva financista.
Sementes de utopias que podem ser encontradas em diversas iniciativas espalhadas pelo mundo que buscam responder às necessidades humanas em tempos de pandemia. Respostas que sinalizam que sim, existem outras possibilidades para o mundo.
Pluralidade de sinalizações e de possibilidades centradas na vida humana e de todos os demais seres viventes. Acima de tudo, pluralidade que se recusa a aceitar a realidade denunciada por Zeca Baleiro que induz muitos à distopia "... é mais fácil cultuar o mortos do que os vivos. Mais fácil viver de sombras que de sóis. É mais fácil mimeografar o passado do que imprimir o futuro."

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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